Segundo turno reúne candidaturas progressistas e sete disputas estaduais

Omar Aziz, disputa do governo no Amazonas e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro - Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

O campo progressista chega ao segundo turno das eleições de 2026 com candidaturas em quatro das sete disputas pelo governo que chegaram à segunda votação: Rio de Janeiro, Amazonas, Distrito Federal e Rio Grande do Norte. A nova rodada está marcada para 25 de outubro e colocará frente a frente candidatos de diferentes campos políticos em uma eleição marcada pela polarização nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro.

No Rio, Eduardo Paes (PSD) enfrenta Douglas Ruas (PL); no Amazonas, Omar Aziz (PSD) disputa contra Professora Maria do Carmo (PL); no Distrito Federal, Leandro Grass (PT) enfrenta a governadora Celina Leão (PP); e, no Rio Grande do Norte, Cadu de Lula (PT) disputa contra Allyson Bezerra (União).

Em três desses quatro estados, a candidatura progressista aparece diante de um nome identificado com a direita. No Amazonas, a disputa também coloca em lados opostos um candidato do PSD que reúne PT, PCdoB e PV em sua coligação e uma candidata do PL apoiada pelo campo bolsonarista. A composição política varia de estado para estado, mas as quatro eleições terão como elemento comum a disputa entre projetos políticos bastante distintos.

Ao todo, seis estados e o Distrito Federal terão segundo turno confirmado: Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Tocantins. O Rio de Janeiro aparece em uma situação particular: embora a apuração tenha apontado Douglas Ruas e Eduardo Paes como os dois mais votados, a definição ainda depende do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral sobre os votos de Anthony Garotinho.

O segundo turno ocorre quando nenhum candidato alcança mais da metade dos votos válidos no primeiro turno. Nessa situação, os dois mais votados voltam às urnas e vence quem obtiver a maioria dos votos válidos.

Rio de Janeiro: Paes enfrenta Douglas Ruas em disputa ainda sob análise do TSE

No Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL) terminou o primeiro turno à frente, com 49,27% dos votos válidos, contra 42,76% de Eduardo Paes (PSD). A diferença foi de 6,51 pontos percentuais.

A situação, entretanto, não está definitivamente encerrada.

O ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) recebeu 3,17% dos votos, mas teve a candidatura indeferida pela Justiça Eleitoral. Os votos estão sendo tratados como sub judice e a decisão sobre sua validade pode alterar o resultado. Caso sejam definitivamente anulados, Ruas ultrapassa os 50% dos votos válidos e pode ser declarado vencedor já no primeiro turno.

Enquanto a questão jurídica não é resolvida, a disputa entre Ruas e Paes permanece como o cenário do segundo turno.

Paes, ex-prefeito do Rio, chega à nova rodada com uma trajetória política consolidada no estado e com uma candidatura que reúne setores do campo progressista e do centro. Ruas, presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, representa o campo bolsonarista e chegou ao segundo turno depois de quase vencer a eleição já na primeira votação.

A campanha de Ruas também chega à segunda etapa sob questionamentos envolvendo sua atuação administrativa.

O candidato afirmou, durante uma sabatina, que tinha “zero processo” e “zero denúncias”. Checagem da Lupa apontou que a declaração era falsa: Ruas é alvo de investigações relacionadas a contratos com o poder público, possíveis atos de improbidade administrativa e suspeitas de enriquecimento ilícito.

Em agosto, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu uma investigação preliminar envolvendo duas empresas ligadas a Ruas, a Saur Construção, Terraplanagem e Locação e a DM Invest. O MPRJ solicitou informações à Procuradoria-Geral do Estado sobre eventuais pagamentos feitos pelo governo às empresas. A PGE informou não ter localizado pagamentos, e a defesa de Ruas afirmou que as empresas não possuem contratos com órgãos públicos.

Outro episódio envolve contratos da Secretaria Estadual de Cidades durante o período em que Ruas comandou a pasta. Auditoria do governo interino apontou possíveis irregularidades em um contrato de recapeamento de ruas em São Gonçalo que passou de R$ 99,7 milhões para R$ 144,9 milhões após um aditivo de 45%. O documento foi encaminhado ao Ministério Público. Ruas e os demais envolvidos negaram irregularidades.

Amazonas: Omar Aziz enfrenta candidata do PL

No Amazonas, Omar Aziz (PSD) terminou o primeiro turno na liderança e enfrentará Professora Maria do Carmo (PL). Segundo o TSE, com 99,93% das urnas apuradas, Aziz tinha 40,60% dos votos válidos, enquanto Maria do Carmo somava 24,50%.

Aziz é senador e já governou o Amazonas. Sua coligação reúne Republicanos, MDB, PSD e a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, o que coloca sua candidatura dentro de uma frente política mais ampla contra a candidatura do PL.

Maria do Carmo disputa pela primeira vez o governo estadual e tem como vice o coronel Aníbal, do PL.

A campanha da candidata também acumulou episódios questionados pela Justiça Eleitoral. Em setembro, Maria do Carmo foi condenada ao pagamento de R$ 5 mil por propaganda eleitoral negativa. A decisão considerou irregular o impulsionamento pago de um vídeo que associava o adversário David Almeida a suspeitas de compra de votos e facções criminosas.

Outro episódio que ganhou repercussão durante a campanha envolve Rodrigo Soares, que se apresentava nas redes sociais como coordenador da campanha de Maria do Carmo. Ele foi preso em setembro em uma operação que apreendeu cerca de 2,5 toneladas de drogas. Material de campanha da candidata também foi encontrado no local.

Maria do Carmo negou qualquer relação com o tráfico e levou o caso ao Ministério Público do Amazonas para pedir esclarecimentos. Até o momento, não há evidência nas fontes consultadas de que a candidata tenha sido formalmente acusada de participação no esquema de tráfico. O episódio, portanto, deve ser tratado como um questionamento político sobre pessoas próximas à campanha, e não como acusação criminal contra a candidata.

Distrito Federal: Leandro Grass tenta virar contra Celina Leão

No Distrito Federal, a disputa será entre a atual governadora Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT).

Celina terminou o primeiro turno com 49,93% dos votos válidos, a apenas 0,07 ponto percentual dos 50% necessários para vencer a eleição no primeiro turno. Grass ficou com 34,47%.

A eleição coloca frente a frente uma candidatura identificada com a direita e um nome do PT apoiado pelo campo progressista. Grass integra uma coligação formada pela Federação Brasil da Esperança, PDT e Federação PSOL/Rede.

A trajetória de Celina também inclui um antigo processo de grande repercussão no Distrito Federal.

Em 2016, no âmbito da Operação Drácon, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios denunciou Celina por corrupção passiva. A acusação apontava uma suposta negociação de vantagens indevidas envolvendo a destinação de recursos orçamentários e emendas parlamentares.

Em março de 2025, entretanto, a Justiça absolveu Celina Leão da acusação criminal de corrupção passiva. O juiz responsável concluiu que não havia provas suficientes para comprovar a negociação de propina.

O episódio ainda tem desdobramentos na esfera de improbidade administrativa. Em outubro de 2025, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal manteve decisão que considerou válidas as gravações utilizadas como prova na ação de improbidade relacionada à Operação Drácon.

Em 2026, outro assunto passou a pesar politicamente sobre a candidatura: o caso BRB–Banco Master.

O Banco de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal, esteve envolvido na tentativa de aquisição de ativos do Banco Master, operação que posteriormente passou a ser investigada. Celina afirma que não participou das negociações e que eventuais responsabilidades devem ser atribuídas individualmente aos envolvidos.

A campanha também foi atingida por questionamentos envolvendo o candidato a vice, Gustavo Rocha. O advogado Engels Muniz, que administrou o escritório de Rocha enquanto ele ocupava cargo no governo, recebeu R$ 3 milhões do Banco Master e de Daniel Vorcaro, segundo levantamento publicado durante a campanha. O advogado afirmou que não participou das discussões sobre a aquisição do banco pelo BRB e que os pagamentos se referiam a serviços jurídicos.

Outro levantamento apontou que Muniz recebeu R$ 56 milhões entre 2023 e 2026 por serviços jurídicos prestados a empresas contratadas pelo governo do DF. As empresas e o advogado afirmaram que os contratos eram legais e que os serviços foram efetivamente prestados.

Não há, nas informações disponíveis, acusação de que Celina tenha recebido esses valores ou participado pessoalmente das operações. O episódio, portanto, é tratado como questionamento político sobre relações envolvendo integrantes de sua chapa e pessoas próximas ao governo.

Rio Grande do Norte: disputa mais apertada do país coloca PT no segundo turno

No Rio Grande do Norte, a disputa é a mais equilibrada entre os sete estados que chegaram ao segundo turno.

Allyson Bezerra (União) terminou a primeira votação com 36,94% dos votos válidos, enquanto Cadu de Lula (PT) alcançou 36,16%. A diferença foi de apenas 0,78 ponto percentual.

Cadu Xavier, que adotou o nome eleitoral Cadu de Lula, integra uma coligação formada por PDT, PSB e Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. A candidatura busca manter no governo estadual o campo político que esteve à frente do Executivo potiguar nos últimos oito anos, durante os dois mandatos de Fátima Bezerra (PT).

Do outro lado está Allyson Bezerra, ex-prefeito de Mossoró, que chegou à segunda rodada em primeiro lugar.

A candidatura de Allyson, porém, foi atingida durante a campanha pela repercussão da Operação Mederi, investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União sobre suspeitas de fraudes em contratos da área da saúde pública de Mossoró.

A operação foi deflagrada em janeiro, quando Allyson ainda era prefeito. A investigação apura suspeitas de fraude em licitações, desvio de recursos públicos e irregularidades no fornecimento de medicamentos.

Em setembro, ganhou repercussão uma gravação feita pela Polícia Federal no âmbito da investigação. Na conversa, empresários da Dismed, fornecedora de medicamentos da Prefeitura de Mossoró, discutem a divisão de valores de um contrato e mencionam pagamentos que seriam destinados a “Allyson” e a uma mulher chamada “Fátima”. Segundo a investigação divulgada pela imprensa, a referência seria a 15% para o então prefeito e 10% para a servidora.

A investigação também aponta Allyson como um dos principais alvos da Operação Mederi. Ele foi alvo de busca e apreensão em janeiro, inclusive em sua residência.

As acusações permanecem no campo da investigação. Allyson nega envolvimento com irregularidades e não há condenação criminal contra ele por esses fatos.

A disputa, portanto, coloca em lados opostos uma candidatura petista que busca manter o projeto político iniciado por Fátima Bezerra e um candidato que chega ao segundo turno sob forte pressão decorrente das investigações envolvendo sua gestão em Mossoró.

Além dos quatro estados em que candidatos do campo progressista estão no segundo turno, outras três unidades da Federação também voltam às urnas em 25 de outubro.

ACRE

No Acre, Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) disputarão o governo. Mailza terminou o primeiro turno com 49,76% dos votos válidos, enquanto Alan Rick teve 32,27%. Mailza é a atual governadora e concorre à reeleição.

ESPÍRITO SANTO

No Espírito Santo, a disputa será entre Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB). Pazolini terminou o primeiro turno com 49,65%, enquanto Ferraço ficou com 34,06%.

TOCANTINS

No Tocantins, Professora Dorinha (União) e Vicentinho Júnior (PSDB) disputarão o segundo turno. Dorinha terminou a primeira votação na frente, e Vicentinho ficou pouco mais de um ponto percentual atrás.

As sete disputas que chegaram à segunda rodada terão a votação realizada em 25 de outubro. No caso do Rio de Janeiro, entretanto, o cenário ainda pode mudar conforme a decisão do TSE sobre a validade dos votos de Anthony Garotinho.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *