“Tapa na cara do povo”: Governo de Minas quer entregar a Copasa para a dona da Sabesp

À esquerda, imagem da explosão causada pela Sabesp em SP. À direita, represa da Copasa em Minas Gerais - Fotos: Reprodução/Band e Divulgação/Copasa

Apesar das crescentes denúncias sobre a deterioração dos serviços da Sabesp após a privatização, a Equatorial continua ampliando sua presença no setor de saneamento brasileiro. A empresa foi escolhida como investidora de referência finalista no processo de privatização da Copasa, em Minas Gerais nesta quarta-feira (03/06), fortalecendo sua atuação em um setor estratégico para a população.

Por meio da subsidiária Gerais Saneamento, a Equatorial, controladora da Sabesp, ofertou R$ 5,59 bilhões por 30% da Copasa e, como única empresa remanescente na disputa, tornou-se a investidora de referência da privatização. Se adquirir o lote adicional de ações previsto na operação, o aporte poderá atingir R$ 7,94 bilhões, consolidando sua expansão no setor.

A operação, entretanto, é alvo de fortes questionamentos. A deputada estadual Bella Gonçalves (PT) denunciou que o governo de Minas Gerais alterou as condições da oferta às vésperas da venda, reduzindo significativamente o valor de referência das ações da companhia. Segundo a parlamentar, os papéis da Copasa haviam sido inicialmente apresentados ao mercado por cerca de R$ 60 por ação, mas, em menos de 24 horas, o governo reformulou a oferta e reduziu o preço para aproximadamente R$ 47 por ação, patamar próximo ao valor que acabou viabilizando a entrada da Equatorial.

Para a deputada, a mudança beneficiou diretamente a empresa e resultou na venda de uma companhia estratégica por um valor muito inferior ao seu potencial econômico. Bella afirma ainda que o processo avançou antes da conclusão de questionamentos apresentados ao Tribunal de Contas do Estado, de ações judiciais em tramitação e de investigações relacionadas ao processo de privatização.

“O governo de Minas Gerais fez uma manobra para vender as ações da Copasa a preço de banana para a Equatorial”, declarou a parlamentar. Segundo ela, a operação ficou muito distante das projeções apresentadas anteriormente pelo próprio governo estadual, que chegou a afirmar que a privatização poderia render entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões aos cofres públicos.

A deputada também questiona a capacidade da Equatorial de cumprir as metas de universalização do saneamento em Minas Gerais. Para ela, a experiência da empresa à frente da Sabesp deveria servir como alerta. “Vender a Copasa por R$ 5 bilhões é um tapa na cara do povo mineiro”, afirmou.

As denúncias ganham relevância porque a movimentação reforça a estratégia da Equatorial de ampliar sua presença no setor de saneamento após assumir o controle da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), privatizada em 2024. A experiência paulista, porém, vem sendo alvo de fortes críticas de entidades sindicais, especialistas e usuários do serviço.

Em abril deste ano, o Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) denunciou que a Sabesp privatizada reduziu seu quadro de pessoal em cerca de 30% e passou a liderar as reclamações registradas no Procon-SP. Segundo a entidade, a reestruturação promovida após a privatização priorizou a redução de custos e o aumento da rentabilidade dos investidores, com impactos diretos sobre a qualidade dos serviços prestados à população.

As críticas também apontam para a ampliação das terceirizações e o desligamento de trabalhadores experientes. Dados do Procon-SP indicam que a Sabesp liderou o ranking estadual de reclamações em 2025, enquanto acidentes registrados após a privatização reforçaram as preocupações sobre a segurança das operações. Entre os casos mais graves está a explosão ocorrida durante uma obra da companhia no Jaguaré, na capital paulista, que provocou mortes, destruição de imóveis e o desalojamento de famílias.

A Copasa atende cerca de 12 milhões de pessoas em 636 municípios mineiros e apresenta resultados financeiros robustos. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a companhia registrou receita líquida de R$ 7,5 bilhões e gerou aproximadamente R$ 3 bilhões em recursos operacionais, além de manter um nível de endividamento considerado administrável para empresas do setor.

Segundo dados da própria empresa, 81% dos domicílios de Minas Gerais contavam com abastecimento por rede de água e 55% eram atendidos por rede de esgoto em 2024. O governo estadual sustenta que a privatização é necessária para acelerar os investimentos e cumprir as metas do Marco Legal do Saneamento, que prevê a universalização dos serviços até 2033, com cobertura de água para 99% da população e de esgoto para 90%.

O argumento é semelhante ao utilizado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, para justificar a privatização da Sabesp. Críticos da venda da Copasa afirmam, porém, que a experiência paulista produziu resultados opostos aos prometidos. Eles apontam aumento das tarifas, episódios de desabastecimento, denúncias de crimes ambientais, crescimento das reclamações de consumidores e acidentes graves durante obras da companhia, incluindo ocorrências que resultaram em perdas de vidas.

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