O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) avança em mais uma iniciativa que pesquisadores e servidores classificam como um ataque à estrutura pública de ciência e saúde do Estado de São Paulo. O alvo da vez é o Instituto Adolfo Lutz (IAL), uma das mais importantes instituições científicas do país, cuja sede histórica na capital paulista poderá ser desocupada e parcialmente demolida para dar lugar ao chamado “Hospital Inteligente”, projeto coordenado pela cardiologista Ludhmila Hajjar.
Com 134 anos de existência, o Adolfo Lutz é referência nacional e internacional em vigilância laboratorial e diagnóstico de doenças. Apesar disso, servidores denunciam que os planos de transferência e demolição vêm sendo conduzidos sem transparência e sem diálogo com a comunidade científica.
A ameaça ao instituto foi tema de audiências públicas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) na quinta-feira (11), articulada pelos deputados Carlos Giannazi (PSOL) e Beth Sahão (PT), diante das denúncias feitas por pesquisadores e pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC).
A assistente técnica de pesquisa científica e tecnológica do IAL, Giselle Ibette Silva López Lopes, afirmou que os servidores tomaram conhecimento do projeto por meio das redes sociais de Ludhmila Hajjar, coordenadora do Hospital Tecnológico de Medicina Inteligente do Hospital das Clínicas da USP.
“O Adolpho Lutz é reconhecido internacionalmente por sua competência para responder às demandas em sua área de atuação. São quase 600 exames diferentes que realizamos”, destacou Giselle durante audiência na Alesp.
O Instituto é considerado pelo Ministério da Saúde um dos quatro Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) da região Sudeste e atua como referência nacional em diagnósticos de meningites bacterianas, coqueluche, botulismo, hantavírus e síndrome hemolítico-urêmica. Também responde, em nível macrorregional, pelos exames de influenza, dengue e zika, além de ser centro colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para arbovírus e influenza.
Pesquisadores alertam que a retirada do Adolpho Lutz de sua atual estrutura significaria um duro golpe para a saúde pública paulista. Os prédios que abrigam os laboratórios de Bromatologia e Química, Pesticidas e Virologia – alguns deles com instalações de alta biossegurança – estão entre as edificações previstas para demolição.
Nos últimos anos, mais de R$ 100 milhões foram investidos na modernização dessas estruturas. Entre os equipamentos recentemente inaugurados está o laboratório NB3, especializado na manipulação de agentes biológicos de alto risco, utilizado inclusive na investigação de casos suspeitos de doenças como Ebola, tuberculose e hantavírus.
“A demolição desses prédios será a destruição do instituto”, advertiu Giselle. “O que seria um prejuízo enorme para a população do Estado de São Paulo e para a saúde do nosso povo. Se vai ser destruído um instituto sem sequer conversar ou avisar os seus servidores, isso é muito grave”, acrescentou.
Os imóveis do complexo da Avenida Doutor Arnaldo, incluindo o edifício principal projetado pelo escritório Ramos de Azevedo, são tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Ainda assim, o governo estadual trabalha na cessão do terreno para a União, que ficará responsável pela construção do novo hospital.
Segundo estudo elaborado pelo Ministério da Saúde, o empreendimento receberá investimentos de R$ 1,915 bilhão, dos quais 97,1% virão do governo federal e de financiamento obtido junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição vinculada ao Brics. O Estado de São Paulo participará com apenas R$ 55 milhões.
O futuro Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), conhecido como “Hospital Inteligente”, terá 800 leitos e deverá ser inaugurado em 2029. O projeto concebido por Ludhmila Hajjar prevê a incorporação intensiva de novas tecnologias e inteligência artificial na assistência hospitalar.
Entretanto, o documento do Ministério da Saúde que fundamenta a iniciativa estabelece que a unidade será administrada por uma Organização Social de Saúde (OSS), ampliando o modelo de gestão privada que vem sendo defendido pelo governo paulista.
Para entidades ligadas à pesquisa científica, o episódio representa mais um capítulo da política de desmonte promovida pela gestão Tarcísio de Freitas contra instituições públicas estratégicas do Estado. A ausência de transparência nas tratativas e a possibilidade de destruição de laboratórios recentemente reformados são vistas como evidências de uma política que subordina estruturas históricas de pesquisa e vigilância em saúde a projetos de privatização e terceirização dos serviços.
PASSAR O TRATOR
“O governador Tarcísio de Freitas não cansa de destruir São Paulo. Agora, ele quer passar o trator no Instituto Adolfo Lutz, patrimônio histórico, científico e da saúde pública paulista, criticou a deputada federal por São Paulo Luciane Cavalcante (PSOL). Luciene, que participou da audiência na Alesp, informou que enviou uma série de requerimentos cobrando explicações do Ministério da Saúde, da Secretaria-Geral da Presidência da República, do governador Tarcísio, da direção e da reitoria da Faculdade de Medicina da USP.
“Acionei, ainda, os Ministérios Públicos do Patrimônio Público, da Saúde, e o Tribunal de Contas do Estado”, acrescentou a parlamentar. “Não é admissível que, para termos um ganho por um lado, precisemos perder por outro. Não vamos aceitar esse tipo de situação”, afirmou.
Ao colocar em risco uma instituição centenária responsável por diagnósticos fundamentais em situações de epidemias e emergências sanitárias, o governo paulista aprofunda uma política de enfraquecimento da capacidade científica do Estado e de desvalorização dos organismos públicos que sustentam o Sistema Único de Saúde.
A iniciativa também provocou forte reação nas redes sociais. Em publicações da deputada Luciene no Instagram, internautas manifestaram indignação diante da possibilidade de descaracterização de uma instituição considerada estratégica para a saúde pública.
“Adolfo Lutz, hoje essencial para a população”, escreveu uma usuária. Outra defendeu a preservação do instituto, classificando-o como “um patrimônio do povo brasileiro”. Houve ainda críticas diretas ao governador Tarcísio, acusado por seguidores de promover medidas contrárias aos interesses da população paulista e de colocar em risco uma estrutura científica fundamental para o enfrentamento de epidemias e para a vigilância em saúde.











