“Tesouraço” de Flávio é ameaça à economia das cidades do interior, aponta FEA/USP

Recursos dos programas circulam no comércio local, garantem empregos e mantém a arrecadação municipal ativa. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

“Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, afirma a economista Luiza Nassif

Os cortes nos benefícios sociais, em especial os da Previdência e do BPC, trariam impacto arrasador na economia de cerca de 4 mil dos 5.569 municípios do Brasil que não fazem parte das regiões metropolitanas, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

De acordo com o estudo, nessas cidades do interior, o peso dos programas sociais chega a ser o dobro em relação aos dos grandes centros urbanos.

A “tesourada” defendida pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro, que visa cortar em torno de R$ 250 bilhões do orçamento, só seria possível na Previdência Social e nos programas sociais, segundo alertam economistas.

As aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), além de contribuir para gerar a economia nos pequenos municípios, chegam a representar quase metade do orçamento das famílias mais pobres, aponta o estudo.

“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, destaca Luiza Nassif, professora da Unicamp e pesquisadora do Made, em reportagem da Agência Brasil sobre o estudo.

“Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, ressalta Nassif. “Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, defende.

No Ceará, por exemplo, os benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada da capital e região metropolitana. Nas cidades do interior, esse número é de 40%.

O estudo tem como base o recente período em que houve reajuste real para o BPC e aposentadorias, no goveerno Lula, comparando com o governo anterior de Jair Bolsonaro, quando, além do congelamento do salário mínimo, ocorerram congelamento e até mesmo cortes nos programas sociais.

As projeções feitas pelo Made para os benefícios sociais e previdenciário apontam que, sem observar os atuais reajustes com crescimento real nas aposentadorias e no BPC, a renda agregada do interior do país sofreria uma retração profunda, ficando entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar com a valorização real desses benefícios.

Simulações realizadas pelo levantamento indicam que a ausência de ganhos reais nos benefícios, teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas, 2,4 milhões delas para extrema pobreza.

“Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”, avalia Nassif.

“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, alerta Nassif. Segundo ela, para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem chegar a 50% do rendimento.

Sem o aumento real, em números absolutos, as maiores altas na pobreza ocorreriam na Bahia (até 336 mil pessoas a mais), São Paulo (até 263 mil) e Minas Gerais (até 251 mil), seguidos por Maranhão, Pará e Ceará (com mais de 200 mil pessoas cada).

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