Trump anuncia que vai roubar 21% das reservas de petróleo da Venezuela

Imagem de unidade da PDVSA ( post no Facebook da empresa, sem crédito)

Extorsão foi ‘negociada’ pelo secretário de Guerra Hegseth e pelo secretário de Estado Rubio

O presidente Donald Trump anunciou neste sábado o roubo descarado de 21% das reservas de petróleo da Venezuela, 65 bilhões de barris de petróleo, o que, de acordo com o The New York Times, é mais do que as reservas de petróleo comprovadas dos EUA, que é o maior produtor mundial.

Ainda segundo Trump via Truth Social, o “acordo” foi “negociado” pelo seu chefe do Pentágono, Pete Hegseth, e pelo secretário de Estado Marco Rubio. Ele descreveu o esbulho como “o maior acordo de petróleo da história mundial”.

Desde a agressão militar dos EUA à Venezuela em 3 de janeiro deste ano, que matou uma centena de venezuelanos e cubanos da guarda do presidente Nicolás Maduro e o sequestrou, a Venezuela se encontra sob intervenção aberta de Washington, enquanto Trump seguidamente faz postagens sobre tornar o país no “51º estado” norte-americano.

Ao se reunir com executivos do setor petrolífero em janeiro, após o sequestro de Maduro, Trump lhes disse que decidiria quais empresas reconstruiriam o setor (na Venezuela): Vocês estão lidando conosco diretamente. Você não está lidando com a Venezuela de jeito nenhum.”

Até mesmo a Bloomberg, que não pode ser acusada de radicalismo, observou “tomar uma participação nas reservas da Venezuela equivaleria a uma intervenção quase sem precedentes dos EUA na economia de outro país”, vendo isso como uma manifestação da Doutrina Donroe, a doutrina Monroe atualizada por Trump.

Segundo o El país, o “acordo” tem “muitas pontas soltas”. Ao que parece, seu anúncio foi apressado diante da alta da gasolina nos EUA e da falta de diesel decorrentes da fracassada guerra de Trump-Netanyahu contra o Irã, o que configura um quadro ameaçador para o controle republicano sobre o Congresso nas eleições intermediárias de novembro.

O NYT se referiu à sua “opacidade”, enquanto Trump assevera que o achaque teve participação de “setores privados” e que deve colocar “sob controle majoritário dos EUA” as reservas mencionadas..

Desde o ataque dos EUA à Venezuela em 3 de janeiro deste ano, que matou uma centena de venezuelanos e cubanos e sequestrou o presidente Nicolás Maduro, a Venezuela se encontra sob intervenção aberta dos EUA.

Mirando as eleições, Trump disse também que essa “transação histórica” vai “reduzir substancialmente os preços da gasolina para todos os americanos por muitos anos”. Mais que dobra as reservas americanas de petróleo, aumenta significativamente nosso fornecimento, acrescentou.

Com um governo caracterizado por arregimentar sócios e parentes como “enviados especiais” em negociações internacionais, resta ver quais dos amigos do plutocrata serão diretamente beneficiados. Sobre isso, nada foi dito, nem sob qual regime iriam operar.

A pilhagem das reservas de petróleo venezuelanas tem ainda outro aspecto decisivo no que toca aos EUA: como suas refinarias foram construídas para processar petróleo pesado, a atual produção de óleo leve do fracking precisa ser adicionada a petróleo mais denso, o que obriga a importação, principalmente do Canadá – contra o qual Trump declarou guerra comercial – e da Venezuela, agora sob tutela.

A pilhagem também serviria para o objetivo de reabastecer a esvaziada, em 41%, reserva estratégica de petróleo dos EUA, em consequência da guerra contra o Irã e do fechamento de Ormuz.

Muitas questões permanecem vagas e a mídia anunciou que o secretário de Energia de Trump irá a Caracas na próxima semana – inclusive com conciliar o achaque intentado com as leis venezuelanas.

As reservas comprovadas de petróleo da Venezuela somam 303 bilhões de barris de petróleo bruto, segundo dados históricos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

O anúncio feito por Trump remete à declaração do mais condecorado general de marines da história dos EUA, Smedley Butler, “a guerra é uma extorsão”. “Passei 33 anos e quatro meses no serviço militar ativo […] e, durante esse período, passei a maior parte do meu tempo sendo um capanga de primeira classe para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em resumo, eu fui um chantagista, um gângster do capitalismo”, ele afirmou celebremente nos anos 1930.

“Aos vencedores, os despojos do petróleo”, afirmou em junho Trump, tentando fazer o direito internacional retroceder ao século XIX e à era colonial.

“DESENVOLVIMENTO DE 17 CAMPOS ESTRATÉGICOS”

A presidente interina Delcy Rodríguez, ex-vice empossada após o sequestro de Maduro, hoje aprisionado nos EUA, confirmou o acordo, acrescentando que “contempla o desenvolvimento de 17 campos estratégicos, […] um investimento de mais de 100 bilhões de dólares e mais de 209 bilhões de dólares em tributos para o Estado”.

Rodríguez disse ainda que “esses investimentos contribuirão não apenas para a recuperação e modernização de nossa indústria, mas também para o crescimento econômico de nosso país, para a segurança energética de nosso hemisfério e para um maior equilíbrio entre os mercados internacionais.” Em nota, o Partido Socialistas Unificado da Venezuela (PSUV), manifestou apoio à cessão de 21% das reservas.

Um dos grandes produtores mundiais, a Venezuela, sob as sanções iniciadas por Obama ao declarar o país uma “ameaça extraordinária à segurança nacional dos EUA” e depois drasticamente agravadas pelos governos Trump 1 e Biden, viu seu setor de petróleo ser sucateado, com a produção caindo para menos da metade e a exportação proibida por Washington, para estrangular o país soberano.

“Ultrapassamos a marca de um milhão e agora estamos em 1.230.000. E, em diversos meios, reconhece-se amplamente que a solução é, de fato, a Venezuela”, afirmou a interina.

A intervenção dos EUA sobre a Venezuela tem incluído o controle, pelo Departamento do Tesouro norte-americano, das receitas das exportações de petróleo venezuelano, que repassa para Caracas uma pequena parte do arrecadado.

INIMIGO É A POTÊNCIA OCUPANTE

Em entrevista ao HP, o ex-vice-presidente Elias Jaura enfatizou que as correntes patrióticas revolucionárias venezuelanas “não consideramos – ao menos alguns de nós veem assim – que o adversário seja o atual governo, mas que o inimigo que temos é a potência ocupante.”

“Estamos centrados em levantar uma consciência, em promover uma mobilização voltada diretamente a denunciar quem nos ocupa, quem nos agrediu militarmente, quem está espoliando nossos recursos, quem se arrogou o direito de administrar as receitas de toda uma nação soberana.”

“Assim, nosso esforço, muito mais do que questionar ou criticar o que o governo faz ou deixa de fazer, muito além da direção política, inclusive da oposição, decidimos levantar a voz em favor do fim da ocupação e da recuperação plena da soberania nacional, da independência nacional, como única possibilidade de recuperar nossa estabilidade política, econômica e social.”

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