“Os Estados Unidos entendem que, para suavizar ou desacelerar seu declínio como potência hegemônica, precisam se apropriar dos recursos minerais de toda a nossa região”, condenou Marlon Ochoa, ex-membro do Conselho Nacional Eleitoral de Honduras, e ex-ministro de Finanças e do Serviço de Administração de Rendas
“Os bancos e empresas de telecomunicações transnacionais uniram-se, na semana das eleições de Honduras, para enviar milhões de mensagens aos destinatários das remessas, alertando-os de que, se Rixi Moncada, candidata do Partido Libre, vencesse o pleito, eles perderiam esses recursos. Além disso, Donald Trump publicou mensagens em suas redes sociais e pediu votos para seu candidato, Nasry Asfura – que hoje é presidente – e atacou os outros dois que lideravam as pesquisas”, afirmou o ex-membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras, Marlon Ochoa.
Apresentando áudios que comprovam “a maior interferência dos Estados Unidos nas eleições de sua história”, por meio da intervenção direta do “consultor” argentino Fernando Cerimedo – atualmente preso na Bolívia –– nas eleições gerais hondurenhas de novembro de 2025, Marlon Ochoa reitera a importância crucial da reeleição de Lula no próximo domingo.
Em entrevista exclusiva, recorda que Trump apelou e, dois dias antes das eleições, “anunciou que concederia perdão ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os EUA e que cumpria pena de 45 anos de prisão”.
Diante de tantos e tamanhos atentados à democracia, como a manipulação e fraude de atas eleitorais, o ex-membro do CNE, ex-ministro de Finanças e do Serviço de Administração de Rendas do governo de Xiomara Castro, elogiou a postura soberana do “presidente Lula, que está bastante atento à ingerência de Trump”. “Há alguns dias os EUA enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo não permitiu a entrada deles”, assinalou Ochoa, atualmente exilado no México pelas ameaças de morte.
Boa leitura.
LEONARDO WEXELL SEVERO
Apresentaste áudios que comprovam a intervenção direta de Fernando Cerimedo na fraude que levou o ultradireitista Nasry Asfura à presidência de Honduras, no que foi, como denunciaste “a maior interferência dos Estados Unidos em eleições na história do país”. Como ocorreu essa intervenção?
Bom, para explicar a intervenção dos Estados Unidos nas eleições de novembro de 2025, é preciso falar um pouco sobre o que aconteceu especificamente na semana anterior ao processo eleitoral. Cinco dias antes das eleições, em pleno período de silêncio eleitoral (Honduras, assim como muitos outros países da América Latina, tem um intervalo em que não se pode fazer propaganda eleitoral), Donald Trump publicou mensagens em suas redes sociais.
Em primeiro lugar, ele pediu votos para seu candidato, Nasry Asfura – que hoje é presidente – e atacou os outros dois candidatos que, naquele momento, lideravam as pesquisas: Salvador Nasralla, outro de direita, e Rixi Moncada, a do Partido Liberdade e Refundação (Libre), de esquerda. Além disso, na mensagem, ele afirmou que, se Rixi Moncada vencesse, os Estados Unidos imporiam sanções ou haveria consequências econômicas. Isso se conectou a uma campanha que a direita hondurenha vinha promovendo há muitas semanas, alegando que, com a vitória de Rixi Moncada, Honduras perderia as remessas financeiras.
Os bancos e empresas de telecomunicações transnacionais uniram-se, na semana das eleições, para enviar milhões de mensagens aos destinatários de remessas, alertando-os de que, se Rixi Moncada vencesse o pleito, eles perderiam esses recursos. O Partido Libre apresentou uma denúncia ao Ministério Público a esse respeito. Nesse contexto, a mensagem de Trump, alertando para uma possível consequência econômica da vitória de Rixi Moncada, alinha-se diretamente a essa narrativa que a direita vinha cultivando há semanas.
Esse é o primeiro ponto. Nos últimos anos, as remessas representaram entre 24% e 30% do PIB; Honduras é o país do continente americano que mais depende desse tipo de recurso. O principal país de origem dessas remessas são os Estados Unidos. Trata-se de um dado importante, pois a situação não pode ser plenamente compreendida sem que se entenda a relevância e a magnitude da questão das remessas em Honduras.
Em segundo lugar, naquela mesma semana de silêncio eleitoral – dois dias antes, na sexta-feira que antecedeu as eleições -, Donald Trump anunciou que concederia perdão ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e que cumpria pena de 45 anos de prisão.
POR DETRÁS DA ARMAÇÃO, O CRIMINOSO LOBBY ISRAELENSE
Agora, revelou-se que por trás desse perdão estava o lobby sionista – que pagou por ele. Também foi revelado, há apenas algumas semanas – em uma investigação do programa 60 Minutos -, que existe uma rede de lobistas próximos a Trump, ao movimento MAGA (Make America Great Again – Tornar a América Grande Novamente) e aos “libertários” americanos que cobram pelos perdões concedidos por Trump; já são mais de 2.000 perdões nestes dois anos de presidência. O perdão teve um efeito impressionante, sobretudo no crime organizado em Honduras, e acredito agora que esse efeito foi planejado. Em Honduras, existem dois grupos de crime organizado muito fortes: primeiro, aqueles que se agrupam em torno do narcotráfico – os cartéis de drogas – e outros que se agrupam em torno das “maras”.
O fenômeno do narcotráfico é fundamentalmente rural – isto é, os cartéis se estabelecem mais em zonas rurais do que urbanas -, enquanto as “maras” (gangues criminosas e extremamente violentas) são mais um fenômeno urbano. E o perdão de Trump, diante desses dois grupos do crime organizado, enviou uma mensagem propondo um pacto: vocês têm sua impunidade garantida, desde que meu candidato vença. Essa é a intervenção, a ingerência mais clara que houve antes das eleições; e, depois das eleições, os Estados Unidos – ou melhor, Trump – publicaram uma mensagem em 2 de dezembro, dois dias depois, ameaçando aqueles que ousassem (segundo a mensagem) limitar ou impedir a contagem de votos, afirmando acreditar que seu candidato venceria; foi uma reação.
O que aconteceu nos dias seguintes às eleições foi que os EUA pressionaram praticamente para impedir a conclusão da apuração das atas e barraram o processamento das impugnações – foram apresentadas mais de 84 impugnações aos resultados, apenas no nível presidencial. Em Honduras, a lei estabelece que a eleição só pode ser declarada quando a totalidade das atas tiver sido contabilizada.
“Nesta eleição hondurenha, as duas conselheiras do Conselho Nacional Eleitoral – escondidas na embaixada da França e sob a proteção da embaixada dos EUA – fizeram uma declaração sem que fossem contabilizadas mais de 300 atas, que representavam mais de 100.000 votos”
No entanto, nesta eleição, as duas conselheiras do Conselho Nacional Eleitoral – escondidas na embaixada da França e sob a proteção da embaixada dos Estados Unidos – fizeram uma declaração sem que fossem contabilizadas mais de 300 atas, que representavam mais de 100.000 votos (o volume eleitoral nessas 306 atas era exatamente de 132.000 votos), sendo que a diferença entre o primeiro e o segundo colocado era de apenas 27.000 votos; portanto, essas atas não contabilizadas excediam claramente a quantidade de votos que faltavam ser apurados. [Vale lembrar que Asfura obteve 40,3%, superando por uma margem bastante apertada o segundo colocado, Salvador Nasralla, que registrou 39,53%].
Além disso, nenhuma das impugnações foi sequer admitida, muito menos processada; houve contestação da totalidade das atas porque, na grande maioria delas – exatamente 72% das atas da eleição -, havia inconsistências entre a quantidade de eleitores registrada na ata (em Honduras, ainda utilizamos um sistema de atas manuscritas) e a quantidade de eleitores registrada no leitor de impressões digitais, equipamento obrigatório no sistema eleitoral hondurenho. Constatou-se a existência de centenas de milhares de eleitores falsos em 13.000 das 18.000 atas; ou seja, em 72% das atas, havia mais eleitores registrados do que aqueles que efetivamente compareceram para votar. Naquele momento, exigi que as impugnações apresentadas fossem processadas e que realizássemos uma recontagem voto a voto de toda a eleição – ou, pelo menos, daquelas 13.000 atas que apresentavam inconsistências entre o número de eleitores registrado pelo leitor de digitais e o que constava nas atas físicas. A resposta que recebi foi que o Departamento de Estado dos Estados Unidos havia emitido um comunicado suspendendo o visto de vários funcionários eleitorais de Honduras e a permissão de entrada nos EUA para quem, na época, presidia o Congresso Nacional; além disso, o Departamento de Estado informou que meu visto havia sido negado — visto que eu solicitara para participar de uma reunião da OEA sobre a questão eleitoral menos de um mês antes — sob a alegação de que eu havia atentado contra a democracia.
E a segurança nacional…
E a segurança nacional, exatamente. Naquela época, recebi uma informação anônima – já havia recebido anteriormente áudios que revelavam um plano para atentar contra o processo eleitoral – e, por volta daqueles dias, recebi também outro pacote de áudios. Neles, ouvia-se a voz de Fernando Cerimedo instruindo – presumimos nós que o próprio agora presidente Nasralla – a não aceitar nenhuma contagem de votos, pois tudo já estava acertado.
Ou seja, já haviam inserido votos onde era necessário e retirado votos de onde era preciso. Todas as atas já estavam ajustadas e, sob nenhuma hipótese, deveriam aceitar a contagem voto a voto. Entregamos esses áudios ao Ministério Público e, poucas semanas depois – quando o órgão já estava pronto para enviá-los à Colômbia para perícia -, a Suprema Corte de Justiça, em um fato sem precedentes na história de Honduras, ordenou o arquivamento da investigação. Determinou ao Ministério Público que não desse prosseguimento ao caso, pois a investigação envolvia funcionários eleitorais que, segundo a interpretação da Corte naquele momento, gozavam de imunidade – apesar de tal figura jurídica não existir em Honduras. A Corte não apenas afirmou que eles tinham imunidade penal, mas também que não podiam ser investigados. Assim, a investigação foi encerrada.
Mas, pelo menos, tornamos públicos os áudios nos quais é possível distinguir claramente que Fernando Cerimedo – independentemente de como tenha sido interpretado em vários dos países da América Latina onde atuou – não apenas desempenhava um papel na área de comunicação, mas também foi um dos arquitetos e operadores da fraude de Trump no caso hondurenho.
Ameaçado de morte, precisaste deixar Honduras. Como encaras essa pressão e toda a situação atual em Honduras, sem poder levantar a voz em defesa dos direitos?
O Partido Libre entregou o poder em 27 de janeiro; praticamente 10 dias depois, fui informado de que havia um plano para me prender e, posteriormente, mandar me matar dentro da prisão. As prisões em Honduras são bastante inseguras, portanto contratar alguém para cometer um ato desses lá dentro é muito fácil, e eles sabem disso. Apresentei um pedido de medidas cautelares à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ao qual não obtive resposta, e recorri às Nações Unidas para solicitar proteção. Devido ao cargo que eu ocupava – e a outros cargos anteriores, como ministro das Finanças e ministro da Arrecadação -, eu já havia recebido ameaças de morte e corrido riscos; por isso, contava com medidas de segurança que foram reduzidas com a mudança de governo. Substituíram a equipe de minha confiança que me acompanhava, o que identifiquei como parte de uma estratégia para me intimidar.
“Fui notificado por pessoas da comunidade de inteligência hondurenha sobre a existência de um plano para me assassinar”
Mais tarde, em fevereiro, fui notificado por pessoas da comunidade de inteligência hondurenha sobre a existência de um plano para me assassinar. Os mentores desse plano seriam o hoje ex-presidiário Juan Orlando Hernández, a conselheira do Partido Nacional José López Osorio e o atual presidente do Congresso Nacional, Tomás Zambrano.
Segundo as informações que recebi, o plano consistia em me afastar do cargo e, uma vez fora dele, emitir um mandado de prisão e mandar me matar dentro da cadeia. Foi assim que executaram imediatamente o primeiro processo de impeachment e destituíram o então procurador-geral, Joel Zelaya. Diante disso, decidi sair do país e permaneço fora dele.
Que cartas acha que os Estados Unidos, e seus instrumentos, como a CIA, poderiam jogar? Qual é a importância de estarmos alertas numa frente contra o fascismo? Porque aqui interpretamos que é uma disputa entre Lula e Trump, não uma disputa simplesmente com os Bolsonaro.
Sim, a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos interpreta que as reservas de terras raras do Brasil pertencem ao governo norte-americano. Nos últimos meses, a China tem agido para limitar as exportações de terras raras – e de lítio também, bem como de materiais críticos – e, há vários meses, os EUA entendem que, para suavizar ou desacelerar seu declínio como potência hegemônica, precisam se apropriar dos recursos minerais de toda a nossa região.
A América Latina, como região, detém a segunda maior reserva de terras raras e materiais críticos, e os Estados Unidos sabem que precisam ter controle político e material sobre esses recursos para conseguir suavizar sua queda. Acredito que esse seja o principal interesse dos Estados Unidos nesta eleição. Lula tem defendido que tanto a China quanto os Estados Unidos possam acessar esses recursos brasileiros, mas tem impulsionado programas para avançar na transformação produtiva desses recursos dentro das fronteiras brasileiras, a fim de aumentar o valor agregado deles.
Os Estados Unidos não aceitam nem sequer isso – nem mesmo essa condição mínima para poder acessar os recursos brasileiros -, e o Brasil é a última peça que faltaria a Donald Trump para acessar países que possuem reservas importantes de recursos estratégicos; afinal, ele já conta com os três países do Triângulo do Lítio (Bolívia, Chile e Argentina), e o Brasil seria a peça final, já que detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo.
AO que os brasileiros deveriam estar atentos?
Bem, acredito que eles estejam bastante atentos; felizmente, têm a vantagem de já ter visto o que aconteceu nas eleições do Peru, por exemplo, bem como nas da Colômbia e de Honduras, e vejo o presidente Lula bastante atento a isso. Como vocês sabem, há alguns dias os Estados Unidos enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo do Brasil não permitiu a entrada deles; por isso, creio que já existe o alerta necessário e que estão agindo nesse sentido.
“O presidente Lula está bastante atento à ingerência de Trump. Há alguns dias os EUA enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo não permitiu a entrada deles”
Com base na experiência das últimas eleições na América Latina, eu diria que os Estados Unidos estudam nossas sociedades, compreendem-nas bem e geralmente agem onde estimam que podem gerar o maior impacto. Em sociedades como as de Honduras e da Colômbia – onde há grandes segmentos da população com vínculos culturais e históricos com os Estados Unidos -, eles sabem que o apoio a um candidato pode ser mais bem aceito. Não acredito que o apoio de Trump a Flavio Bolsonaro no Brasil tenha a mesma aceitação; por isso, as táticas variam de acordo com o país.
Acredito que o controle sobre o órgão eleitoral é muito importante para os Estados Unidos, que podem exercê-lo de forma direta – influenciando seus funcionários – ou indireta, por meio do aparato diplomático, ameaçando revogar vistos ou impor sanções. Ainda ontem foi anunciado, por exemplo, que o Departamento de Estado revogou o visto do procurador-geral da Bolívia, e é evidente que isso ocorre porque ele está avançando na investigação contra Fernando Cerimedo. Portanto, lembrar da soberania das autoridades eleitorais é fundamental.
Já um país como o Brasil, que possui um mercado grande o suficiente para usar o acesso a ele como alavanca, deve manter uma relação de maior verticalidade, especialmente com as plataformas de redes sociais. Há alguns dias, vimos o Facebook limitar a capacidade da equipe de campanha de Lula de realizar impulsionamentos. Caso haja segundo turno – e tudo indica que haverá -, o governo brasileiro deve trabalhar, no período que antecede a nova votação, para garantir que as redes sociais sejam um campo de batalha o mais equilibrado possível; um espaço de interação social e de socialização política que, hoje em dia, é o mais importante de todos.
As pessoas passam a maior parte do dia nas redes sociais: é lá que se informam, se entretêm, se comunicam com outras pessoas e também se organizam politicamente. Por isso, o governo brasileiro deve agir conforme julgar adequado, mas precisa utilizar o acesso ao mercado brasileiro – condicionando a atuação dessas plataformas no país – para alcançar um objetivo simples: garantir que as redes sociais não se tornem um espaço de ataque à democracia brasileira.











