DAVI MOLINARI
Cheguei no horário ao Fale Mais Sobre Isso, porque pontualidade é a única virtude que me resta desde que perdi a fé nas instituições. Na porta, dois estagiários da ABIN — com aquele olhar vago de quem ainda está aprendendo a grampear um boteco sem derrubar a coxinha — pareciam figurantes rejeitados de uma paródia da Netflix sobre o baixo clero da espionagem institucional.
Juvenal, garçom veterano que já viu mais golpes de Estado do que troca de barril de chope, abriu caminho com a autoridade de quem serve a própria Suíça:
— Passa, doutorando da paranoia. Hoje o prato do dia é manjubinha frita com escuta ambiental.
Sentei. O Doutor, meu analista de boteco, anotava algo na caderneta. Podia ser uma interpretação profunda do meu Édipo mal resolvido — ou apenas a soma das minhas sessões atrasadas corrigida pelo IPCA do remorso, com juros compostos de autopiedade.
Na TV, volume baixo, o roteiro de sempre: Trump ameaçava, a família Bolsonaro rosnava contra o STF e o Congresso tentava batizar a impunidade de “dosimetria” — nome técnico para o velho jeitinho com latim. Ninguém ligava. O bar discutia se a fritura do STF era pecado venial ou acompanhamento obrigatório do chope.
— Tô achando que estamos grampeados — cochichou Juvenal, servindo as tulipas com colarinho regulamentar. — O bloco “O Rombo do Master” ia sair no Carnaval. Do nada, o juiz mandou parar. Como souberam? Tão achando que aqui é reunião secreta do STF onde qualquer um pode grampear? Daqui a pouco o Poder360 publica a ata do nosso happy hour com direito a aspas da minha omissão involuntária.
Ri. Mas ri como vilão shakespeariano segundos antes de empurrar o herói da torre.
Peguei uma manjubinha como se fosse um cetro folheado a ouro:
— Juvenal, a Ambição é o motor que move o mundo; a Cobiça é o incêndio que aciona o seguro. O Caso Master não chega a ser tragédia clássica — é chanchada premium com trilha cafona. Veja Daniel Vorcaro: sorri no tapete vermelho com a elegância de quem assina contratos suspeitos entre um brinde e outro. Cinquenta bilhões de reais evaporados como gelo seco em festa na mansão de Trancoso avaliada em 300 milhões de reais. É o Id sem freio com cartão corporativo.
Juvenal coçou a cabeça, equilibrando a bandeja:
— É tipo Rei Midas ao contrário, né? Onde toca, a Receita aparece.
— Pior. É coreografado. A imprensa está hipnotizada pelo “quem gravou quem” no STF. Drama egoico, Persona ferida, nota pública redigida com sais de banho. Enquanto o país discute a solidariedade protocolar ao Toffoli, a cobiça passa ilesa pela alfândega moral. João Carlos Mansur leva o cofre pela porta dos fundos sorrindo com crachá de compliance e manual de ética plastificado.
O Doutor fechou a caderneta com um estalo seco. Silêncio estratégico. Levantou-se, ajeitou o paletó e pagou a conta exata — porque, para ele, exagero é sempre sintoma.
Olhou-me por cima dos óculos, como quem encerra o quinto ato de uma peça sangrenta, e sentenciou:
— Onde a ambição faz o discurso, a cobiça redige o contrato.
E saiu, deixando apenas o rastro de sabedoria e o vácuo na mesa.
Eu fiquei.
No fim, percebi o truque: o verdadeiro escândalo não é flagrar a Justiça com a mão na cumbuca. É a arte da distração profissional. Enquanto se debate a generosidade financeira de Vorcaro com mulheres dos homens do poder ou microfones escondidos no STF, a maior engenharia de lavagem de dinheiro da história queima as pontas soltas e evapora as pistas em jatinhos para os Emirados Árabes.
Comi a última manjubinha.
E juro: tinha gosto de segredo frito em óleo reaproveitado de cinismo estrutural.
Publicado originalmente em Divã no Boteco LXXIII. Enviado pelo autor.











