Brasil e China anunciam fábrica de tratores agrícolas voltada para pequenos produtores

Foto: Divulgação/MST

A construção da primeira fábrica de máquinas agrícolas voltada exclusivamente para a agricultura familiar no Brasil foi confirmada nesta sexta-feira (6), com a assinatura de três contratos em Pequim. O projeto é fruto de uma parceria entre a Sinomach, principal indústria do setor de maquinário da China, e a empresa brasileira de ciência e tecnologia OZ Earth, tendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e a Prefeitura de Maricá, no Rio de Janeiro, como parceiros estratégicos. O empreendimento será instalado no distrito de Ponta Negra, no município de Maricá e representa um novo capítulo da cooperação econômica e tecnológica entre Brasil e China no setor agrícola.

O projeto reúne a empresa estatal chinesa Sinomach, uma das maiores fabricantes de maquinário do mundo, e a empresa brasileira de tecnologia agrícola OZ Earth. A iniciativa prevê investimento estimado em cerca de R$ 200 milhões e tem potencial para gerar aproximadamente 500 empregos indiretos na região, além de estimular cadeias produtivas ligadas ao setor industrial e agrícola.

De acordo com os termos firmados entre os parceiros, a nova unidade industrial terá capacidade inicial para produzir até cinco mil tratores por ano. Os equipamentos serão fabricados em modelos de 25 e 50 cavalos de potência, projetados especificamente para atender às necessidades da agricultura de pequena escala e das cooperativas da agricultura familiar. A proposta é ampliar o acesso à mecanização em propriedades que historicamente tiveram dificuldade para adquirir máquinas de grande porte produzidas pelas montadoras tradicionais.

O arranjo industrial começará com o modelo conhecido internacionalmente como SKD, sigla para “Semi Complete Knockdown”. Nesse sistema, os tratores chegam ao país parcialmente desmontados e são montados na unidade brasileira. A estratégia permite iniciar rapidamente a produção local enquanto se desenvolve gradualmente a cadeia nacional de fornecedores. A meta estabelecida pelos responsáveis pelo projeto é alcançar pelo menos 60% de conteúdo nacional nas máquinas ao longo dos primeiros anos de operação, o que possibilitaria maior autonomia tecnológica e acesso a incentivos fiscais previstos pela legislação brasileira.

Além da produção industrial, o acordo prevê cooperação tecnológica entre Brasil e China para o desenvolvimento de soluções digitais voltadas à agricultura. Entre as perspectivas discutidas está a integração das máquinas com plataformas inteligentes de gestão agrícola, capazes de auxiliar produtores no planejamento e na otimização da produção. A iniciativa também prevê que a mecanização seja acompanhada de políticas públicas de financiamento, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), permitindo que cooperativas e associações de pequenos agricultores tenham acesso aos equipamentos produzidos em Maricá.

Para representantes do MST envolvidos na negociação, o acordo representa um passo estratégico que vai além da mecanização do campo. Segundo dirigentes do movimento, a instalação da fábrica integra uma visão mais ampla de industrialização ligada ao desenvolvimento da agricultura camponesa no país, combinando produção agrícola, tecnologia e geração de empregos. O movimento também destaca que a iniciativa pode contribuir para reduzir a penosidade do trabalho rural, ampliar a participação de mulheres na produção agrícola e criar condições para a permanência da juventude no campo.

A parceria também se insere em um contexto mais amplo de cooperação econômica entre países do chamado Sul Global. Para os articuladores do projeto, a iniciativa pode servir de modelo para outras experiências internacionais de colaboração tecnológica voltadas à agricultura familiar. Nesse sentido, a fábrica em Maricá é vista pelos participantes como um experimento de integração entre poder público, empresas privadas e organizações sociais, com o objetivo de fortalecer cadeias produtivas voltadas à produção de alimentos e à soberania alimentar.

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