Conferência da ONU de revisão da Não-Proliferação elege Irã para uma vice e enviado de Trump dá piti

Secretário-geral, Gutierres, fala à 11ª Conferência da ONU sobre não-proliferação de armas nucleares, presidida pelo embaixador vietnamita Do Hung Viet (Foto da ONU)

A 11ª Conferência da ONU para a implementação do Tratado de Não-Proliferação, que está acontecendo em Nova Iorque desde segunda-feira (27), já começou com o representante do governo Trump chamando de “afronta” à escolha do Irã para uma das vice-presidências, por indicação dos “Países Não-Alinhados”. A conferência é presidida pelo embaixador do Vietnã na ONU, Do Hung Viet.

“É indefensável que os Estados Unidos, como o único Estado que já usou armas nucleares e que continua a expandir e modernizar seu arsenal nuclear… busque se posicionar como árbitro de compliance”, afirmou o embaixador de Teerã na Agência Internacional de Energia Atômica, Reza Najafi.

O Tratado de Não-Proliferação, que entrou em vigor em 1970, é revisado em conferências a cada cinco anos, com o tratado assegurando o direito ao desenvolvimento de programas nucleares para fins pacíficos e estabelecendo proteções aos países sem armas nucleares. Najafi rechaçou a declaração dos EUA como “sem fundamento e politicamente motivada”.

Representando um governo cujo presidente há vinte dias ameaçara “destruir esta noite toda uma civilização, que não ressuscitará”, Christopher Yeaw atribuiu a Teerã “desprezo” pelos compromissos de não-proliferação do TNP e chamou sua escolha pela comunidade internacional como “um constrangimento para a credibilidade desta conferência”.

Mas, de acordo com Tulsi Gabbard, Diretora Nacional de Inteligência do governo Trump, em depoimento em março do ano passado ao Senado dos EUA, na avaliação da comunidade de inteligência dos EUA o Irã não estava construindo uma arma nuclear e o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, não havia autorizado a retomada do programa de armas nucleares que ele suspendeu em 2003.

Agora, em março, de novo Gabbard disse ao Senado que a inteligência americana concluiu que o Irã “não estava reconstruindo suas capacidades de enriquecimento nuclear destruídas pelos bombardeios” da Operação Martelo da Meia Noite de junho passado.

Contradizendo a alegação de Trump para sua guerra traiçoeira, desencadeada em meio a negociações diplomáticas. E evidenciando que foi Washington, ao bombardear instalações sob proteção e fiscalização da AIEA, que violou o TNP.

Aliás, o problema do urânio enriquecido só existe porque o próprio Trump, no primeiro mandato, retirou os EUA do acordo JCPOA assinado pelo antecessor Obama e restaurou sanções drásticas, cuja revogação era exatamente a contrapartida a que Teerã aceitasse o mais rigoroso regime de inspeção já aplicado pela AIEA – e muito mais rígido do que o TNP estabelece.

De 2015 a 2018, o Irã cumpriu com rigor o que estava no acordo, e só voltou ao processo de intensificação do enriquecimento do urânio por ser praticamente a única alavanca para fazer recuar Trump, que tentou banir até as exportações de petróleo iraniano, principal fonte de divisas para o país.

Nas negociações que antecederam o acordo de 2015, a Rússia jogou um papel decisivo, recebendo do Irã o urânio enriquecido então existente, para diluição e uso em centrais nucleares, como Bushwer, e fins médicos. E Moscou já demonstrou sua prontidão para ajudar novamente.

E quem assassinou o líder que assinou a fatwa [édito] proibindo as armas nucleares no Irã, o aiatolá Ali Khomenei, foi Washington e Tel Aviv.

Na verdade, não é o Irã o empecilho a que o Oriente Médio se torne uma zona livre de armas nucleares e, sim, Israel, que é o único país da região dotado de bombas atômicas. Com as quais ameaça os países vizinhos para manter e ampliar seu apartheid e genocídio. E até o mundo inteiro, na assim chamada Opção Sansão. E que se recusa a assinar o TNP, sem sofrer qualquer pressão por causa disso, enquanto encena a “ambiguidade estratégica” sob as asas de Washington. Também é Netanyahu quem, desde 1992, quase todo dia grita que o Irã está “a um mês de ter a bomba” e já se vão 30 anos – como o ladrão que corre e berra ‘pega ladrão’.

Na recém encerrada turnê pelo Paquistão, Omã e Rússia, e depois através de telefonemas com os líderes da Arábia Saudita, Turquia, Qatar e Egito, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, apresentou a proposta de Teerã para a paz, centrando nas garantias de paz e na reabertura do Estreito de Ormuz, de forma a não agravar o choque da escassez de petróleo, com a questão do urânio enriquecido ficando para uma terceira fase.

Por sua vez, o presidente Trump disse a repórteres ter recebido comunicado do Irã “se dizendo em colapso” e pedindo a ele para “reabrir o Estreito”. Já para o premiê alemão Friedrich Merz é o Irã que está “humilhando os EUA” na guerra e nas negociações.

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