“Não há efeitos diretos dos juros sobre os preços dos combustíveis”, destaca o economista, rebatendo o lobby interessado da Faria Lima e de seus porta-vozes
As taxas de juros no Brasil estão estrangulando a economia. Elas estão em 15% nominais desde junho do ano passado, ou seja, uma taxa de juros reais – descontada a inflação – de 10%. Um nível de juros que restringe e até impede os investimentos produtivos.
REDUÇÃO DA SELIC JÁ
Agora, o país inteiro, estava aguardando que este absurdo começasse se ser revertido. No entanto, os rentistas, detentores de títulos da dívida pública, e seus representantes na mídia, já começam a usar o pretexto da guerra de agressão dos EUA e Israel contra o Irã para defender a manutenção da Selic, uma redução ínfima ou até mesmo uma elevação, o que seria desastroso para o país.
Em entrevista ao HP, Paulo Kliass, doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal, afirmou, nesta segunda-feira (16), que será “uma loucura” se o Copom tomar a decisão de manter as atuais taxas de juros”. “A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) que vai se reunir agora essa semana pode, eventualmente, manter a taxa de juros em 15%, o que é uma loucura”, disse ele.
“Ela está em 15% desde junho do ano passado e, por seis reuniões, o Copom a mantém assim e o Brasil sendo o primeiro ou o segundo lugar do mundo em taxas reais de juros”, afirmou. Kliass, destacando que, se a inflação está em torno de 4 a 5%, “isso dá uma taxa de juro real de 10%”.
Há ainda o argumento de que as taxas de juros não têm efeito sobre os preços do petróleo. E também é necessário destacar que não há nenhum “excesso de demanda” que justificasse qualquer elevação nas taxas de juros. Neste caso, de aumento nos preços dos combustíveis, esse argumento falacioso fica ainda mais explícito. O que se escancara nesta orquestração pela manutenção – ou até elevação – da Selic é que qualquer coisa é pretexto para manter o Brasil como campeão mundial, ou vice, de juros altos.
JURO NÃO INTERFERE NOS PREÇOS
“Não há efeitos diretos dos juros sobre os preços dos combustíveis. Os preços do petróleo e dos combustíveis são definidos pela capacidade que a Petrobrás teria, ou deveria ter, de realizar a produção interna”, argumentou Kliass, rebatendo a cruzada pelos juros altos.
Já há vários sinais de que o país está tendo uma desaceleração – que é até comemorada pelo BC em suas atas, que são divulgadas após as decisões sobre política monetária. O professor Kliass afirma que a expectativa sobre as taxas de juros era outra com a gestão Galípolo. “Vamos lembrar que o Gabriel Galípolo, que tomou posse no início de 2025, gerou uma expectativa de fazer uma mudança em relação à condução da presidência do Banco Central”, prosseguiu.
O economista salientou que o presidente do Banco Central não alterou a herança bolsonarista. “Ele não apenas deu continuidade à política do antecessor como aprofundou. Aumentou a taxa de juros, que ele pegou em 13,25% e jogou para 15%. O fato é que havia uma expectativa, de uma sinalização de que a taxa de juros seria reduzida”, lembrou.
Mesmo sobre as expectativas de redução que vinham sendo divulgadas, Kliass afirmou que “era pouquíssimo”. Ele considerou um absurdo dizer que agora não vai dar para reduzir por causa do cenário internacional, do aumento do preços do petróleo, etc.
“Agora”, prosseguiu Kliass, “a sinalização de uma redução para 14,75%. Isso é praticamente insignificante do ponto de vista dos efeitos macroeconômicos. Teria uma simbologia importante para dizer que agora a taxa de juros baixou. Mas, do ponto de vista dos agentes econômicos, é pouco, 025% ou 0,50% em 15%, é nada”, argumentou.
Na opinião de Kliass, “isso significaria que as taxas de juros nas operações continuariam elevadíssimas, como estão, graças, inclusive ao spread praticado pelas instituições bancárias e financeiras”. Ele lembrou que o Banco Central continua fazendo cara de paisagem quanto a isso, e também sobre as despesas financeiras do Orçamento. “Porque a Selic é o mínimo da remuneração dos títulos da dívida pública”, salientou.
SOBERANIA ENERGÉTICA
Sobre a interferência das variações dos preços internacionais no mercado interno, Kliass comentou: “Isso tem a ver com a situação com a qual o Brasil estabelece a sua política de petróleo. O governo Lula, ainda que não formalmente, revogou aquela regra da herança do Temer e do Bolsonaro, que era chamada Política de Paridade de Preços de Importação (PPI), mas está tentando reagir um pouco”, observou.
“Mas, o fato concreto é que a Petrobrás acabou de aumentar os preços do petróleo nas refinarias por conta da guerra, o que é um contrassenso”, acrescentou o economista. “O Brasil já há muito tempo adquiriu ou conquistou a sua soberania energética. Não faz sentido ficarmos alterando os preços internamente por conta de aumentos, ou por decisões da OPEP ou, como agora, por uma guerra como essa que EUA e Israel estão perpetrando contra o Irã”, observou o especialista.
“O Brasil tem que aproveitar esse momento para reduzir a sua dependência. Não faz sentido ele exportar óleo bruto e importar derivados. Vamos parar com a exportação de petróleo, vamos reestatizar as três refinarias que foram privatizadas na época do Temer e do Bolsonaro, vamos reestatizar, como era promessa na campanha de Lula, a BR Distribuidora e fazer com que o Brasil não dependa tanto do cenário internacional, seja para preços e muito menos para juros”, defendeu.
“Então os preços dos derivados, seja a gasolina, o diesel, querosene de avião ou gás de cozinha, deveriam ser definidos apenas pelos custos de produção internos no Brasil, da Petrobrás e dentro desses custos de produção”, prosseguiu Kliass.
REFINO INTERNO
“Não deveria ter os custos de importação de petróleo, porque temos as condições de refinar toda a nossa demanda por derivados a partir da produção de petróleo brasileira”, argumentou.
“O que precisa é reestatizar, entre aspas, o espírito da Petrobrás, para que ela passe a operar como uma empresa pública, uma empresa de economia mista, uma estatal, para atender as necessidades do país e o projeto econômico do Brasil. Só que ela, na verdade, está sendo utilizada para satisfazer os interesses dos acionistas, que querem participação nos lucros e receber dividendos”, denunciou.
“Obviamente, as grandes petroleiras internacionais, e a própria Petrobrás, ganham muito com essa escalada de preços do petróleo no mercado internacional. Só que o governo deveria fazer o contrário, ou seja, retirar a Petrobrás dessa atuação de natureza especulativa”, defendeu.
“O que interessa à Petrobrás não é que ela tenha grandes lucros para dividir dividendos. Ela tem que ter uma capacidade econômica forte para a exploração, para a produção, para refino, mas para atender os interesses do Brasil e não os interesses dos seus acionistas”, completou o economista.











