O PowerPoint do pobre garoto


DAVI MOLINARI

Cheguei ao Fale Mais Sobre Isso suando o estresse de uma quinta-feira que virou a nova sexta-feira (entendedores entenderão). Carregava um miniprojetor e uma tela enrolada debaixo do braço, como um Sísifo que, cansado da montanha, resolveu levar a própria pedra para o happy hour.

O bar estava um território suíço em chamas. De um lado, estudantes exaltados apontavam para a TV, xingando a Globo por tentar pendurar o Lula no lustre do escândalo do Banco Master — o novo esporte nacional: acusar inocentes para salvar o placar. Do outro, farialimers com cara de quem viu uma esquadra de OVNIs, atônitos com o “ritmo industrial” da lavanderia de Vorcaro e Mansur.

Juvenal me resgatou na porta, pegando metade das tralhas:

— Que é isso, meu analisado? Vai dar aula ou tá fugindo de algum agiota existencial?

— Quase isso, Juvenal — respondi, desabando na mesa onde o Doutor já hieroglifava incógnitas na sua caderneta incólume. Ele só ergueu os olhos. Era menos curiosidade e mais diagnóstico antecipado.

Abri o tripé e desenrolei a tela sobre o burburinho de advogados farejando honorários no lixo financeiro e jovens indignados com o fascismo de Trump e a anistia que os golpistas tentavam arrancar do Congresso. Quando liguei o projetor, a luz branca cortou a fumaça de gordura e tabaco como um milagre com prazo de validade.

O organograma surgiu gigantesco: no centro, O POBRE GAROTO (EU); ao redor, escorpiões midiáticos, lavadores de dinheiro de colarinho branco e deuses octogenários de Washington e Jerusalém despachando juventude para o matadouro em nome de petróleo e versões oficiais.

O boteco emudeceu. Os farialimers esqueceram os derivativos; os estudantes, o megafone moral.

— Doutor, Juvenal… Is this the real life? — comecei, apontando para a tela. — Estou preso num desmoronamento sem escapatória. Matei o homem que eu deveria ser para carregar uma rocha que não me pertence. Sou um Sísifo brasileiro: sustento o império da mentira enquanto a Globo edita minha queda em horário nobre para manter o roteiro.

Juvenal, servindo chope gelado e manjubinhas crocantes, comentou com a serenidade de quem já viu impérios acabarem entre dois pedidos:

— Bonito o gráfico, analisado. Mas no fim do expediente, o lombo que dói é o seu. A Globo filma, os bolsonaristas pedem anistia… e a pedra continua descendo redonda no peito de quem está acomodado com a situação. Anyway the wind blows…

Ri com o gosto metálico de quem mastiga a própria teoria.

— Exato. Eu não sei a solução, Doutor. Só quero que o senhor aponte para a tela e diga: “A culpa é deles”. Quero o conforto de culpar o Absurdo sem ter que carregá-lo sozinho. Scaramouche, Scaramouche! O sistema não me solta — e, na descida da montanha, como diria Camus, o que pesa não é a pedra… é o cinismo de quem finge que ela não existe.

O silêncio foi absoluto, quebrado apenas pelo estalar das manjubinhas.

O Doutor fechou a caderneta com um estalo seco, me encarou com uma lucidez inconveniente e soltou, sem anestesia:

— Sua projeção é impecável… mas o slide não substitui o peso que você carrega.

Dois segundos de vácuo. Depois, o boteco explodiu em risos — daqueles que não absolvem ninguém, mas aliviam a conta.

Juvenal gargalhou, batendo o pano no balcão:

— Tomou! Agora desliga esse cinema de sofrimento e paga a conta…

Ri também. Não por concordar — por reconhecer o roteiro.

Enquanto a luz do projetor morria, pensei: se o slide é ficção e o chope é fato… a transferência acaba ou só muda de mesa?

Entre um “Anyway the wind blows…” e a conta do Juvenal, aceitei que o Doutor talvez fosse outro Sísifo — só que mais econômico nas metáforas.

E eu? Eu sigo torcendo para que, um dia, a pedra erre o caminho e caia no pé de quem inventou a montanha. Oh, Galileo, Galileo… cantalorei.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXXXIV. Enviado pelo autor.

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