Privatizada Copel quer aumento na conta de luz de até 51% no Paraná

Proposta da Copel para revisão tarifária prevê reajustes desiguais; privatização completa três anos em meio a aumentos consecutivos nas faturas

A conta de luz pode subir quase 20% para as residências e até 51% para indústrias a partir de junho no Paraná. É o que consta da proposta preliminar de Revisão Tarifária Periódica (RTP) de 2026 apresentada pela Copel (Companhia Paranaense de Energia) e colocada em consulta pública pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

A Copel atende 5,23 milhões de unidades consumidoras em 394 dos 399 municípios do Paraná, com uma receita anual estimada em R$ 16,14 bilhões. Privatizada pelo governo Ratinho Junior (PSD), a empresa que realizou demissão em massa de trabalhadores, justifica o aumento sob a alegação de “melhorias” no sistema de energia do Estado.

De acordo com a nota técnica 44/2026, a área técnica da ANEEL calculou um impacto médio de 19,15% nas contas dos consumidores residenciais urbanos atendidos pela distribuidora no estado. Para os moradores da zona rural, o reajuste proposto é ligeiramente menor: 18,85%.

O cenário mais severo, no entanto, atinge o setor produtivo. Os consumidores de alta tensão — que abrange indústrias, grandes comércios e sistemas de irrigação — teriam aumento médio de 19,55%. Mas dentro desse grupo, há variações expressivas: as classes A2 (tensão entre 88 kV e 138 kV) e A3 (tensão entre 30 kV e 44 kV) enfrentariam reajustes de 51,21% e 45,24%, respectivamente.

Diferentemente do reajuste anual, que apenas atualiza as tarifas com base na inflação e em custos não gerenciáveis, a revisão tarifária periódica é um processo mais amplo. Nele, a ANEEL reavalia custos operacionais, investimentos realizados na rede elétrica, metas de eficiência e a remuneração dos ativos da concessionária — o que impacta diretamente o lucro dos acionistas.

No caso da Copel, esse ciclo ocorre a cada cinco anos. O objetivo formal é reequilibrar economicamente o contrato de concessão, garantindo que os custos da empresa sejam cobertos pela arrecadação tarifária.

MOTIVOS DO AUMENTO

Segundo a ANEEL, os principais fatores que pressionaram o índice proposto foram:

  • Custos com transmissão de energia (uso do sistema de linhas de alta tensão);
  • Encargos setoriais (obrigações legais do setor elétrico, como a Conta de Desenvolvimento Energético – CDE);
  • Retirada de componentes financeiros de processos tarifários anteriores que ainda estavam embutidos nas contas.

A esses fatores, analistas acrescentam a nova estrutura de capital da empresa, que, ao buscar maior rentabilidade para seus investidores, naturalmente exige tarifas mais elevadas.

PRIVATIZA QUE PIORA

Quase três anos após a privatização da Copel, os consumidores paranaenses continuam a avaliar os efeitos da mudança na gestão da companhia. A transição para uma corporação sem acionista controlador, concluída em agosto de 2023, trouxe promessas de mais eficiência e investimentos. O período decorrido permite agora uma análise mais aprofundada sobre o impacto direto no bolso e na qualidade do serviço.

Na prática, as mudanças mais sentidas pelo consumidor foram os reajustes tarifários anuais. A ANEEL, que regula o setor, continuou aprovando as atualizações nas contas de luz — valores que refletem não apenas a inflação e os custos da energia, mas também o que os empresários chamam de planos de investimento da companhia desde que se tornou uma corporação.

Essa atualização nos valores é um procedimento previsto no contrato de privatização. No cenário pós-privatização, a análise sobre seus efeitos se aprofunda. A expectativa dos empresários era de que os investimentos em modernização pudessem reduzir perdas técnicas e custos operacionais, mas, até o momento, isso não se traduziu em redução de tarifas para o consumidor final.

Pelo contrário: os pedidos de reajuste têm vindo em patamares elevados. Especialistas apontam que, no modelo atual, a tarifa precisa cobrir não apenas os custos do serviço, mas também garantir uma remuneração atrativa aos acionistas, o que naturalmente pressiona os índices para cima.

Como participar da consulta e da audiência pública

A consulta pública ficará aberta do dia 8 de abril até 22 de maio. As contribuições podem ser enviadas por dois canais:

Pela página da consulta no site da ANEEL (Consulta Pública nº 005/2026);

Por e-mail, para os endereços:

cp005_2026pt@aneel.gov.br

cp005_2026et@aneel.gov.br

cp005_2026rv@aneel.gov.br

Além da consulta on-line, será realizada uma audiência pública presencial no dia 29 de abril, em Curitiba (local a ser confirmado no site da agência).

Após o encerramento das discussões e a análise das contribuições, caberá à diretoria da ANEEL decidir se aprova os índices pedidos pela Copel, se os modera ou se os rejeita parcialmente. O novo valor tarifário deverá entrar em vigor a partir de 24 de junho de 2026.

A proposta ainda é preliminar e pode ser alterada com base nas sugestões recebidas da sociedade. Resta saber se a voz dos consumidores será capaz de conter um aumento que, na visão de muitos, reflete menos os custos do serviço e mais a expectativa de lucro dos novos controladores da empresa.

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