Vídeos iranianos que zombam de Trump e sua guerra viralizam ao redor do mundo

O humor utilizado para ironizar as bravatas trumpistas viraliza (Redes Sociais)

“Nunca vi isso em 15 anos de experiência profissional”, disse a pesquisadora americana Narges Bajoghli, da Johns Hopkins. “Todo o espectro político, seja a extrema-direita, mais Maga, republicanos mais moderados, liberais, até a extrema-esquerda nos Estados Unidos, todos eles têm compartilhado conteúdo viral do Irã todos os dias”.

O sucesso dos vídeos de animação de IA em que os iranianos zombam do regime Trump e do seu fracasso na agressão contra o Irã continua atraindo a atenção, com um dos principais jornais ingleses, The Guardian, anunciando “vitória viral: o Irã está vencendo a terra dos tech bros nas guerras das redes sociais”.

“Um dos aspectos mais bizarros e inesperados da guerra Irã-EUA é que o Irã, um país de reputação dominado por clérigos conservadores neuróticos sobre cultura e mídia ocidentais, está dominando a guerra das redes sociais, liberando seus guerreiros tecnológicos da geração Z para envolver o público ocidental com seu sarcasmo e ridicularização do governo Trump”, observa a publicação.

“Se o Irã pudesse fabricar mísseis destrutivos na velocidade com que produz memes cortantes, o Comando Central dos EUA já estaria com as mãos para o alto”, diz o Guardian.

Na sexta-feira passada, a remoção de um canal que se tornou mundialmente conhecido ao publicar vídeos de animação no estilo Lego, gerados por AI, que viralizaram, de responsabilidade da Explosive Mídia, satirizando os Estados Unidos e Israel, feita pelo YouTube, alegando “conteúdos violentos”, acabou por chamar ainda mais a atenção sobre o sucesso dos vídeos.

A proibição veio horas depois do vídeo mais recente do grupo, uma animação de rap ligando Trump aos arquivos Epstein, viralizar, acumulando milhões de visualizações, como denunciou a Explosive Midia, a criadora do canal.

A proibição foi condenada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, , enfatizando que foi motivada politicamente. Em comentários postados no X, ele mencionou grandes estúdios de animação dos EUA, incluindo Pixar Animation Studios, DreamWorks Animation e The Walt Disney Company, contrastando-os com a remoção de um canal independente de animação no YouTube.

Baghaei disse que o canal “cresceu organicamente” uma audiência ao retratar a “agressão e belicismo” dos EUA e afirmou que atraiu milhões de espectadores antes de sua remoção.

Ele argumentou que a decisão tinha como objetivo “suprimir a verdade” sobre as ações dos EUA em relação ao Irã e “proteger a narrativa falsa do governo americano”.

A mensagem principal nos vídeos é que o Irã está resistindo a um opressor global esmagador: os Estados Unidos.

Em um vídeo, o presidente dos EUA, Donald Trump, é mostrado caindo em um turbilhão de documentos do “arquivo Epstein” enquanto letras de rap declaram: “os segredos estão vazando, a pressão está aumentando”.

Em outro clipe, George Floyd aparece sob a bota de um policial enquanto a narração afirma que o Irã está “aqui por todos que seu sistema já prejudicou.”

Esses vídeos acumularam centenas de milhões de visualizações durante a agressão entre EUA e Israel contra o Irã. Em um clipe, iranianos são mostrados capturando um piloto de caça americano abatido.

NUNCA VI ISSO ANTES

Em uma coletiva no Instituto Quincy esta semana, Narges Bajoghli, professora assistente de estudos do Oriente Médio na School of Advanced International Studies da Universidade Johns Hopkins e  antropóloga cultural, disse que todo o aparato midiático do Irã foi muito mais rápido do que a terra dos tech bros em divulgar conteúdo e mensagens.

“O Irã conseguiu monopolizar completamente a guerra das comunicações, especialmente nas redes sociais globalmente.” O que ocorreu apesar de a grande mídias dos EUA ter persistentemente retratado o Irã como um estado terrorista governado por fanáticos religiosos por quase 50 anos.

“Você tem uma geração de criadores de conteúdo muito jovens millennials e da geração Z no Irã que recebeu espaço e luz verde para enviar esta guerra à comunidade global, especialmente àqueles que estão online e agora entendem a guerra e o mundo após Gaza. E isso é algo que está mudando fundamentalmente.”

Bajoghli acrescentou: “Tenho mais de uma dúzia de contas que monitoram as redes sociais em diferentes discursos políticos e venho fazendo isso há mais de uma década em várias questões, não apenas sobre o Irã. Nunca vi nenhum problema em que todos os meus algoritmos diferentes colapsassem uns sobre os outros, como nesta guerra. Vi em todo o espectro político, seja a extrema-direita, mais Maga, republicanos mais moderados, liberal, até a extrema-esquerda nos Estados Unidos.”

Ela disse que nunca tinha visto tal cruzamento entre grupos. “Todos eles têm compartilhado conteúdo viral do Irã todos os dias”, disse ela. “Nunca vi isso em 15 anos de experiência profissional”.

VÍDEOS DESDE 2025

Os vídeos da Explosive Media surgiram pela primeira vez no início de 2025, mas seu alcance se expandiu significativamente após a agressão dos EUA e Israel contra o Irã, registrou o porta libanês Al Mayadeen.

As produções no estilo Lego também se tornaram mais detalhadas ao longo do tempo, retratando locais específicos da região do Golfo, como usinas de energia, aeroportos e instalações industriais ligados aos EUA, sendo destruídos por ataques de mísseis iranianos.

Os vídeos são frequentemente produzidos em tempo quase real, aparecendo logo após grandes acontecimentos durante a guerra.

AINDA DISPONÍVEIS

Apesar da proibição, os vídeos da Explosive Media continuam amplamente disponíveis em outras plataformas como TikTok, Instagram e X.

“Os criadores negam qualquer ligação oficial com o governo iraniano. Seus vídeos mostram um forte entendimento da cultura americana e das tendências da internet, ajudando-os a alcançar públicos nos EUA”, destacou o Al Mayadeen.

“O que a proibição revela, no entanto, não é interferência do Estado iraniano, mas uma realidade mais profunda: usuários americanos de redes sociais estão cada vez mais envolvidos e concordando com conteúdos pró-Irã. A guerra EUA-Israel contra o Irã continua profundamente impopular, e muitos americanos veem a resposta do Irã como uma retaliação justificada contra agressões não provocadas que começaram em 28 de fevereiro de 2026.”

Em vez de propaganda fabricada – conclui -, a ressonância desses vídeos reflete uma mudança genuína no sentimento público, que as plataformas ocidentais parecem ansiosas para suprimir.

AS EMBAIXADAS TAMBÉM DEITAM E ROLAM

Com os iranianos cheios de moral pelo castigo aos agressores americanos e israelenses, também as embaixadas não perdem uma chance de desmoralizar o inimigo.

O exemplo mais recente é um vídeo divulgado pela embaixada sul-africana do Irã, que mostra Donald Trump vestido como uma estrela do rock dos anos 1980 com cabelos volumosos, cantando uma paródia de Voyage Voyage, do Desireless, renomeada para Blockade, e tocando teclados.

Após 24 horas, já tinha mais de 45.000 curtidas. Na noite em que Trump prometeu acabar com a civilização persa, a mesma embaixada postou um vídeo de um cachorro olhando para a câmera com um olhar curioso enquanto nada acontecia.

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