Rompimento de interceptor na zona norte lançou esgoto no Rio Tietê por vinte dias; Privatização e cortes explicam degradação, apontam especialistas
Após reiteradas práticas que configuram crimes ambientais, a Sabesp foi finalmente multada pela Cetesb em mais de R$ 2,5 milhões por despejo irregular de esgoto nos principais cursos d’água da capital paulista, incluindo os rios Rio Tietê e Rio Pinheiros, além da Represa Billings.
As sanções foram aplicadas após uma série de episódios registrados entre 2025 e 2026, já no período posterior à privatização, envolvendo tanto obras emergenciais mal conduzidas quanto falhas operacionais da companhia, que resultaram no lançamento direto de dejetos sem tratamento em cursos d’água historicamente degradados.
O caso mais grave ocorreu após o rompimento de um interceptor na Marginal Tietê, infraestrutura responsável por transportar o esgoto de cerca de 2 milhões de moradores da zona norte de São Paulo até uma estação de tratamento em Barueri, na região metropolitana.
O colapso da tubulação abriu uma cratera de grandes proporções na via e obrigou a empresa a esvaziar o sistema para a realização de reparos. Como consequência, o esgoto passou a ser despejado diretamente no Córrego do Mandaqui, que deságua no Tietê.
O despejo irregular se prolongou por mais de 20 dias, agravando a poluição do rio e evidenciando a fragilidade da resposta operacional da empresa diante de situações críticas. Apenas após denúncias e pressão pública, a Sabesp instalou tubulações provisórias (by-pass) para redirecionar o fluxo até a estação de tratamento.
À época, o engenheiro Amauri Pollachi, que trabalhou por 30 anos na companhia, estimou que o volume despejado chegava a cerca de 216 milhões de litros por dia – o equivalente a 86 piscinas olímpicas.
Por esse episódio e também por um vazamento no Rio Pinheiros, a Cetesb aplicou uma multa de R$ 1,5 milhão, além de determinar medidas compensatórias, como o desassoreamento dos rios afetados e o repasse de recursos ao Finaclima, fundo estadual voltado à mitigação de impactos ambientais. Em nota, o órgão afirmou que a medida compensatória “está em andamento e dentro do prazo” e que o acordo prevê “ações de desassoreamento para retirada de carga orgânica, além da destinação de R$ 1,5 milhão ao Finaclima SP”.
Outras duas multas, que somam pouco mais de R$ 1 milhão, foram impostas após o extravasamento de esgoto em uma estação elevatória que atingiu a Represa Billings, na zona sul da capital. O episódio, registrado em janeiro deste ano, gerou forte odor e revolta entre moradores da região, evidenciando mais uma vez a precariedade do sistema. Segundo a Cetesb, os processos “seguem conforme previsto na legislação”.
Em resposta, a Sabesp afirmou que assinou um Termo de Compromisso Ambiental com a Cetesb que prevê o desassoreamento de cerca de 84,7 mil metros cúbicos de sedimentos, com investimento estimado em R$ 10 milhões, além de um aporte ao fundo climático. A companhia também declarou que a região da Billings é marcada por “desafios históricos, como alta densidade populacional e necessidade de expansão da rede de esgoto”.
A empresa ainda afirmou que “vem intensificando a modernização e ampliação de suas infraestruturas” e que mantém investimentos contínuos para garantir maior eficiência operacional.
Apesar das justificativas, trabalhadores e especialistas apontam que os problemas se agravaram com mudanças recentes na gestão. Em meio a cortes após a privatização, o sindicato da categoria afirma que “a política de redução de quadros, somada à privatização, aponta para um modelo de gestão voltado para o lucro e não para o bem-estar da população”.
Segundo a entidade, a substituição de quadros técnicos experientes por trabalhadores terceirizados tem contribuído para a precarização do serviço. “Temos recebido relatos de pessoas em prantos, desesperadas com o desrespeito e a negligência da empresa”, afirmou a direção do Sintaema.
Na mesma linha, Amauri Pollachi, hoje também conselheiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), sustenta que “a perda de conhecimento técnico foi brutal (…) inviabiliza qualquer operação emergencial séria”.
Embora a empresa mencione investimentos bilionários e prometa universalizar o tratamento de esgoto até 2029, especialistas como Pollachi sustentam que essa meta poderia ser cumprida pela Sabesp pública, avaliação que, segundo eles, se confirma diante dos episódios recentes, que reforçam um padrão recorrente de falhas com danos ambientais significativos.
Mais do que eventos isolados, os casos apontam para problemas estruturais na gestão e manutenção da rede. A falácia da universalização foi uma das justificativas do bolsonarista Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, para entregar a maior empresa de saneamento da América Latina à iniciativa privada.











