Estudo realizado pelos economistas Lucas Marçal e Júlia Leal, da Unicamp, mostra que, apesar de incipiente, o processo de substituição do dólar segue em todas as partes, particularmente no Sul Global
Em artigo intitulado Desdolarização e diversificação das reservas internacionais: mudanças e tendências para o Brasil, publicado pelo Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp, os economistas Lucas Marçal, colaborador do HP, e Júlia Leal, analisam o processo de desdolarização da economia mundial e as transformações recentes no Sistema Monetário e Financeiro Internacional,
Os autores apontam que “a conjuntura atual é marcada pelo questionamento da hegemonia dos Estados Unidos enquanto principal potência econômica global, pela emergência e consolidação da China enquanto timoneira de uma alternativa, assim como pelo fortalecimento de blocos econômicos supranacionais e defesa do multilateralismo enquanto solução para um mundo de conflitos e incertezas, sendo o BRICS+ sua principal expressão”.
Eles destacam ainda que “são inúmeros os inconvenientes e dependências associados a uma economia global refém de uma moeda-chave: a clássica restrição de divisas, o custo fiscal das reservas e, mais importante, a subordinação ao país emissor dessa moeda, que pode manipular sua política macroeconômica como uma arma geopolítica (weaponization), fenômeno comum no governo de Donald Trump”.
Os autores basearam o estudo em dados do FMI e do Banco Central e concluem que esse movimento reflete tanto decisões de diversificação quanto efeitos cambiais e de valorização de ativos, como o ouro. Eles afirmam que no Brasil, “observa-se uma reconfiguração mais acentuada das reservas, com redução da exposição ao dólar e aumento de posições em ouro e renminbi”. Eles chamam a atenção, no entanto para o fato de que “o processo de desdolarização permanece gradual e incipiente”.
O artigo analisa o período de instabilidade iniciado com a política econômica implantada por Donald Trump em seu segundo mandato e conclui que houve desvalorização cambial. “Nesse sentido, segundo o Fundo Monetário Internacional (2026), a perda de espaço do dólar nas reservas internacionais globais em 2025 foi provocada principalmente pelos movimentos cambiais: o índice DXY, que mede a performance da moeda americana contra outras moedas centrais caiu mais de 10% no primeiro semestre; em relação ao euro e ao franco suíço, o dólar depreciou 10,6% e mais 11%, respectivamente, na primeira metade do ano”, afirmam os autores.
A queda da presença do dólar nas reservas internacionais é avaliado pelos autores no período entre 2016 e 2025. Eles dizem que “entre 2016 e 2025, em que pese a manutenção do protagonismo do dólar americano, sua presença nas reservas globais sofreu uma queda de 64,7% do total para 56,8%, sinalizando para um gradual processo de desdolarização”. “Em contrapartida”, prosseguem os autores, “outras moedas centrais ganharam espaço, em especial o euro (de 18,9% para 20,2%) e o iene japonês (de 4% para 5,8%), além da categoria ‘Outras moedas’, cujo aumento de 2,6% para 6,1% reflete os objetivos de diversificação das reservas por partes dos países”.
Os autores do artigo concluem que “existe uma tendência global para a diversificação das reservas internacionais, acompanhada por um movimento ainda gradual e tímido de enfraquecimento do dólar”. “Ainda assim”, ponderam, “é preciso cautela nas proposições mais concretas em relação ao movimento de desdolarização das reservas internacionais, a qual se revela ainda gradual e incipiente nos dados oficiais, haja vista a manutenção do protagonismo do dólar nas reservas, apenas com uma modesta redução que está parcialmente associada às flutuações cambiais”.
No Brasil, observam, “o recente Relatório de Gestão das Reservas Internacionais aponta para a diversificação das reservas, com a continuidade de quedas sutis da participação do dólar americano e incremento da participação do ouro e do renminbi. Ademais, o aumento da participação da moeda chinesa (renminbi) e do ouro é mais expressivo no caso brasileiro do que em nível global, sinalizando para (i) uma possível mudança de composição específica do Sul Global, que exige uma análise mais ampla envolvendo outras economias e (ii) a centralidade dos efeitos de preço, sobretudo para o ouro, visto seu contínuo processo de valorização nos últimos anos”. Confira o estudo na íntegra!











