Nem mesmo a mãe do banqueiro preso foi poupada do esquema que encarcerou, também, o bolsonarista Fabiano Zettel, financiador das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio
As estrepolias financeiras de Daniel Vorcaro e seu entorno mais próximo continuam sendo reveladas aos borbotões, graças ao trabalho de investigação das autoridades policiais e órgãos de controle.
O banqueiro está preso após ter sido denunciado por aplicar uma fraude bilionária no mercado financeiro. O cunhado dele, o bolsonarista Fabiano Zettel, o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, um ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha também está encarcerado sob suspeita de integrar o esquema.
Provas não faltam e, agora, surgiu mais uma: uma empresa da família de Daniel Vorcaro chamada Multipar movimentou mais de R$ 1 bilhão em cinco anos exclusivamente entre contas ligadas ao dono do Banco Master.
Os dados constam de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou na movimentação uma tentativa de esconder o patrimônio da família.
A informação foi obtida em levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo com base em um relatório de inteligência financeira do órgão, contendo informações de 2020 a 2025, período em que Vorcaro estrutura o Master. E a marca é criada em 2021, após o sinal verde do Banco Central para a compra do banco Máxima, em 2019.
Em sua apuração, o Coaf cita a “troca de recursos entre empresas/pessoas do grupo, podendo representar uma tentativa de quebra do rastro do dinheiro”.
A Multipar, no período mencionado, chegou a movimentar R$ 1,07 bilhão, e quase todo o montante é detalhado no relatório, com informação de origem e destino dos recursos.
A partir desses dados, foi identificado que pelo menos R$ 1 bilhão – ou 93% de todos esses recursos – veio de ou foi para empresas ou pessoas ligadas a Vorcaro ou seu banco.
Da lista, constam companhias, holdings e fundos de investimentos que, entre os sócios, têm familiares, pessoas que trabalham para o grupo ou companhias já citadas nas investigações, sendo que o próprio Master recebeu R$ 5,8 milhões da Multipar.
Como sempre, a assessoria de imprensa de Vorcaro informou que nada informará sobre o novo escândalo. O advogado Eugênio Pacelli, habilitado por Henrique Vorcaro, presidente da Multiplar e pai do banqueiro encarcerado, limitou-se a dizer que “todas as movimentações financeiras do grupo Multipar são devidamente contabilizadas, lícitas e transparentes”. Imagine, leitor, se não fossem.
O esquema da Multipar espelha em parte esse esquema, ao circular dinheiro dentro de um escopo de empresas conectadas, justamente o motivo do alerta sobre as movimentações.
Apurou-se que foram realizadas cerca de 10 mil transações listadas, entre um grupo de pouco mais de 30 empresas de alguma forma relacionadas à família Vorcaro ou ao Master. O documento chama especial atenção para o fundo GFS, que recebeu R$ 47 milhões e repassou outros R$ 15 milhões para ela.
Esse fundo é administrado pela Reag, a mesma gestora que administrava fundos suspeitos de realizar transações fraudulentas para a rede de instituições ligadas ao Banco Master, com o intuito de inflar artificialmente o valor de seus ativos e seu patrimônio.
A Multipar é uma holding de instituições não financeiras e tem dois sócios: Henrique Vorcaro, presidente, e Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro e mulher de Fabiano Zettel.
“No meio de um contexto de tanta ilação, é inaceitável e causa indignação a divulgação seletiva de trechos de documentos sigilosos, prática que distorce o contexto, compromete a lisura dos fatos, afronta diretamente princípios éticos e legais e representa uma verdadeira ameaça ao processo legal”, acrescentou o advogado Pacelli.
O fato, entretanto, é que o relatório de informações financeiras aponta que “foram identificadas movimentações relevantes entre partes relacionadas, incluindo empresa do mesmo grupo econômico, indicando possível uso da conta como canal de passagem”.
Foi revelado, ainda, que essa empresa comprou uma fazenda no Amazonas irregular e cujo ex-dono alega ter sofrido calote, onde fez um projeto de estoques de carbono (um papel diferente do crédito de carbono), que foram revendidos com valor inflado artificialmente para a Global Carbon e a Golden Green, empresas utilizadas para inflar o patrimônio de fundos sob gestão da Reag, principal instituição utilizada para movimentar dinheiro da fraude do Banco Master.
A relação entre Alliance e Multipar repete o padrão que alertou os órgãos financeiros: milhões em transações realizadas no âmbito do mesmo grupo econômico. Ambas são praticamente idênticas: têm o mesmo quadro societário (Henrique e Natália Vorcaro) e a mesma área de atuação, são holdings.
A Multipar transferiu R$ 51,4 milhões para a Alliance Participações e recebeu de volta R$ 27,1 milhões. Reforça essa convicação a relação com a Hebron Participações, a principal parceira econômica da Multipar. A empresa atua exatamente no mesmo ramo (ambas são holdings de instituições não financeiras) e tem como sócios Henrique Vorcaro e uma terceira holding que também pertence ao pai do ex-banqueiro.
A Hebron aportou R$ 419,2 milhões na Multipar, em mais de mil transações registradas. No caminho inverso, foram R$ 104,3 milhões, em 352 transações, sendo a empresa que mais repassou dinheiro para a Multipar no período e a que mais recebeu recursos de volta.
Na rede da Multipar surge ainda outro nome já conhecido das tramas do Banco Master, a Alliance Participações, que está no centro da suposta fraude de R$ 45 bilhões em ativos ambientais da família.
O Coaf identificou, também, que a Multipar fez transferências milionárias para a conta pessoal de membros da família Vorcaro. Henrique, por exemplo, recebeu R$ 14,7 milhões dela e repassou R$ 1,4 milhão de volta para sua própria empresa. Natália, por sua vez, R$ 6,4 milhões, devolvendo R$ 1,9 milhão.
Nem mesmo a mãe de Daniel Vorcaro, Aline Vorcaro, foi poupada no esquema: ela aparece direta ou indiretamente (por meio de sociedades, assim como os outros) na lista, tendo recebido, em sua conta pessoal, R$ 20,9 milhões, sendo o CPF mais beneficiado com recursos da Multipar no período.











