A coalizão pró-Otan e austericida no poder em Bucareste caiu na terça-feira (5), com o primeiro-ministro neoliberal Ilie Bolojan sendo derrotado por 281 a 4 na votação de moção de desconfiança no parlamento.
A Romênia abriga uma das maiores bases aéreas regionais da Otan em Mihail Kogalniceanu, próximo ao Mar Negro, que atualmente está sendo ampliada para se tornar a maior base aérea da agressiva aliança na Europa, dentro da política de rearmamento europeu e confrontação com a Rússia. Também faz fronteira com a Ucrânia.
À guisa de defesa, Bolojan, do Partido Nacional Liberal (PNL), alegou ter tomado “medidas fiscais duras, mas necessárias”, que efetivamente “reconquistaram a confiança dos mercados no governo romeno.”
Disse ainda, que, ao assumir como primeiro-ministro, estava “cônscio” da pressão e de que “não teria aplausos dos cidadãos. Mas eu escolhi fazer o que era urgente e necessário”. (Para os “mercados” e os bancos, faltou acrescentar).
Dele o portal Politico Europa disse ter tentado “impor com determinação teimosa”, o arrocho. As medidas incluíam congelamento de salários e aposentadorias, corte dos gastos públicos e demissão de servidores públicos e elevação de impostos.
JÁ EM RECESSÃO
O colapso do governo neoliberal ocorreu com a Romênia já sob recessão, inflação anual de 9,7% e o maior déficit orçamentário europeu, 7,9%.
O Partido Social Democrata (PSD), de centro-esquerda e ex-integrante da coalizão, e a Aliança pela Unidade dos Romenos (AUR), principal força eurocética, se uniram na apresentação da moção de desconfiança. O governo Bolojan conseguira durar dez meses.
Além do PNL, a coalizão de Bolojan incluía o Partido da União/Salve a Romênia e o pequeno partido húngaro étnico UDMR, segundo a Euronews.
O PSD afirmou que Bolojan “falhou em implementar qualquer reforma genuína” em seus 10 meses à frente do governo, apontando que a Romênia precisa de um líder que seja “capaz de congregar.”
George Simion, líder da AUR, disse na terça-feira que os eleitores “apoiaram e queriam água, comida, energia”, mas “receberam impostos, guerra e pobreza.” Ele chamou a “restaurar a esperança dos romenos”, com a antecipação das eleições.
INGERÊNCIA DE BRUXELAS
A Romênia vive em instabilidade política desde que em dezembro de 2024 por pressão de Bruxelas foi anulado o primeiro turno da eleição para presidente, em que saíra vencedor um candidato independente, Calin Georgescu, que fizera campanha pela restauração da soberania da Romênia e contra a postura do bloco europeu de confrontação com a Rússia.
Sob o pretexto de “interferência russa no TikTok”, Georgescu foi impedido de voltar a se candidatar e processado. A eleição só voltaria a ocorrer em maio de 2025, tendo saído vencedor, no segundo turno, o pró-europeu Nicușor Dan. No primeiro turno, a vitória tinha sido de Simion, cujo lema de campanha era “devolver a dignidade à Romênia” e que ameaçara cortar a ajuda à Ucrânia.
AGOSTO
Ainda segundo Politico, “se a Romênia não concluir as principais reformas até agosto, corre o risco de perder cerca de €11 bilhões em financiamento da UE, e se as finanças públicas não forem controladas em breve, analistas temem que uma rebaixa na classificação de crédito possa ocorrer logo depois”.
Nessa situação, o presidente Dan asseverou que “aconteça o que acontecer, a Romênia continuará seguindo seu caminho ocidental, o Estado continuará funcionando e há consenso político sobre os objetivos fundamentais imediatos”.
O que, segundo Político, indicaria duas possibilidades: primeiro, a recomposição da coalizão do PNL com os social democratas, sem Bolojan, com um novo primeiro-ministro de consenso.
Ou a nomeação de “um primeiro-ministro tecnocrático” que não seja uma figura proeminente em nenhum dos partidos políticos do país. Tal líder, segundo a publicação, poderia potencialmente “contar com um apoio mais amplo e ser capaz de tranquilizar os investidores de que a Romênia continua comprometida em reduzir seu déficit e seguir um caminho político pró-Ocidente”.
Por via das dúvidas, os analistas botaram as barbas de molho. Dan está realizando uma tarefa “extremamente difícil” enquanto tenta restaurar a estabilidade, destacaram. “Ele se torna o maestro de uma orquestra disfuncional no pior momento possível. A crise política agora se tornou formalmente governamental, com riscos constitucionais ainda em cima da mesa caso a formação de coalizões fracasse.”











