Brasil cobra de Israel explicações dos maus-tratos contra ativistas da flotilha

Ativistas de vários países foram humilhados pelo governo de Israel (Fotos: Reprodução - Vídeo)

Ativistas, incluindo brasileiros, da Flotilha Global Sumud aparecem ajoelhados, com as mãos amarradas e a cabeça forçada contra o chão. Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Embaixada de Israel em Brasília, Rasha Athamni, para prestar esclarecimentos

O governo brasileiro fez cobranças a Israel após a divulgação de vídeo em que ativistas da Flotilha Global Sumud aparecem ajoelhados, com as mãos amarradas e a cabeça forçada contra o chão, enquanto são submetidos ao hino israelense sob zombaria do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.

Diante da repercussão internacional das imagens, o Ministério das Relações Exteriores convocou, nesta quinta-feira (21), a encarregada de negócios da Embaixada de Israel em Brasília, Rasha Athamni, para prestar esclarecimentos formais sobre o episódio.

A diplomata foi recebida no Palácio do Itamaraty pelo diretor do Departamento de Oriente Médio, embaixador Clélio Crippa. O posto de embaixador israelense no Brasil permanece vago desde o fim da missão de Daniel Zonshine, em meio ao aprofundamento da crise diplomática entre ambos os países.

O vídeo divulgado por Ben-Gvir mostra ativistas imobilizados no chão enquanto o ministro ironiza os detidos. Entre os sequestrados estavam 4 brasileiros integrantes da missão humanitária: Ariadne Teles, Beatriz Moreira, Thainara Rogério e Cássio Pelegrini.

INTERCEPTAÇÃO EM ÁGUAS INTERNACIONAIS

A Flotilha Global Sumud levava ajuda humanitária destinada à população da Faixa de Gaza e foi interceptada por forças israelenses, na última terça-feira (19), em águas internacionais do Mediterrâneo.

A ação provocou forte reação de organizações humanitárias e governos estrangeiros. Inicialmente, a organização responsável pela missão informou que 428 ativistas estavam desaparecidos após a interceptação militar.

Posteriormente, o governo israelense declarou que todos os integrantes da flotilha haviam sido expulsos do país.

A interceptação reacendeu denúncias internacionais sobre o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza e sobre o uso de força militar contra missões civis de ajuda humanitária. Juristas e entidades de direitos humanos questionam a legalidade da abordagem em águas internacionais e denunciam possíveis violações do direito internacional humanitário.

NOTA DO ITAMARATY

Na quarta-feira (20), o Itamaraty já havia divulgado nota oficial de forte condenação ao tratamento dispensado aos ativistas.

“O governo brasileiro deplora o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses, em particular pelo Ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben Gvir, aos participantes da Flotilha Global Sumud”, escreveu o ministério.

O Brasil também exigiu a libertação imediata dos detidos e cobrou respeito à integridade física e à dignidade dos ativistas.

Na nota, o governo brasileiro lembrou que Israel possui obrigações internacionais decorrentes de tratados como a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes.

A manifestação do Itamaraty representa mais um capítulo do crescente distanciamento diplomático entre o governo brasileiro e o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

PRESSÃO INTERNACIONAL E FISSURAS EM ISRAEL

A repercussão negativa das imagens gerou desconforto até mesmo dentro do governo israelense.

Tentando conter o desgaste internacional, Netanyahu declarou que a conduta de Ben-Gvir “não corresponde aos valores e normas do Estado de Israel”. Já o chanceler israelense, Gideon As’ar, acusou o ministro da Segurança Nacional de provocar “danos conscientes ao Estado de Israel”.

Ben-Gvir, figura da extrema-direita israelense e conhecido por posições nazifascistas, tornou-se um dos principais focos de críticas internacionais desde o agravamento da ofensiva militar em Gaza.

O episódio amplia o isolamento diplomático de Israel em meio às crescentes denúncias de violações de direitos humanos, ao agravamento da crise humanitária palestina e à pressão internacional por cessar-fogo e abertura de corredores humanitários.

GAZA E A DISPUTA POLÍTICA INTERNACIONAL

A interceptação da flotilha ocorre num contexto de deterioração extrema das condições humanitárias em Gaza. Organismos internacionais vêm alertando para fome generalizada, colapso hospitalar e destruição maciça da infraestrutura civil palestina.

Missões civis marítimas de ajuda humanitária têm buscado romper simbolicamente o bloqueio israelense ao enclave palestino, mas frequentemente enfrentam ataques militares de Israel.

No Brasil, o caso provocou forte repercussão política e reforçou críticas de setores diplomáticos, parlamentares e movimentos sociais à postura do governo israelense.

A cobrança formal do Itamaraty sinaliza que Brasília pretende manter pressão diplomática sobre Tel Aviv diante do tratamento dispensado aos brasileiros e da escalada das denúncias de abusos contra civis e ativistas internacionais.

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