Dados da própria agência reguladora mostram disparada de casos como falta d’água, danos ambientais e mortes em obras
Dados da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), obtido pelo SP1, da TV Globo, revelam que as ocorrências envolvendo a Sabesp aumentaram 573% após a privatização. Os problemas incluem falta de água, danos ao meio ambiente e ao patrimônio, além de mortes provocadas por acidentes em obras da companhia.
O levantamento aponta que entre 2020 e 2024, o número de incidentes caiu de 499 para 107. O quadro se inverteu após a venda da estatal: em 2025, primeiro ano sob controle privado, as ocorrências saltaram para 721. Em 2026, nos primeiros meses do ano, a agência já contabiliza outros 502 casos.
A privatização da Sabesp foi concluída em julho de 2024 pelo governador Tarcísio de Freitas. O governo estadual vendeu 32% das ações da empresa por R$ 14 bilhões e reduziu a participação do Estado de 50% para 18%, transferindo ao setor privado o comando da maior companhia de saneamento da América Latina.
Desde então, o aumento das ocorrências coincide com uma sequência de acidentes graves envolvendo mortes e falhas em obras da Sabesp. Um dos casos mais graves aconteceu no Jaguaré, Zona Oeste da capital paulista, no início do mês. Uma obra da companhia, supervisionada pela Comgás, provocou uma explosão que matou duas pessoas, destruiu imóveis e levou à interdição de 66 casas pela Defesa Civil.
Os problemas relacionados às obras da empresa também atingem moradores de Perus, na Zona Norte da capital. A reportagem mostrou que intervenções na rede de esgoto deixaram casas rachadas e parcialmente interditadas pela Defesa Civil, ampliando o clima de insegurança entre as famílias da região.
Além disso, há relatos de pisos quebrados, paredes abertas e lajes se separando. Em uma das residências, a rachadura já permite a entrada da luz do sol pelo interior da casa. Famílias relatam medo constante de desabamento e insegurança diante da situação.
Nove imóveis foram parcialmente interditados no bairro. Os moradores foram transferidos para hotéis pagos pela Sabesp e só podem entrar nas casas para retirar pertences ou cuidar dos animais de estimação.
Críticos da privatização afirmam que o aumento das terceirizações na companhia, a redução do quadro técnico e a política de corte de custos sob gestão privada ajudam a explicar o avanço dos problemas operacionais. Segundo especialistas da área, a substituição de equipes próprias por serviços terceirizados provocou precarização das operações e perda de trabalhadores experientes em setores estratégicos da companhia.
“A empresa tomou uma medida que o mercado financeiro adorou: mandou embora quase metade da força de trabalho. Dos 12.300 funcionários que existiam em dezembro de 2022, cerca de 5.900 foram demitidos. E não foram demissões aleatórias. Saíram justamente os trabalhadores mais experientes, mais qualificados e com maior tempo de casa”, denuncia Amauri Pollachi, coordenador do ONDAS (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento). “Hoje, a Sabesp não tem mais equipes de rua com mão de obra própria. É só terceirizado”, continua Amauri.
Em nota ao SP1, a Sabesp afirmou que os incidentes envolvem diferentes tipos de ocorrências relacionadas à “complexidade da operação”. A empresa alegou ainda que parte dos casos está associada a fatores externos, como eventos climáticos, interferências urbanas e danos causados por terceiros.
A companhia também declarou que o crescimento dos registros a partir de 2025 ocorreu devido ao aprimoramento dos processos de fiscalização e à adoção de critérios “mais precisos” para contabilização das ocorrências.
Pollachi contesta a justificativa. “Ora, se eu tenho mais obras, deveria ter um processo de fiscalização, acompanhamento e especificação muito mais rigoroso. Houve afrouxamento da fiscalização”, aponta. Segundo o engenheiro, o contrato assinado durante a privatização alterou e enfraqueceu os mecanismos de controle sobre as operações da companhia.
“Hoje, pelo contrato firmado após a privatização, a verificação das obras da Sabesp é feita por uma empresa contratada pela própria Sabesp, chamada de “agente verificador”. Essa empresa entrega relatórios à agência reguladora, e a agência praticamente apenas carimba esses documentos. Ela deixou de ter força real de inspeção e fiscalização. Atua apenas de maneira reativa, quando já existe uma crise instalada”, explica.
A avaliação do especialista é reforçada pelo presidente do sindicato que representa os trabalhadores do saneamento no Estado. “A ausência de fiscalização efetiva sobre os contratos e sobre as condições impostas pelas empreiteiras aprofunda a precarização e coloca vidas em risco”, diz José Faggian.
O Sintaema se reuniu recentemente com auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para denunciar irregularidades identificadas em unidades da Sabesp. Segundo o sindicato, as denúncias envolvem acidentes graves, precarização das condições de trabalho, violações trabalhistas, assédio moral e falta de transparência na gestão da terceirização.











