A dialética da independência do Brasil

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Há 36 anos, em novembro de 1989, foi assinado o Consenso de Washington, contendo dez orientações impostas pelo FMI e Banco Mundial. Era o auge da política imperialista de exploração dos povos, do neoliberalismo, da financeirização.

Hoje o imperialismo está decadente e vive uma desagregação profunda. A divisão da cúpula – a Europa de um lado, os Estados Unidos do outro –, o fim do mundo unipolar, com o fortalecimento da bipolarização, sendo o seu contrário a Aliança China-Rússia e o Irã, somando 1 bilhão e 700 mil seres humanos e 23% do PIB mundial.

O genocídio perpetrado por Israel e os EUA contra o povo palestino deixa à luz sua face macabra, de morto-vivo – mais morto do que vivo.

Enfim, nove milhões de americanos saíram às ruas e Trump deve perder as eleições de meio de mandato. No momento, isolado internamente, está tentando sair dos córneres do ringue internacional.

E tudo isso tem grande reflexo na terra de Tiradentes. Para o bem e para o mal. O tarifaço, que foi profundamente derrotado, no Brasil, teve como efeito levantar a consciência nacional.

O fascismo bolsonarista é cria das milícias. Foi cevado nos porões da ditadura. Essa é sua origem, ou seja, no crime organizado. Assumem isso. Flávio Bolsonaro empregava em seu gabinete a esposa e a mãe de Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, organização de matadores de aluguel. Adriano foi assassinado, tudo indica que foi queima de arquivo.

A ditadura do governo Bolsonaro foi a mais sanguinária, entreguista, corrupta e perversa de nossa história. Assassinou 700 mil brasileiros ao sabotar a vacinação em massa. Na prática, acabou com a aposentadoria. O trabalhador tem que trabalhar mais dez anos para ganhar muito menos. Fortaleceu a pejotização, que é o fim dos direitos trabalhistas e da CLT – trabalhador sem direito é escravo. Desviou recursos públicos, por meio do sistema financeiro, o que já monta a centenas de bilhões de reais, e só se compara ao desvio de recursos via pagamento dos juros da dívida pública.

A tentativa de golpe no 8 de janeiro era, assim, uma necessidade para seguir o assalto ao Tesouro e encobrir tantos crimes.

Se nós fôssemos escolher um inimigo eleitoral, teoricamente, não teria inimigo melhor do que o bolsonarismo.

O avanço de Lula nas pesquisas é porque ficou mais exposta a podridão que representa o bolsonarismo.

Na campanha passada, Lula ganhou por pouco, cerca de 2%. As imagens, na véspera do pleito, dos tiros de fuzil e granadas com o que o ex-deputado Roberto Jeffeson atacou agentes da Polícia Federal, que estavam cumprindo mandato de prisão, e da deputada federal Carla Zambelli, no dia da eleição, correndo com um “38”, ameaçando um homem negro, consolidaram a apertada vitória.

A tentativa de golpe, o quebra-quebra no Palácio do Planalto, no Congresso e no STF, tudo isso desmoralizou ideologicamente o inimigo de classe. O puxa-saquismo repugnante à bandeira americana, em momentos críticos de agressão à Pátria, deixou a marca de traidores cravada no bolsonarismo.

A cereja do bolo é o envolvimento com o caso MASTER e com o crime organizado.

Ao contrário, o governo Lula tem entregado vários benefícios: a isenção de imposto de renda para quem recebe até 5 salários, o Desenrola 2, o Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo, a PEC da escala 5X2, com redução da jornada para 40 horas semanais, pé de meia para estudantes do ensino médio, lei anti-facção, entre outros benefícios.

Mas, apesar de tudo, a coisa continua emperrada, em empate técnico.

O que está faltando, então, para ampliar as possibilidades de vitória?

Falta o essencial. Falta o compromisso com um programa mínimo de rompimento com a dependência e de desenvolvimento. Ou seja, falta explicitar que, para o Brasil de hoje, se confrontam dois projetos que se excluem:

O projeto dos colonizados, que o bolsonarismo vestiu e que há 40 anos vem afundando o Brasil. É o da mesmice, do velho neoliberalismo, em decadência, dos juros escorchantes, do domínio dos cartéis estrangeiros, da dependência econômica, do retrocesso à economia agrária exportadora, do Estado fraco, capacho, da desindustrialização, da concentração de renda, da miséria das massas, das privatizações, do fiscalismo, das milícias, do crime organizado, da corrupção.

O outro é o do crescimento econômico acelerado, com referência na experiência getulista, inspirado no socialismo chinês. Com o Estado forte, em condições de garantir nossa soberania, defender nossas fronteiras, nossas florestas, nosso espaço aéreo e nosso litoral. Promotor de uma robusta indústria de defesa, promovendo a industrialização, com a redução substancial dos juros, apoio às empresas genuinamente nacionais, restituição dos direitos trabalhistas, emprego de qualidade, apoio do Estado aos trabalhadores de plataformas, reforma agrária, dobrando o valor real do salário mínimo, escala 5X2 com redução da jornada para 40 horas semanais.

Em uma palavra, o projeto de uma revolução.

A imensa vantagem desta estrada é que recupera o tempo perdido, nos leva à defesa dos interesses gerais da nação, hoje ameaçados. Portanto, gera esperança, ingrediente fundamental para a constituição de uma amplíssima frente nacional de libertação.

A crise do imperialismo abre uma janela de oportunidades que não podemos desperdiçar.

A própria democracia tem no centro a questão nacional. Não existe democracia em país colonizado. Não existe democracia em país que seu povo passa fome, tem suas riquezas e tem sua força de trabalho superexplorada para o exterior.

O Brasil ainda não se libertou do colonialismo.

CARLOS PEREIRA

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