Traficante do CV pedia reuniões e nomeações a aliados de Flávio Bolsonaro no Rio

Índio do Lixão se comunicava com Gutemberg Fonseca, que aparece na foto junto a Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução/Instagram

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal revelam diálogos entre o traficante do Comando Vermelho Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, e aliados do ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor Gutemberg Fonseca, hoje pré-candidato do PL à Câmara dos Deputados. As conversas, registradas entre maio e agosto de 2025, indicam pedidos de favores, articulações políticas e tentativas de nomeações envolvendo integrantes ligados ao grupo criminoso.

Segundo a investigação, Índio do Lixão manteve contato frequente com Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, ex-assessor do ex-deputado TH Joias. Em uma das mensagens, enviada em junho de 2025 após uma reunião envolvendo a Secretaria de Defesa do Consumidor, o traficante escreveu: “Mérito que ganha quando eu resolvo algo. Aí, reunião Enel, Procon e Sedcon”. A resposta de Dudu veio logo depois: “Mandei pro Menezes. Falei que era legal ter levado você. Ele ainda não respondeu”.

De acordo com a PF, o “Menezes” citado nas conversas é Marcos José Menezes, ex-servidor da Prefeitura do Rio e também ex-integrante do Procon estadual, órgão subordinado à Secretaria de Defesa do Consumidor, então comandada por Gutemberg Fonseca.

As investigações apontam que a primeira conversa sobre um encontro com Gutemberg ocorreu em 13 de maio de 2025. Chamado de “Guto” por Dudu e Índio, o então secretário apareceu em mensagens nas quais o traficante reclamava da ausência do assessor. “cadê você? assim eu vou ficar fraco”, escreveu Índio. Em seguida, insistiu: “Tá geral aqui, Guto e todos. Cadê vocês?”.

No dia seguinte, o traficante afirmou que queria contar o que “o doutor” havia dito durante o encontro. Após uma ligação de 39 minutos com Dudu, Índio pediu que ele perguntasse a Gutemberg Fonseca o que tinha achado da “atitude” dele, após ter solucionado rapidamente um problema não detalhado nas mensagens.

Gabriel Dias de Oliveira é apontado pela Polícia Federal como um dos chefes do Comando Vermelho e investigado por tráfico internacional de armas. O relatório afirma que ele mantinha um grupo de policiais militares atuando em sua segurança pessoal e no suporte logístico da facção. A PF também cita a existência de uma “articulação política” voltada aos interesses do traficante.

Outro trecho das conversas trata de uma possível nomeação defendida pelo criminoso. Em julho de 2025, Índio pressionou Dudu sobre o andamento do pedido: “Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo”. O assessor respondeu: “Eu aviso ele”. Cerca de uma hora depois, pediu os dados do traficante: “vamos pegar logo essa nomeação”.

Em agosto daquele ano, novas mensagens indicaram tentativas de envolver diretamente Gutemberg Fonseca na solução do impasse. “Irmão, caso o Marcos não resolver, o que você acha Guto chamar o Júnior e dar o papo? [sic]”, escreveu Índio. Dudu respondeu: “Posso falar com ele. Já fala com Marcos agora. Senão eu já ligo nele [Gutemberg Fonseca]”.

Dois dias depois, conversas interceptadas mostraram que Marcos José Menezes teria marcado uma reunião com a presença de Gutemberg Fonseca e do próprio traficante na sede do Procon. O endereço do encontro foi enviado por Dudu. A Polícia Federal afirmou, porém, que não conseguiu confirmar se a reunião ocorreu efetivamente.

As investigações também revelaram contatos diretos entre Índio do Lixão e o advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Esportes e ex-subsecretário de Defesa do Consumidor na gestão de Gutemberg Fonseca. Preso desde setembro de 2025, Carracena é suspeito de receber dinheiro para atender demandas de lideranças do Comando Vermelho.

Mesmo após deixar o cargo público em janeiro de 2025, Carracena continuou conversando com o traficante. Em uma mensagem enviada após um encontro envolvendo Gutemberg Fonseca, Índio afirmou ao advogado: “[…] Inclusive, hoje eu fui numa reunião hoje, e o amigo estava lá na reunião, o secretário onde o senhor trabalha. Aí conversei um pouco com ele lá também referente à política, que poderia ajudar ele. Aí ele, pô, tá doido. O cara mó legal. Falamos do senhor. Ele me perguntou se tinha alguma referência, daí eu falei ‘pô, Carracena me conhece legal e tal’ e ele falou ‘pô, é mesmo? Você tá com a melhor pessoa do mundo, cara, excelente advogado, meu irmão’ [sic]”.

Em junho, Índio enviou a Carracena o mesmo vídeo da reunião entre Enel, Procon e Secretaria de Defesa do Consumidor. “Ficou forte ele com Enel né”, comentou. O advogado respondeu: “Muito é por causa de você”.

Na sequência, o traficante demonstrou frustração por não ter recebido o retorno esperado: “Não vou mais incomodar ele não doutor, não posso ficar forçando ele a me ajudar se o coração dele não quer me ajudar”. Carracena respondeu: “lutando por isso”. Índio concluiu: “se ele quisesse, já teria feito. Ainda mais depois do que eu fiz”.

A Polícia Federal avaliou que Gutemberg Fonseca “aparentemente” não correspondeu às expectativas do traficante, apesar de ter recebido algum tipo de auxílio mencionado nas conversas.

Gutemberg Fonseca negou qualquer relação com Índio do Lixão e afirmou que nunca teve contato com o traficante nem com Dudu. O ex-secretário declarou que, mesmo que algum encontro tenha ocorrido, “porque encontra muitas pessoas”, Índio não possuía mandado de prisão na época.

Sobre Marcos José Menezes, Gutemberg confirmou que manteve relação política com o ex-servidor. “Ele foi meu coordenador de campanha em 2022, quando fui candidato a deputado federal e será um dos coordenadores neste ano”, afirmou.

Ao comentar as menções ao seu nome nas conversas interceptadas, o ex-secretário declarou: “Sempre trabalhei para combater o crime organizado e pela segurança da minha família. Por que teria relações com essas pessoas? Não entendo porque eles mencionaram encontros comigo. Se tivesse alguma coisa, a Polícia Federal teria me indiciado. Na própria troca de mensagens, o traficante disse que eu não atendi aos pedidos dele”.

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