Castro torrou R$ 80 milhões públicos no Master após Vorcaro pagar R$ 1 milhão em degustação de uísque

Daniel Vorcaro preso e o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro (Fotos: Divulgação/Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo - Lula Marques/Agência Brasil)

Investigação da PF aponta “alinhamento político” do ex-governador do Rio de Janeiro com o dono do Master, com uso corrupto dos recursos públicos do Rioprevidência para o banqueiro mafioso

A investigação da Polícia Federal sobre o dinheiroduto bilionário do Rioprevidência para o falido Banco Master ganhou novos contornos após vir à tona a informação de que o banqueiro falido Daniel Vorcaro bancou R$ 1 milhão em degustação de uísque para o então governador bolsonarista Cláudio Castro (PL) em Nova Iorque, apenas um dia antes do aporte de R$ 80 milhões do fundo estadual no banco.

O episódio passou a ser tratado pelos investigadores como mais um elemento do que a PF descreve como “sincronismo” entre encontros privados, viagens e benefícios custeados por Vorcaro e as sucessivas liberações de recursos públicos previdenciários em favor do banco.

A suspeita central é de que relações pessoais e políticas entre o ex-governador e o dono do Master tenham influenciado decisões estratégicas dentro do Rioprevidência, permitindo aplicações consideradas de alto risco e em desacordo com critérios técnicos e regulatórios.

RELAÇÃO EXTRAPOLA, DIZ PF

Na decisão que autorizou a oitava fase da Operação Compliance Zero, o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal) reproduz trechos da investigação da PF segundo os quais a relação entre Castro e Vorcaro “ultrapassou o mero contato institucional”, que envolveu encontros frequentes, inclusive no exterior, “custeados pelo banqueiro”.

Segundo os investigadores, mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicariam que determinados investimentos do Rioprevidência dependiam diretamente de conluio com o então governador do Rio.

A PF sustenta que não houve mera “coincidência temporal” recorrente entre encontros privados e liberações financeiras subsequentes em favor do Banco Master. Padrão descrito pelos investigadores como “sincronismo” incompatível com simples casualidade.

 Nesse contexto, a degustação de uísque em Nova Iorque passou a integrar o conjunto de eventos analisados pela corporação para demonstrar a proximidade entre ambos os personagens centrais da investigação.

DE R$ 970 MILHÕES A R$ 3,7 BI

O foco da investigação são aplicações realizadas pelo Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Banco Master entre 2023 e 2025.

Inicialmente, as apurações apontavam cerca de R$ 970 milhões investidos em letras financeiras do banco. Com o avanço da investigação, porém, a PF identificou novos aportes em fundos estruturados ligados ao grupo, elevando o total investigado para aproximadamente R$ 3,7 bilhões.

Os investigadores afirmam que parte dessas operações ocorreu em meio às dificuldades de liquidez enfrentadas pela instituição financeira falida e sob alertas de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis.

Segundo a PF, mesmo diante de advertências técnicas, as aplicações prosseguiram após mudanças consideradas “estratégicas” na direção do Rioprevidência.

TROCA NA CÚPULA DO RIOPREVIDÊNCIA
 

Outro eixo central da investigação envolve alterações na estrutura de comando do Rioprevidência pouco antes do início dos aportes bilionários.

De acordo com a PF, dirigentes considerados alinhados politicamente passaram a ocupar cargos estratégicos na presidência, diretoria de investimentos e gerência operacional do fundo previdenciário.

Os investigadores sustentam que, após essas mudanças, etapas técnicas teriam sido flexibilizadas ou suprimidas para acelerar o credenciamento do Banco Master e viabilizar aplicações consideradas incompatíveis com a política conservadora historicamente adotada pelo fundo.

Para a PF e para a PGR (Procuradoria-Geral da República), há indícios robustos de possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, corrupção e lavagem de dinheiro.

OPERAÇÃO AMPLIA


A nova ação da PF aprofundou a crise política em torno de Cláudio Castro, que já havia sido alvo de outra operação policial dias antes, relacionada a suspeitas de favorecimento ao grupo empresarial Refit.

Na atual fase da investigação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra ex-dirigentes do Rioprevidência, operadores financeiros e pessoas ligadas ao entorno do banco.

A PF tenta rastrear possíveis vantagens indevidas, pagamentos ocultos e eventuais mecanismos de compensação política pelas aplicações realizadas.

A defesa de Castro afirmou que o ex-governador colaborou com as diligências e ainda analisa os autos para definir estratégia jurídica. O Rioprevidência informou que está à disposição das autoridades e que a atual gestão adotou medidas para reforçar mecanismos de compliance e segurança dos investimentos.

Com tantas provas e indícios é de se estranhar o fato de que o relator do caso no STF, ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro para a Corte, ainda não decretou a prisão do bolsonarista Cláudio Castro.

LUXO

A revelação de encontros em ambientes de luxo, viagens internacionais e degustações custeadas pelo banqueiro caiu como uma bomba nos meios políticos, sobretudo por envolver recursos previdenciários destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro.

Nas redes digitais, a repercussão rapidamente associou o episódio ao contraste entre o ambiente de sofisticação frequentado pelos investigados e a crise fiscal histórica enfrentada pelo Estado fluminense.

Mais do que caso de proximidade entre suspeitos poder político e banqueirista, a investigação da PF começa a desenhar falcatrua mais ampla: a de que decisões estratégicas que envolve bilhões de reais do sistema previdenciário estadual possam ter sido influenciadas não por critérios técnicos, mas por relações pessoais, interesses privados e alinhamentos políticos de bastidor. Em resumo: corrupção.

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