Crueza de Trump desmascara utopia de mercado eficiente


DAVI MOLINARI

A escalada protecionista promovida pela atual administração norte-americana coloca em xeque um dos pilares mais defendidos pelas escolas tradicionais de finanças: a Hipótese de Mercado Eficiente (HME) – (“Efficient Capital Markets” por Eugene Fama, no Journal of Finance,  1970). 

Ao intervir diretamente na formação de preços por meio de tarifas agressivas e barreiras comerciais, Washington demonstra, na prática, que os fluxos econômicos globais não respondem a uma “lógica natural de equilíbrio ou de livre concorrência perfeita”. 

A imposição de restrições severas ao capital estrangeiro e o controle estratégico de insumos tecnológicos desmascaram a premissa de que os mercados são capazes de se autorregular de forma neutra. 

Na realidade contemporânea, a assimetria de informações e o uso do poder político do Estado funcionam como as principais ferramentas de calibração das forças de mercado, deixando claro que a livre concorrência irrestrita permanece no campo da abstração teórica.

A TRANSITORIEDADE DO PENSAMENTO DE ADAM SMITH

Essa tensão entre a teoria liberal e a prática intervencionista não é um fenômeno recente, mas o fio condutor da própria história econômica ocidental, que encontra paralelos nítidos no materialismo histórico. 

O conceito de livre mercado, formalizado por Adam Smith no século XVIII como uma reação ao rígido controle estatal do mercantilismo, sempre operou mais como um ideal regulador do que como uma realidade factual concreta. Se no período mercantilista as potências europeias utilizavam o monopólio da informação, as cartas régias e a força militar para fixar preços e garantir a acumulação de riquezas, o advento do capitalismo industrial não eliminou o peso do Estado, apenas sofisticou seus mecanismos de atuação. 

Os breves momentos históricos de abertura e desregulamentação cambial ou tarifária só se sustentaram quando ancorados pelo poder hegemônico de nações capazes de moldar as regras do jogo a seu favor, evidenciando que a assimetria política precede e determina a suposta liberdade das trocas comerciais, exatamente como a crítica marxista aponta ao tratar a livre concorrência como uma fase transitória que inevitavelmente degenera na concentração e centralização do capital.

MÃO VISÍVEL DO ESTADO INVESTE EM ALTA TECNOLOGIA

O comportamento atual da superpotência norte-americana expõe com clareza essa engrenagem ao revelar uma contradição estrutural no financiamento do desenvolvimento. O Estado investe bilhões de dólares em subsídios públicos, captação de recursos e esforços governamentais direcionados para a pesquisa e o desenvolvimento do setor de alta tecnologia, como semicondutores e inteligência artificial. No entanto, após consolidar a soberania e a vanguarda tecnológica por meio do aparato estatal, o discurso oficial migra para a defesa da livre concorrência, exigindo que o restante do globo dispute o mercado sob as regras de uma eficiência que, na origem, foi artificialmente construída pelo Tesouro norte-americano. A retórica do livre mercado serve, assim, como uma ferramenta de preservação de assimetrias previamente estabelecidas pelo poder público, demonstrando que a pretensa racionalidade da HME cai por terra diante do controle de megagrupos econômicos tutelados pelo poder central.

TRUMP DESCORTINA O CAPITALISMO COMO ELE É

Ao avançar sobre os três pontos centrais dessa dinâmica — a transitoriedade da livre concorrência, os limites históricos da formulação de Adam Smith e a consolidação do Capitalismo Monopolista de Estado (HME) —, a atual política econômica conduzida por Donald Trump nos Estados Unidos funciona como uma desnudação prática das ilusões liberais. 

Ao erguer barreiras alfandegárias contra competidores globais, a Casa Branca implode o mito da “mão invisível” de Smith, provando que o mercado maduro é regido pelo monopólio e pela força, não por um equilíbrio abstrato. Da mesma forma, o intervencionismo escancarado destrói a tese da Hipótese do Mercado Eficiente, evidenciando que os preços dos ativos e das commodities não flutuam a partir de uma racionalidade matemática neutra dos investidores, mas respondem a decisões coercitivas tomadas em Washington para assegurar taxas de lucro domésticas. Por fim, esse cenário consolida a premissa marxista sobre a fusão orgânica entre o grande capital financeiro e o aparato estatal, onde o poder público atua diretamente como o braço executor e protetor dos monopólios nacionais, evidenciando que o capitalismo central é incapaz de sobreviver sem a mão visível do Estado.

As medidas de Trump e do Estado norte-americano distorcem os canais tradicionais – e incensados pelo mercado – de transmissão monetária operados pelo Federal Reserve, provando que o comportamento dos ativos financeiros responde muito mais às canetas políticas do que a uma suposta eficiência intrínseca baseada na divulgação de dados públicos. Ao blindar o mercado interno contra as oscilações externas e direcionar o fluxo de capitais por meio de taxas e de incentivos fiscais centralizados, a Casa Branca anula na prática a tese do passeio aleatório na precificação dos ativos – um dos dogmas das atuais políticas economicas. A dinâmica financeira atual demonstra que os mercados não flutuam de forma independente; eles são ativamente moldados, constrangidos e tutelados pelas necessidades geopolíticas imediatas e pelo controle das assimetrias de poder por parte de Washington, oferecendo uma comprovação factual detalhada da falência das teorias ortodoxas e chancelando a precisão da leitura dialética sobre a organização internacional do grande capital.

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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