Apesar das tóxicas declarações de Trump, negociações em Genebra foram consideradas positivas pelo chanceler Araghchi, pelos mediadores do Paquistão e do Catar e pelo vice JD Vance. Porta-voz Baqhaei diz que agora é “compromisso por compromisso”
O Estreito de Ormuz “não é seu cassino pessoal nem o quintal de piratas modernos”, afirmou o presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano Ebrahim Azizi enfatizando que são águas soberanas iranianas e que a decisão final cabe “ao nobre povo do Irã e às suas bravas Forças Armadas”.
A declaração se seguiu a novas ameaças de Trump, em meio às negociações de domingo em Genebra entre as delegações do Irã e dos EUA, com a presença dos mediadores do Paquistão e do Catar.
No sábado, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) havia anunciado o fechamento completo do Estreito de Ormuz, citando a “flagrante quebra de compromissos e violação do pacto pelos Estados Unidos em relação à não implementação da primeira cláusula do Memorando de Entendimento (com os EUA) sobre o fim da guerra” e “a violação incessante e contínua do cessar-fogo pelo regime sionista no sul do Líbano”.
No caso, dois dias de escalada israelense no Líbano, com cerca de 100 civis mortos em dezenas de cidades e aldeias no sul do país e recusas de Netanhyahu a cumprir com o cessar-fogo “em todas as frentes”, na véspera da reunião em Zurich.
Em uma publicação nas redes sociais, Trump escreveu: “O Irã deve impedir imediatamente que seus representantes bem pagos no Líbano causem problemas. Se não o fizerem, nós os atacaremos com muita força novamente, assim como fizemos na semana passada, só que com mais força!!!”
Trump acrescentara que os Estados Unidos poderiam muito bem tomar o Estreito de Ormuz à força, “ficar com 20% do petróleo” e até mesmo agir como um “cobrador de pedágio”.
“Poderíamos assumir o controle do estreito, se necessário. Eu poderia devastar o país se quisesse. E se eles não chegarem a um acordo, cobraremos os pedágios”, asseverou Trump, que se descreveu a si próprio como “sem limites” em entrevista ao portal Axios.
Declarações presunçosas – praticamente o mundo inteiro acha que são os EUA os perdedores da guerra que desencadearam contra o Irã -, levando a delegação iraniana, encabeçada pelo presidente do parlamento e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, a se retirarem no domingo das negociações em Genebra, que continuaram em nível de equipes técnicas e viraram a noite, trabalhando por 18 horas.
O que levou à advertência de Ghalibaf: “Seria melhor que medissem suas palavras. Nossas Forças Armadas estão preparadas para responder de outra maneira”.
Segundo as agências de notícia, depois da carnificina de domingo, praticamente não houve confrontos no Líbano nas últimas 24 horas.
O vice-presidente norte-americano, JD Vance, disse que as negociações com o Irã criaram uma “boa base para um acordo final bem-sucedido” que encerraria a guerra. “O acordo final é a casa”, disse o vice-presidente dos EUA aos repórteres. “Nós lançamos a base. Não construímos a casa, mas lançamos uma base bem-sucedida para chegar a um bom lugar para o povo americano.”
Estavam presentes como enviados especiais de Trump seu genro, Jared Kushner, e seu parceiro de negócios, Steve Witkoff. À imprensa, Vance disse que o Irã teria concordado com o retorno dos inspetores da AIEA e buscou ligar a liberação de ativos congelados iranianos à compra de exportações agrícolas dos EUA. China e Suiça saudaram os avanços nas negociações.
“COMPROMISSO POR COMPROMISSO”
O Irã divulgou detalhes sobre as negociações de domingo na Suíça, afirmando que está tomando medidas com base no princípio de “compromisso por compromisso”.
“A base do processo é o princípio de ‘compromisso por compromisso’, e a República Islâmica do Irã, ao monitorar o cumprimento das obrigações da outra parte, utilizará todos os meios à sua disposição para garantir que esses compromissos sejam efetivamente cumpridos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, em um comunicado divulgado nesta segunda-feira.
Baqhaei explicou os resultados das negociações realizadas na Suíça com a mediação do Paquistão e do Catar, confirmando o retorno da delegação iraniana.
“A delegação da República Islâmica do Irã está retornando ao país após intensas conversas sobre a implementação das disposições do memorando de entendimento para o fim da guerra”, disse ele.
Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, as conversas se concentraram nas cláusulas 1, 5, 10 e 11 do memorando de entendimento (MoU).
Por sua vez o Departamento do Tesouro dos EUA confirmou que estava suspendendo temporariamente as sanções ao Irã para permitir que a República Islâmica produza, venda e entregue petróleo bruto e produtos relacionados até 21 de agosto.
“Todas as transações” que anteriormente eram proibidas envolvendo a produção, venda e transporte de petróleo bruto de origem iraniana “são autorizadas até 00h01, horário de verão do leste dos EUA, 21 de agosto de 2026”, segundo o órgão que administra sanções econômicas dos EUA.
MEDIADORES VEEM “ATMOSFERA CONSTRUTIVA”
Os países mediadores, Paquistão e Catar, destacaram a “atmosfera positiva e construtiva” das negociações de domingo. As partes definiram “um mapa do caminho para alcançar um acordo final em 60 dias, estabelecendo as bases para o início imediato de novas conversações técnicas”, afirma um comunicado divulgado pelos mediadores.
“Alcançamos avanços promissores, incluindo a criação de um mecanismo para futuras conversações técnicas”, acrescenta a nota, que menciona um canal de contatos estabelecido para “evitar incidentes e falhas de comunicação” no Estreito de Ormuz.
“A incansável mediação paquistanesa e catari possibilitou grandes avanços para acabar com a guerra no Líbano”, comentou no X o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, após o encontro na Suíça.
“As exportações de petróleo e petroquímicos ficam isentas, o bloqueio é suspenso, alguns ativos congelados são liberados e começa um importante plano de reconstrução e desenvolvimento para o Irã”, acrescentou Araghchi ao comentar os acordos.
Mas, assinalou, o primeiro “teste real” será o fim do conflito no Líbano. Segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde libanês, as operações israelenses mataram 4.106 pessoas desde 2 de março. No mesmo período, o Exército israelense reportou a morte de 36 militares. As tropas invasoras israelenses vêm procedendo a uma devastação semelhante à de Gaza, através de bombardeios e uso de motoescavadeiras, enquanto Netanyahu assevera que vai manter indefinidamente a ocupação.
O clima positivo de Genebra se refletiu no preço do petróleo, com o barril Brent do Mar do Norte, referência mundial, caindo 1,5%, para 79,38 dólares, enquanto a referência de mercado dos EUA, o West Texas Intermediate, recuava 0,5%, a 75,47 dólares.











