A ex-vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão, presidente nacional do PCdoB, afirma, em entrevista ao HP, que o partido está pronto a contribuir para a vitória e o sucesso de um novo governo Lula
A Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulga, nesta segunda-feira (22), sua contribuição ao programa de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. O documento tem como mote “Rumos Soberanos para uma Nova Arrancada do Desenvolvimento”.
A Hora do Povo entrevistou a presidente nacional do partido, a ex-vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão, sobre essas contribuições e também as suas impressões sobre o momento atual. Confira a entrevista na íntegra!
HORA DO POVO: Qual a avaliação que os comunistas fazem do governo Lula e como vocês veem as eleições que se aproximam?
NÁDIA CAMPEÃO: O PCdoB considera que o governo da reconstrução nacional, liderado pelo presidente Lula, entre 2023 e 2026, cumpriu papel decisivo.
O presidente recebeu um país profundamente fragilizado por uma fase regressiva, iniciada com o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff e agravada durante o governo Bolsonaro.
Lula retomou a agenda do desenvolvimento, reafirmou seu compromisso e elevado espírito público, enfrentando a ameaça ao Estado de Direito Democrático e dando a ênfase à defesa da soberania nacional, preservou a normalidade institucional e reuniu amplas forças políticas e sociais para a reconstrução nacional. Ao mesmo tempo, retomou a agenda da economia e reafirmou seu compromisso histórico com a redução das desigualdades sociais.
Nós continuamos reafirmando a confiança de que o eleitorado reconhecerá essa realidade e que o novo mandato do presidente Lula será um vetor de referência fundamental para a soberania nacional, para consolidar a democracia e para elevar a qualidade de vida do povo.
HP: Como você avalia o momento atual no Brasil e no mundo?
NÁDIA: Eu vejo que a acirrada disputa presidencial brasileira transcorre sob os impactos de um cenário mundial conturbado e marcado por transformações. O imperialismo estadunidense, em razão de sua progressiva perda de hegemonia, torna-se cada vez mais agressivo e beligerante. É o que se vê nas agressões conjuntas dos EUA e Israel contra o Irã e os palestinos.
O governo Trump arrasta o mundo para guerras e desata uma corrida armamentista. As potências da Europa e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prorrogam a guerra entre Ucrânia e Rússia, sabotam as propostas de paz e injetam na Ucrânia bilhões de dólares em armas. Seguem em vigência tarifas unilaterais dos Estados Unidos, que afetam mais de 60 países, incluindo o Brasil.
É necessário abrir um novo ciclo histórico de desenvolvimento nacional. Nosso programa para um novo governo aponta nesta direção, construir uma vontade nacional e social neste sentido. Com um novo governo Lula, essa possibilidade está posta.
HP: Quais os tópicos mais importantes das propostas apresentadas pelo PCdoB?
NÁDIA: Mesmo reconhecendo as importantes entregas feitas pelo governo, o PCdoB salienta que o atual modelo de crescimento econômico é insuficiente e aproxima-se de seus limites e que a política monetária mantém a taxa básica de juros entre as mais elevadas do mundo, desestimula o investimento produtivo e transfere cerca de um trilhão de reais ao ano em recursos públicos para uma parcela reduzida da sociedade e para especuladores estrangeiros, ampliando a concentração de renda e poder.
Por isso, os comunistas sustentam a necessidade de o Brasil ter uma estratégia de crescimento vigorosa, centrada na transformação produtiva, industrial e tecnológica, na diversificação e segurança energética, na sustentabilidade ambiental, na valorização do trabalho, na cultura e indústria criativa, na redução das desigualdades e erradicação da pobreza extrema.
Para tanto, sinalizam que esse conjunto de avanços requer também uma democracia avançada, de conteúdo social e político, que suplante a subordinação aos interesses oligárquicos que condicionam a representação política e participação popular e limitam institucionalmente a capacidade nacional de promover avanço econômico com justiça social.
Nesse sentido, reforça que soberania nacional e democracia robusta são o passaporte indispensável para manter e ampliar as conquistas sociais do povo brasileiro, melhorar a vida das pessoas e conferir um horizonte de futuro mais próspero e definido.
Nós defendemos que a transformação do país deve ter como núcleo o papel estratégico do Estado como agente de investimento, indução, planejamento e coordenação do desenvolvimento econômico, articulado com o aprofundamento democrático e a valorização do trabalho como motores do progresso, tudo isso a partir de uma atuação soberana.
Para dar conta desses desafios, nós apontamos três vértices para uma nova etapa de desenvolvimento nacional.
O primeiro é a elaboração de um plano nacional de desenvolvimento a ser formulado nos primeiros meses do novo governo e que oriente “a ação integrada de todo o governo, por meio de metas traduzidas em programas, missões e projetos estruturantes.
O segundo vértice diz respeito a uma política sistêmica de reconfiguração produtiva e tecnológica, “tendo como núcleo a indústria de transformação e os serviços modernos, especialmente aqueles intensivos em conhecimento, informação e gestão de dados”. Para tanto, destaca que o “princípio orientador consiste em articular os objetivos de produtividade e competitividade com a melhoria efetiva das condições de vida da população”.
Nesse ponto, precisamos elevar o nível de coordenação política da estratégia industrial; utilizar plenamente o poder de compra e contratação do Estado como instrumento de transformação produtiva; assegurar condições mais favoráveis às empresas de capital nacional no acesso às compras governamentais e às políticas de conteúdo local e estabelecer metas objetivas e mensuráveis.
O terceiro vértice é o da ciência, tecnologia e inovação, principal fator de transformação produtiva nas economias contemporâneas. Neste sentido, defendemos, entre outros aspectos, a consolidação de cadeias produtivas estratégicas como o complexo econômico-industrial da saúde, a digitalização da indústria e o aproveitamento sustentável de minerais críticos, incluindo as terras raras.











