Bolsonaristas Tarcísio e Cláudio Castro mantiveram contratos milionários com empresa ligada ao PCC 

Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Cláudio Castro e Jair Bolsonaro - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Distribuidora de combustíveis Rede Sol, que possui contratos com os governos de SP e Rio, é alvo de investigação da PF

As relações e os negócios entre governadores bolsonaristas e empresas que passaram a ser investigadas por conexões com o crime organizado avançam cada vez mais pelo país. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, gestões comandadas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro mantiveram ou firmaram contratos milionários com a distribuidora de combustíveis Rede Sol Fuel, alvo da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que apura um esquema de lavagem de dinheiro e a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis.

A investigação colocou sob suspeita uma complexa rede de empresas e fundos de investimento apontados pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal como instrumentos de movimentação financeira da facção criminosa. Entre os investigados está o fundo Mabruk II, que adquiriu R$ 30 milhões em notas comerciais da Rede Sol e é apontado pelas autoridades como um dos financiadores das operações do PCC no mercado de combustíveis.

Apesar do avanço das investigações, a empresa continuou ampliando seus negócios com o poder público.

Em São Paulo, a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) manteve uma extensa relação comercial com a distribuidora. Levantamento de documentos oficiais mostra que a Rede Sol acumulou pelo menos R$ 66,8 milhões em contratos e aditivos com órgãos do governo paulista entre 2023 e 2025.

O principal acordo foi firmado pelo Departamento Hidroviário, vinculado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, em fevereiro de 2024. O contrato previa o fornecimento de óleo diesel marítimo e aditivos para as embarcações que operam nas travessias litorâneas do estado e tinha valor inicial de R$ 63,6 milhões.

Em abril de 2025, o governo paulista autorizou um reajuste contratual superior a R$ 1,1 milhão após a empresa rejeitar uma proposta de redução do índice de correção. Pouco depois, em maio, um termo aditivo elevou o valor total do contrato para R$ 66,6 milhões e prorrogou sua vigência até agosto de 2026.

Mesmo durante o avanço das investigações, o vínculo entre a administração estadual e a empresa permaneceu intacto. Em julho de 2025, a própria Secretaria de Meio Ambiente publicou portaria designando os fiscais responsáveis pela execução do contrato.

Os negócios da Rede Sol com a gestão Tarcísio não se limitaram ao Departamento Hidroviário. A empresa também venceu licitações ou forneceu combustíveis para a Polícia Militar paulista, para o Instituto de Zootecnia, ligado à Secretaria de Agricultura, e para o Hospital Guilherme Álvaro, da Secretaria da Saúde.

Já em em agosto de 2025, justamente no período em que a Operação Carbono Oculto se tornava pública e produzia seus primeiros desdobramentos, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) formalizou contrato com a distribuidora para fornecimento de gasolina.

Embora o contrato da CPTM tenha valor menor, cerca de R$ 162 mil, sua assinatura ocorreu em um momento em que os indícios levantados pelas autoridades já colocavam a empresa no centro de suspeitas.

Além disso, a Rede Sol já era alvo de outro procedimento anterior. O Ministério Público de São Paulo mantém, desde 2023, uma investigação sobre supostas irregularidades em procedimento licitatório envolvendo a distribuidora. Mesmo diante desse histórico, a empresa continuou sendo contratada por diferentes órgãos da administração paulista.

No Rio de Janeiro, a situação também é grave. A gestão de Cláudio Castro (PL) assinou em março de 2025 um contrato de R$ 168,8 milhões com a Rede Sol para abastecer a frota da Polícia Militar fluminense até abril de 2027. O acordo prevê o fornecimento de quase 37 milhões de litros de combustíveis para os 70 postos internos da corporação e pode ser prorrogado sucessivamente por até dez anos.

O contrato foi firmado na gestão do então secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes Nogueira, e, desde sua assinatura, passou por diversas alterações para incorporar novas fontes de recursos públicos.

Em julho de 2025, foram acrescentados R$ 456 mil provenientes de convênio com a Prefeitura de Barra do Piraí. Em outubro, outros R$ 8,49 milhões foram incluídos por meio do Fundo Especial da PM. Em novembro, mais R$ 1,77 milhão foi incorporado ao contrato.

Apesar da deflagração da Operação Carbono Oculto e o aprofundamento das investigações, o governo fluminense manteve o acordo em vigor.

O episódio assume proporções ainda mais alarmantes porque a própria distribuidora já havia sido alvo de questionamentos anteriores. Em maio de 2025, policiais do 38º BPM, em Três Rios, identificaram irregularidades em combustível fornecido pela empresa. Um laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli constatou gasolina com percentual de etanol acima do limite legal estabelecido pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). O episódio resultou em processo judicial e em multa superior a R$ 1 milhão.

Ainda assim, a distribuidora continuou responsável pelo abastecimento de aproximadamente cinco mil veículos da Polícia Militar do Rio.

Questionado pela imprensa, o Palácio Guanabara preferiu não comentar o caso. A Polícia Militar sustenta que o contrato é legal e informou apenas que uma nova licitação está em andamento.

Os contratos firmados pelos governos de Tarcísio de Freitas e Cláudio Castro revelam uma situação politicamente explosiva: duas administrações identificadas com o bolsonarismo estreitaram relações comerciais milionárias com uma empresa que passou a ser investigada por suspeitas de ligação com a estrutura financeira do PCC.

Embora a Rede Sol negue qualquer relação com o crime organizado e afirme que todas as suas operações financeiras ocorreram dentro da legalidade, o fato é que a empresa continuou ampliando seus negócios com governos estaduais mesmo depois de se tornar alvo de investigações que atingiram o mercado de combustíveis e provocaram forte repercussão nacional.

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