Banco Mundial revê dogmas do livre mercado

A sede do Banco Mundial (foto: reprodução)


CAROLINA MARIA RUY

Durante décadas, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foram defensores do livre mercado como principal regulador da sociedade. Um relatório1 sobre política industrial e desenvolvimento, porém, publicado em março de 2026, reconhece a importância de os governos incentivarem industrialização em cadeias de produtividade.

Embora o documento reafirme a tese do ajuste fiscal, ele abre uma oportunidade para questionar dogmas consolidados pela ideologia neoliberal.

Desde a crise do petróleo de 1973, cresceu e se tornou dominante no mundo ocidental uma visão econômica que prioriza a estabilidade monetária, a contenção dos investimentos sociais e a manutenção de determinado nível de desemprego sob o argumento de controlar a inflação.

Esse ideário foi reforçado pelas diretrizes formuladas pelo próprio Banco Mundial em conjunto com o FMI, em 1989, conhecidas como Consenso de Washington. Entre seus pilares estavam a liberalização financeira, as privatizações, a austeridade fiscal, a globalização econômica e a flexibilização das relações de trabalho. A consolidação dessa agenda foi favorecida também pelo fim da Guerra Fria, em 1991.

Tal paradigma, contudo, começou a ser abalado pela crise financeira de 2008, que levou bancos privados a recorrerem aos governos para evitar o colapso, e pela pandemia de coronavírus que expôs as limitações do mercado na garantia de necessidades básicas da população.

A instabilidade e a insegurança geradas, sobretudo após 2008, também fortaleceram movimentos de extrema direita que, à sua maneira, passaram a desafiar aspectos do neoliberalismo ao defender protecionismo para suas indústrias (mantendo a defesa do liberalismo para outros países) e adotar uma política internacional abertamente imperialista.

Soma-se a isso o fato de a China, contrariando a tese do Estado mínimo, chegar a 2026 como uma potência capaz de ameaçar a hegemonia dos Estados Unidos. Temos, então, elementos suficientes para o recente diagnóstico do Banco Mundial: o dogma da autorregulação dos mercados — tratado pelos neoliberais quase como o “fim da história” até a crise de 2008 — foi desmentido pela própria realidade.

O RELATÓRIO

O documento afirma que “economistas do Banco Mundial relataram que governos clientes buscavam aconselhamento sobre política industrial — esmagadoramente com o objetivo de impulsionar um crescimento econômico mais rápido e gerar empregos”. O texto apresenta 15 instrumentos de política industrial, que vão desde parques industriais e programas de qualificação profissional até tarifas de importação, subsídios à produção e desvalorizações cambiais competitivas.

Além disso, o relatório revisita o documento de 1993 sobre o chamado “milagre do Leste Asiático”. Na ocasião, o Banco argumentava que políticas industriais “geralmente não funcionavam” e não deveriam servir de modelo para os países em desenvolvimento. Agora, a instituição admite que essas políticas podem ser eficazes, são mais replicáveis do que se imaginava e não dependem exclusivamente de circunstâncias excepcionais vividas pelos países asiáticos.

O DOGMA DO LIVRE MERCADO PREJUDICOU O BRASIL

Sob a lógica do ajuste fiscal, o desenvolvimento brasileiro perdeu dinamismo. O salário mínimo foi desvalorizado, a desindustrialização avançou e cresceram a informalidade e a terceirização. Esse processo teve impactos profundos sobre todas as esferas da sociedade, produzindo empregos de pior qualidade e reduzindo a capacidade de organização dos trabalhadores.

Em artigo publicado no Valor Econômico2, o economista Marcos Chiliatto avalia que a industrialização das décadas de 1930 a 1980 no Brasil perderam força com advento do Consenso de Washington. Segundo ele “Política industrial se tornou heresia. Desde então, o Brasil enfrenta um prolongado processo de especialização regressiva e baixo crescimento da produtividade, em contraste com países como China ou Coreia”.

Na realidade essa perda de dinamismo vem desde a ditadura militar que, embora tenha implementado sua versão do desenvolvimentismo, adotou uma política econômica fortemente alinhada aos Estados Unidos e de desvalorização do trabalho por meio do arrocho salarial, aumentando a dependência externa e o empobrecimento. Esse processo foi, de fato, agravado a partir da década de 1980, com um processo de abertura econômica, privatizações e flexibilização das relações de trabalho.

Mesmo após as crises de 2008 e da pandemia, essa agenda foi aprofundada pelas reformas liberais implementadas nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, tendo como uma de suas consequências a expansão de formas de trabalho precarizadas, como aquelas mediadas por plataformas digitais.

Apesar do empobrecimento, da despolitização e do aumento das desigualdades intensificados com o crescimento do neoliberalismo, as ideias formuladas em 1989 ainda exercem forte influência sobre a política econômica no Ocidente.

O QUE O DEBATE TRAZ DE NOVO?

A manifestação do Banco Mundial é uma resposta às sucessivas crises do neoliberalismo. O relatório reconhece que a estratégia predominante nas últimas décadas — baseada na estabilidade macroeconômica, na abertura dos mercados e em investimentos horizontais em educação e infraestrutura — mostrou-se insuficiente para promover crescimento econômico acelerado e transformação produtiva. Em última instância, admite que o papel da política industrial foi subestimado.

O documento também ressalta a importância das políticas industriais em um cenário global marcado pela desaceleração econômica. E reconhece algo que os desenvolvimentistas defendem há décadas: os grandes processos históricos de industrialização e desenvolvimento dos países sempre envolveram planejamento e ação do Estado.

Abre-se, assim, uma oportunidade para que os setores comprometidos com o desenvolvimento nacional — na política, no movimento sindical, na academia e na sociedade civil — reafirmem a necessidade de políticas públicas capazes de reduzir desigualdades e estruturar cadeias produtivas que gerem empregos de qualidade, promovam a mobilidade social e ampliem as oportunidades de ascensão profissional.

Mais do que isso, impõe-se o desafio de construir um nacional-desenvolvimentismo do século XXI, compatível com o atual estágio de capacidade tecnológica e de avanços sociais e culturais, criando as condições para uma transformação verdadeiramente profunda.

Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois e coordena o Grupo de Pesquisa da FMG sobre a sociedade brasileira.

1 Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century (“Política Industrial para o Desenvolvimento: Abordagens no Século XXI”) publicado em 2026 pelo Banco Mundial (World Bank Group), da série Policy Research Reports. O documento é assinado por Ana Margarida Fernandes e Tristan Reed.

2 Marcos Chiliatto, “Uma reavaliação sobre políticas industriais”, Valor Econômico, 11 de maio de 2026.

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