Com perdas de US$ 62 bilhões nos salários, arrocho é o retrato da crise argentina, aponta pesquisa

"Além do impacto no bolso dos assalariados, o Estado também perde devido à menor arrecadação de impostos", adverte o relatório (Redes Sociais)

Observatório da Atualidade Trabalhista e econômica assinala que, desde chegada de Milei ao governo, perda do poder aquisitivo dos trabalhadores – tanto no setor público como no privado – provocou a queda no consumo interno, levando à ruína a produção nacional e o comércio

A perda de renda dos trabalhadores argentinos alcança 93,5 trilhões de pesos (US$ 62 bilhões) nos primeiros 30 meses do governo de Javiel Milei, revela uma pesquisa do Observatório de Atualidade Trabalhista e Econômica (MATE), divulgada pelo site Motor Econômico e pelo jornal Página 12 deste domingo (5).

Diretor do Motor Econômico, Raúl Dellatorre recorda que “o arrocho salarial é o propulsor da crise e que a perda do poder aquisitivo” acaba comprometendo o conjunto da economia argentina.

Conforme esclarece a organização, esses US$ 62 bilhões são “o montante que representa a quantia de dinheiro retirada dos bolsos dos trabalhadores, bem como dos fundos de seguridade social, dos planos de saúde e dos sindicatos – que viram suas receitas diminuir devido à queda nos salários tanto do setor público quanto do privado”.

O levantamento do Observário sediado em Rosário aponta que a “disparidade salarial entre os trabalhadores dos dois setores consolidou-se já nos primeiros meses do governo, período em que a remuneração do setor privado sofreu uma queda mais acentuada”. Em decorrência do choque inflacionário provocado pela gestão Milei nos seus três primeiros meses de mandato, o poder de compra (salário real) da remuneração média do setor privado recuou 15 pontos em relação aos níveis observados entre setembro e novembro de 2023 – o último trimestre do governo de Alberto Fernández.

SALÁRIOS REAIS DESPENCARAM COM O NEOLIBERALISMO

Para os servidores, a perda foi de 25 pontos no mesmo período. Em outras palavras, em comparação com um salário real de 100 pontos ao final do mandato da administração anterior, seis meses depois (por volta do segundo trimestre de 2024), os salários reais no setor privado haviam caído para 85 pontos, enquanto os do setor público haviam recuado para 75 pontos.

Do segundo semestre de 2024 até quase meados de 2025, ocorre uma recuperação do poder de compra dos salários – impulsionada principalmente pela queda da inflação -, permitindo que os trabalhadores do setor privado recuperassem provisoriamente 12 pontos (subindo de um valor de índice de 85 para 97) e os do setor público recuperem 7 pontos (de 75 para 82). No entanto, mesmo para os trabalhadores do setor privado, essa recuperação do poder de compra foi insuficiente para compensar a queda ocorrida durante a fase inicial da gestão Milei.

Daquela época até o presente (nos últimos 12 a 15 meses), os salários dos setores público e privado seguiram uma tendência semelhante; no entanto, em ambos os casos, ficaram atrás da inflação. Consequentemente, ambos os segmentos perderam poder de compra equivalente a 4 pontos. Desta forma, o setor privado caiu de um patamar anterior de 96 pontos para 92, enquanto os trabalhadores do setor público passaram de 82 para 78 pontos.

Em comparação a quando Alberto Fernández deixou a presidência, os servidores perderam 22 pontos em termos de salário real, enquanto os trabalhadores do setor privado perderam, em média, 8 pontos”

“Assim, em relação ao nível salarial vigente quando Alberto Fernández deixou o cargo, os trabalhadores do setor público perderam 22 pontos em termos de salário real, enquanto os trabalhadores do setor privado perderam, em média, 8 pontos”, disse Raúl Dellatorre.

Para os trabalhadores do setor privado, a perda acumulada no mesmo período chegaria a 2,5 milhões de pesos por pessoa. Ao somar as perdas sofridas por todos os assalariados dos setores público e privado entre dezembro de 2023 e maio deste ano, os pesquisadores estimam o impacto financeiro no bolso dos trabalhadores em 67,1 trilhões de pesos (US$ 44,49 bilhões).

No entanto, o relatório aponta que a perda de renda real dos trabalhadores não é a única transferência resultante da queda dos salários. “Além do impacto no bolso dos assalariados, o Estado também perde devido à menor arrecadação de impostos, enquanto planos de saúde geridos por sindicatos e os próprios sindicatos enfrentam perda de financiamento”, destaca o MATE.

O estudo estima uma perda de receita estatal totalizando 17,4 trilhões de pesos (US$ 11,5 bilhões) no período, devido à redução na arrecadação previdenciária, além de 7,3 trilhões (US$ 4,84 bilhões) em contribuições perdidas para planos de saúde sindicais e 1,7 trilhão (US$ 1,12 bilhão) em redução de contribuições sindicais. Em suma, esses três itens somam 26,4 trilhões de pesos (US$ 17,5 bilhões) – valor que se acrescenta aos 67,1 trilhões de pesos (US$ 44,49 bilhões) efetivamente retirados do bolso dos trabalhadores durante os dois anos e meio de gestão Milei.

No total, isso representaria transferências de renda do trabalho – totalizando 93,5 trilhões de pesos – para outros recebedores de renda com menor vínculo com o consumo interno e que, geralmente detêm grandes fortunas; como prática habitual, eles destinam esses recursos adicionais a gastos ou investimentos no exterior (fuga de capitais).

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