Subitamente, o noticiário sobre o regime de Kiev, que vinha sendo apresentado pela mídia imperial como estando “virando” a guerra contra a Rússia com seus “ataques profundos”, muda de tom, com o anúncio da demissão do ministro da Defesa, o tecnocrata de TI Mikhail Fedorov, dança das cadeiras geral na rua Bankova e renúncia da premiê Yulia Svyrydenko, declaração do ‘presidente’ Zelensky sobre a incompatibilidade entre o ministro e o general Syrsky, e manifestações na capital e mais uma dezena de cidades contra a demissão.
Para analistas, o pano de fundo da demissão é o avanço das forças russas no Donbass, que libertaram Konstantinovka e estão a caminho de Kramatorsk e Slaviansk, e a intensificação, de Kiev a Odessa, do bombardeio russo à logística que ainda sustenta o nicho neonazi no Donbass.
Além dos recorrentes protestos por todo o país contra a “busificação” – o sequestro de homens em plena rua para serem enviados como carne de canhão para o front -, com os confrontos entre populares e os “recrutadores” mostrados em inúmeros vídeos. Há um mês, ocorreu a “revolta de Lviv” contra a “busificação”.
Pelo segundo dia consecutivo, centenas de manifestantes, em Kiev e em uma dezena das principais cidades ucranianas, exibindo bandeiras azul-amarelas, cartazes e faixas e gritando “vergonha”, exigiram de Zelensky a reversão do afastamento de Fedorov.
Manifestantes protestam contra o alistamento forçado e corrupção no governo:

Cenas que também lembram as de um ano atrás, quando Zelensky tentou retomar o controle de agências ‘anticorrupção’ criadas sob inspiração de Washington e que andavam atrapalhando a roubalheira dos amigos do presidente, e acabou tendo de recuar e ajeitar o cobertor curto.
PALANTIR-BOY
Mais jovem ministro da Defesa da Ucrânia, Fedorov só durou seis meses no cargo. Ele granjeou prestígio ao prometer reformular o recrutamento para atenuar a busificação, que seria substituída por contratos (que não saíram do papel), e também por capitalizar a ofensiva com drones contra a Rússia. Saiu batendo a porta, e acusou o general Syrkys de “dividir o país”.
A gestão de Fedorov também se notabilizou por aprofundar os vínculos com a Palantir – afiliada do Pentágono e notória pelo manifesto do tecnofascismo. A principal função do ministério é ser o conduto para a entrada dos euros e armas para a guerra, com a execução propriamente dita cabendo aos militares.
O portal ucraniano Strana afirmou que Zelensky estava cada vez mais insatisfeito com o “jogo político independente” de Fedorov e seus vínculos com círculos próximos ao Escritório Nacional Anticorrupção (NABU) e ao Escritório Especializado em Procuradores Anticorrupção (SAPO), que investigaram uma série de casos de corrupção envolvendo altos funcionários ucranianos.
Aliás, que forçaram Timur Mindich, empresário conhecido como “carteira de Zelensky” nos círculos políticos de Kiev e envolvido no desvio de US$ 100 milhões da Energoatom, a estatal de geração nuclear de energia, a fugir do país para não ser preso e está exilado em Tel Aviv.
Em maio, outro escândalo de corrupção forçara a renúncia do chefe de gabinete de Zelensky, Andrey Yermak.
Observadores apontaram como a motivação para o entrevero em curso o fato de que o pessoal de Zelensky e de Fedorov “reivindicavam as mesmas fatias do bolo financeiro do Ministério da Defesa”.
BRIGA ENTRE ARANHAS NUM POTE
Para o ex-deputado Viktor Medvedchuk, líder do proscrito partido Plataforma de Oposição – Pela Vida, a mais recente reforma do governo ucraniano não é sobre reformar as forças armadas, mas sim Zelensky tentando preservar seu controle no poder, como fez anteriormente com o então comandante do exército Valery Zaluzhny, atualmente aposentado na embaixada de Londres.
Medvedchuk, que está no exílio e preside o movimento “Outra Ucrânia”, escreveu que “a verdadeira luta política não é entre Fedorov e Syrsky, mas entre Fedorov e Zelensky. A luta não é pelo poder militar, mas pelo poder civil, pela liderança geral do país”.
Medvedchuk enfatizou que os meios de comunicação ocidentais transformaram o “monstro moral” Fedorov em um “combatente da corrupção” e um “gestor eficaz”, enquanto seus apoiadores ocidentais organizaram “manifestações (Maidan) por toda a Ucrânia” em seu apoio.
“Ele agrada à coalizão de bastardos belicistas europeus principalmente porque apresenta a guerra, que está causando tanto sofrimento ao povo ucraniano, ao público ocidental como se fosse um jogo de computador, onde soldados e civis russos são alvos silenciosos. Essa apresentação irrealista é mais do que aceitável para os belicistas europeus”, ele enfatizou.
Vladimir Rogov, copresidente do Conselho Coordenador para a Integração dos Novos Territórios da Câmara Cívica da Rússia, comentou a renúncia de Fedorov em entrevista ao Tsargrad.tv . Segundo o especialista, o ministro começou a agir por conta própria, escapando rapidamente do controle de Zelensky.
“Você precisa entender que isso é pura briga entre aranhas num pote. É uma espécie de terrário de amigos. <…> Fedorov foi o responsável pela parte informativa <…> Ele está profundamente integrado à sociedade ocidental, graças ao seu nível de profissionalismo na mídia, TI e manipulação da opinião pública. Zelensky o vê como um concorrente”, explicou Rogov.
Nessas manifestações pró Federov, havia ainda cartazes de “um exército europeu para um país europeu” e “precisamos de um matador de russos”.
REFORMULAÇÃO “DESTRUTIVA”, DIZ FINANCIAL TIMES
Por sua vez, a mídia ocidental registrou a nova crise política em Kiev. “Protestos raros em tempos de guerra” que minaram a posição de Zelensky, noticiou a Reuters. Editorial do Financial Times considerou a reformulação ministerial “destrutiva”: a lealdade foi escolhida em detrimento da eficiência. O Le Monde classificou a atuação de Fedorov como “brilhante” e traçou paralelos óbvios com a demissão de Zaluzhny e a crise anticorrupção do ano anterior.
Para o Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, a demissão foi uma “grande surpresa” e “a UE questionará por que tal pessoa está sendo substituída”. Em sua visita de despedida a Kiev, em prol da continuação da guerra, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, deu de cara com os protestos.
O TAMANHO DA “DIVERGÊNCIA”
O jornal russo Komsomolskaya Pravda explicitou a amplitude das “divergências” no seio do regime. “Nos seus seis meses como ministro, Fedorov tentou, sob o pretexto da digitalização, reestruturar todos os esquemas de corrupção para atender à sua própria agenda. E quando, nos últimos meses, surgiu a ideia de novas licitações digitais para a aquisição de todos os fabricantes de drones, até a Fire Point [empresa ligada a Zelensky] seria afetada.”
A preferência por Syrkys é compreensível: “ele é o homem perfeito para Zelensky — impopular, eficiente. Alguém que definitivamente não se tornará outro Zaluzhny”.
“E aqui voltamos ao dinheiro. Esses 90 e 70 bilhões [respectivamente anunciados pelo bloco europeu e pela OTAN] ficarão principalmente na Europa ou serão destinados à compra de armas pelos EUA. Somente armas chegarão à Ucrânia. E todos nós sabemos que Zelensky e sua ‘família’ estão acostumados a disparar dois mísseis e vender um no mercado negro.”
“E então Fedorov apareceu, automatizando o sistema, monitorando cada míssil lançado e reestruturando a corrupção para atender aos seus próprios interesses. Como isso poderia ser vantajoso para Syrsky? Zelensky? Cada míssil custa, digamos, um milhão de dólares. Você consegue imaginar a receita que eles arriscam perder?”
100% LEAL À ‘FAMÍLIA’ ZELENSKY
Nesta quinta-feira (17), o parlamento ucraniano aprovou o ex-CEO da Naftogaz, a estatal do gás, Sergey Koretsky, como primeiro-ministro com 289 votos a favor e um contra, e que é considerado “100% leal à ‘família’ Zelensky”. A antecessora, Svyrydenko, renunciara no dia 14 e, com ela, todos os ministros. Foi de Zelensky a decisão de deixar Fedorov de fora do novo gabinete.
Citando as chamadas “fitas de Mindich” – as gravações da investigação de corrupção que vieram a público-, o parlamentar ucraniano Aleksey Goncharenko lembrou os vínculos entre Korestky e o agora foragido “carteira de Zelensky”, Mindich.
Segundo Goncharenko, Koretsky foi colocado à frente da Ukrnaftoburinnya, uma empresa privada de energia anteriormente pertencente ao antigo patrono de Zelensky, o oligarca Igor Kolomoysky, após sua tomada pelo Estado.
“A ideia: controlar os fluxos de caixa, sacar bilhões e instalar seu próprio pessoal. Esse plano foi discutido e implementado bem no apartamento de Mindich. Tudo está gravado nas fitas”, disse Goncharenko.
Mas o segundo ponto da pauta do parlamento ucraniano, a definição do novo ministro da Defesa, gorou: “não há votos por causa dos protestos”. Na véspera, Zelensky nomeou o chefe interino do Serviço de Segurança Ucraniano (SBU), Evgeny Khmara, como ministro interino.
Embora seja a partir dessas contradições dentro do regime que os protestos espocam, ninguém sabe como irão se desenvolver. Mas de acordo com pesquisa recente da Gallup de 14 de julho, 66% da população ucraniana é favorável a negociações para encerrar a guerra o mais rápido possível. Em contraste, o apoio à continuação da luta até a vitória total caiu para uma faixa de 34%. O que é uma quase uma inversão completa em relação a 2022 (22% a 73%).











