Em discurso na tevê, Trump, além de acusar China sem provas, reiterou seu intento de fraudar as eleições de novembro nos EUA
A China rechaçou as acusações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma suposta interferência chinesa na eleição presidencial americana de 2020: “invenções e calúnias maliciosas”.
As alegações de Trump foram feitas em discurso pela tevê na véspera em que ele praticamente anunciou sua disposição de fraudar as eleições de novembro, por meio de uma lei que está encalhada no Congresso e visa restringir eleitores e comparecimento às urnas.
Ele também retomou sua cínica fábula de que só perdeu a eleição de 2020 – aquela do repúdio ao negacionismo na pandemia e ao hediondo assassinato do negro George Floyd por um policial racista -, vencida por Joe Biden por sete milhões de votos de diferença e, no Colégio Eleitoral, por 306 a 232, por causa da “fraude”.
“As alegações formuladas pela parte norte-americana não passam de puras invenções e calúnias maliciosas, cuja falta de fundamento já foi comprovada há muito tempo”, afirmou na sexta-feira (17) o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian.
“A comunidade internacional sabe muito bem quem interfere habitualmente nos assuntos internos de outros países, mantém vigilância prolongada e indiscriminada sobre governos, empresas e cidadãos comuns em todo o mundo e rouba dados de cidadãos estrangeiros em escala massiva”, enfatizou o porta-voz na coletiva de imprensa.
Sem apresentar quaisquer provas, Trump alegou que “a partir da eleição de 2020, a China conduziu o que parece ser a maior operação de invasão de dados eleitorais da história, resultando na obtenção ilegal de 220 milhões de registros de eleitores norte-americanos”, incluindo “nomes, endereços, telefones e filiações políticas”.
A alegação, disse o porta-voz, “há muito se provou infundada”. Ele reiterou que a China sempre defendeu o princípio da não interferência nos assuntos internos de outros países e que não tem qualquer interesse nas eleições dos EUA, nas quais nunca se envolveu.
“Exortamos o lado estadunidense a refletir sobre sua própria conduta, parar de fazer acusações infundadas contra a China, deixar de usar a China como tema eleitoral e fazer mais para promover as relações China-EUA”, disse Lin.
A fantasiosa arenga de Trump incluiu, ainda, uma menção a suposta interferência da Venezuela de Maduro nas “urnas eletrônicas” dos EUA, entre outras aberrações.
SEMEAR A FRAUDE PARA NOVEMBRO
Com a gasolina em alta nas bombas, repúdio generalizado à sua guerra de escolha contra o Irã, indisfarçável reprovação nas pesquisas e risco de perder o controle do Congresso em novembro, Trump tentar criar um clima no país para sua própria fraude vingar, dizendo que o país enfrenta “vulnerabilidades chocantes” em sua infraestrutura eleitoral e que “não podemos jamais assistir a outra eleição roubada”.
Como observou o senador oposicionista Mark Kelly, para Trump, se ele vence, a eleição é “honesta”, se perde, então é “roubada” – ainda que se trate de uma eleição em que ele próprio era o presidente.
Para as entidades de defesa das liberdades civis nos EUA e a oposição, a campanha de Trump visa desacreditar o processo eleitoral americano para impor mudanças que impeçam milhões de exercerem o direito de voto, especialmente os negros, as mulheres e os latinos, vistos como prováveis eleitores democratas, e acusados de votar “ilegalmente”. Trump assevera que mais de 270 mil não-cidadãos estão registrados para votar, e diz que os democratas só ganham porque trazem os imigrantes ilegais.
Na semana passada, a sabotagem de Trump ao processo eleitoral avançou com o esvaziamento da Comissão Eleitoral bipartidária, através da demissão de seus diretores aprovados pelo Senado, e que é o órgão federal que presta assistência aos Estados na certificação das urnas eletrônicas e na garantia de eleições limpas.
Há ainda um esforço dirigido a deslegitimar os senadores de oposição que venceram em 2020 na Geórgia, naquela eleição que ficou famosa pelo telefonema de Trump ao secretário de Estado pedindo “me arruma aí 11.000 votos” para fraudar o resultado.
Com o discurso, Trump acelerou a pressão para que sua lei pró-fraude, hipocritamente apelidada de “SALVE A AMÉRICA”, seja enfiada goela abaixo dos americanos no Senado, passando por cima do ‘filibuster’, a exigência de 60 votos para apreciação de qualquer matéria, e com o precedente de um ou dois senadores republicanos em vários momentos votando com a oposição.
Entre os objetivos centrais, transformar a reivindicação de voto com documento, num país em que não há um documento nacional, em uma Jim Crow 2.0. Também busca proibir o voto por correspondência, atualmente utilizado em oito estados e parcialmente em outros 15, é que em última análise é uma tentativa de compensar uma eleição sem feriado e sem o país se concentrar em decidir seus rumos, por meio de uma extensão do período de votação.
Até o momento, nove estados governados pelos republicanos implementaram 12 leis para restringir o voto, nove das quais estarão em vigor nas eleições de meio de mandato em novembro.
FARSAS SOBRE “A FRAUDE”
Apesar das alegações de Trump, de acordo com o Brennan Center e a Brookings Institution, a taxa de incidência de fraude eleitoral, alguém que vota sem ter o direito, é minúscula: entre 0,0003% e 0,002%.
Já a interferência via redes sociais, amplamente utilizada na eleição de 2016 em favor de Trump, despejando toneladas de dinheiro – o escândalo da Cambridge Analytica, envolvendo 87 milhões de usuários -, aí o orange man não vê inconveniente nenhum.
Dezenas de processos judiciais movido por Trump e sua coorte, acusando imigrantes ilegais de votarem indevidamente, ou de manipulação das urnas eletrônicas, fracassaram nos tribunais por falta de provas.
Um dos fabricantes das urnas, a Dominion Voting Systems, ganhou um processo civil de US$ 787 milhões, o que obrigou a Fox News a admitir que havia mentido sobre as urnas eletrônicas.
Quanto ao caráter anacrônico do processo eleitoral em vigor nos EUA, é real, mas não é isso que incomoda Trump, mas a urgência de não ir a nocaute em novembro. Ao acusar a China de “interferência na eleição de 2020”, ele aliás repete Hillary, a preferida de Wall Street, depois de oito anos de Obama salvando os bancos, mas nem tanto os americanos comuns, e que culpou a “interferência russa”.
Sem o equivalente a um “TSE”, nos EUA são 50 eleições com o partido no poder em cada estado encabeçando o processo eleitoral, o dia principal da eleição sequer é feriado nacional e é numa terça-feira. O cidadão para votar tem que se registrar a cada eleição e a eleição não é decidida diretamente no voto popular, mas no colégio eleitoral.
Como o país não tem um documento de identidade único os pobres muitas vezes não têm como provar quem são, em parte dos estados há votação pelo correio e magnata pode interferir com rios de dinheiro a título de “liberdade de expressão”. Nos últimos 50 anos, o maior questionamento a uma eleição nos EUA havia sido quando W. Bush levou a eleição de 2000 no tapetão, sob as bênçãos da Suprema Corte à fraude na Flórida, governada pelo irmão dele, Jeb.
Para o respeitado ex-secretário do Trabalho sob Bill Clinton, Robert Reich, “a verdadeira mensagem a ser retirada do discurso de Trump à nação na noite de quinta-feira é que ele vai questionar os votos de todos os estados e cidades que escolherem um senador ou representante democrata nas eleições de meio de mandato de 2026. Ele pressionará governadores e prefeitos republicanos a não certificarem os resultados. Ele vai exigir recontagens e auditorias.”
AGOSTO CONTRA TRUMP
A investida contra o eleitor se estendeu particularmente aos Estados sob controle republicano, em que foram aprovadas leis para redefinir os distritos eleitorais, de forma a excluir os candidatos negros, prática conhecida como “gerrymandering”, e viabilizada pela recente resolução da Suprema Corte considerando a lei de direito de voto arrancada pelo movimento liderado por Martin Luther King superada. Os distritos em que o voto negro está concentrado foram arbitrariamente divididos para evitar a eleição dos negros, caso do Texas.
Diante dessa ofensiva do regime Trump, Martin Luther King III, filho do líder da luta pelos direitos civis, e o líder social afro-americano Al Sharpton anunciaram uma marcha nacional a Washington em agosto — marcando o aniversário do famoso protesto e discurso “Eu Tenho um Sonho” de King naquela cidade em 1963 — para protestar contra os esforços para subverter a eleição federal em novembro e eliminar a representação de afro-americanos e outras minorias.
Para afastar os latinos das urnas, Trump entregou a tarefa à sua Gestapo ICE, que na semana passada matou três imigrantes. Contra as mulheres, a ideia é dificultar a votação, valendo-se de que os milhões de mulheres casadas muitas vezes o documento legal que têm ainda é com o nome de solteira e aí esperam barrá-las nas urnas.
Quanto a quão eficaz o esquema pode ser, Reich registrou que “9% dos eleitores elegíveis, ou 21,3 milhões de americanos, não possuem documentos que comprovem sua cidadania, como passaportes e certidões de nascimento, ou não podem recuperá-los em um dia ou menos, segundo um estudo do Centro para a Democracia e Engajamento Cívico da Universidade de Maryland e do Brennan Center for Justice. E 45 Estados não emitem o tipo de carteira de motorista aprimorada que indique status de cidadania que seria necessário para verificar a elegibilidade para votar”.
O PAÍS QUE MAIS FRAUDOU ELEIÇÕES NO MUNDO TODO
As acusações de Trump contra a China e a Venezuela e insinuações sobre a Rússia, Irã e Coreia do Norte são ainda mais hipócritas pelo fato de os EUA serem comprovadamente o país que mais interferiu nas eleições alheias de que há notícia – sem falar nos golpes de Estado que promoveu.
Desde a primeira eleição na Itália no pós-guerra, até a famosa capa da Times de “Yanks to the Rescue”, sobre o socorro dos EUA a Yeltsin no segundo turno das eleições na Rússia de 1996 e, claro, o escândalo da interferência nas eleições brasileiras de 1962, o IPES-IBAD, para eleger governadores como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, tão úteis no golpe de 1964.
E todas as “revoluções coloridas” fabricadas através da interferência nas eleições alheias, a mais notória delas na Ucrânia, com a “revolução laranja” de 2004 e, dez anos depois, o golpe de Maidan, para anexar a ex-república soviética à OTAN.
Na América Latina na atualidade, praticamente não houve uma eleição em que o próprio Trump não tenha interferido abertamente, a ponto de indultar um condenado por tráfico de drogas, um ex-presidente de Honduras, para favorecer o candidato de Washington. A campanha escancarada pelo advogado do narcotráfico De La Espriella, na Colômbia e o apoio à filha do ditador Fujimori no Peru, Keiko. O “Escudo das Américas” do “vice-rei” Rubio, Javier Milei, Daniel Noboa e outros fantoches.










