CARLOS LOPES
Retornando da Itália para a Rússia, Dimitri Sanin (aliás, Dimitri Pavlovitch Sanin) encontra Gemma numa confeitaria de Frankfurt sobre o Meno.
Os dois apaixonam-se e Gemma rompe o seu noivado com um comerciante alemão para casar – ou, melhor, para ficar noiva – de Sanin.
Infelizmente, na tentativa de obter dinheiro para casar, vendendo suas propriedades em Tula, Sanin cruza com uma compatriota, Maria Nikolaevna, casada com um antigo colega de turma, Hipolit Sidorovitch Polozov.
Maria Nikolaevna é a típica mulher fatal, interessada em submeter Sanin e torná-lo seu escravo (nas palavras de Turguenev) – e consegue seu objetivo, fazendo que o noivado de Sanin com Gemma naufrague. Esta ação, especialmente cruel, é o seu prazer. Bem entendido, Sanin não ama Maria Nikolaevna, mas a segue até Paris, ao invés de voltar a Frankfurt, porque não consegue controlar sua atração por ela.
Esta é, em termos muitíssimo resumidos, a primeira parte, passada em 1840, da novela Águas Primaveris, de Ivan Turguenev. Na segunda parte, trinta anos depois, Sanin, reduzido a uma vida solitária e amarga, sai da Rússia para procurar Gemma em Frankfurt – e descobre que ela casou e vive nos Estados Unidos, em Nova Iorque.
O final, apesar das esperanças que Sanin parece, ainda, alimentar, é também amargo.
O próprio Turguenev, após o aparecimento desta novela, em 1872, na revista Vestnik Evropi nº 1, e das traduções que rapidamente apareceram na Europa Ocidental, escreveu:
“Toda esta novela é verídica. Vivi e senti tudo isso. É a minha própria história. A senhora Polozov é a encarnação da princesa Trubetskaia, que eu conhecia bem. Houve tempos quando ela provocou muito barulho em Paris; lá ainda se lembram dela. Pantaleone vivia em casa dela. Era alguém entre amigo da casa e criado. A família italiana também é real. Só mudei os pormenores, pois não podia fazer uma fotografia exata. Assim, por exemplo, a princesa era de origem cigana; fiz dela uma senhora russa de alta sociedade, mas de origem plebeia. Mudei Pantaleone para a família italiana…” (cf. Ivan Turguenev, Três Novelas, trad. José Manuel Milhazes Pinto, Edições Ráduga, Moscou, 1985, pref. Artur Tolstiakov).
Águas Primaveris não é a minha obra favorita de Turguenev – mas isso não tem a menor importância, não somente porque minha opinião não tem importância, mas até porque é impossível deixar de concordar com o grande Gustave Flaubert, o romancista de Madame Bovary, que escreveu ao autor:
“Quero dizer-lhe que li as Águas Primaveris… Emocionei-me, chorei, senti uma estranha tensão. Isso acontece com todos nós, pudera! E faz-nos enrubescer. Que homem é o meu amigo Turguenev, que homem! O interior da confeitaria é maravilhoso, admirável. E o passeio dos dois de manhã, quando conversam no banco. O Pantaleone, o cão, Emílio… e o desfecho, sereno e triste. Ah, isto é uma novela de amor, se tal existe! O Senhor, meu querido amigo, sabe muito sobre a vida e pode contar o que sabe – isso é ainda mais raro. Quereria ser professor de letras para explicar os seus livros. Note: não vou explicá-los. Isso é completamente desnecessário! Parece-me que até poderia obrigar um idiota a compreender a arte que me faz deslumbrar, por exemplo, o contraste entre as duas mulheres nas suas Águas Primaveris e o mundo que as circunda. Para qualificar a sua última obra não tenho outra palavra, além de uma: maravilhosa! Mas dê-lhe uma importância profunda. Esta obra semeia amor no coração do leitor: fá-lo sorrir e chorar” (idem).
Tornou-se um lugar-comum, ou quase isso, nos estudos sobre a grande literatura russa do século XIX – aquela que começa com Púshkin e Gógol – a observação de que as obras daqueles escritores são um produto das contradições da sociedade russa, submetida a um domínio feudal, com a expansão da burguesia e a política imperialista da monarquia.
Com efeito, pode-se dizer isso de Tchítchikov, o vigarista que compra almas em Almas Mortas (1842), de Gógol. Ou dos personagens das Novelas do defunto Ivan Petrovitch Belkine (1831), de Púshkin, em especial, “A tempestade de neve” – para não mencionar A dama de espadas (1834) ou A Filha do Capitão (1836), do mesmo autor.
Ou dos personagens e tramas de Tolstoi em Guerra e Paz (1869), Ana Karenina (1877) – e outras obras-primas. Ou o Raskolnikov, de Dostoievsky, em Crime e Castigo (1866), assim como Os Irmãos Karamazov (1881) – e nos dispensaremos de citar outras obras do autor, embora seja justo lembrar muitas delas, em especial, Recordações da Casa dos Mortos (1862).
Turguenev ocupa, nesta galáxia, um lugar especial. Seu retrato da sociedade russa é implacável – logo ele, um nobre que viveu boa parte da vida no Ocidente.
Como se sabe, Turguenev se apaixonou, aos 25 anos, pela notável cantora francesa Pauline Garcia-Viardot, uma mulher casada, que jamais pretendeu se separar do marido, e viveu junto a ela até a morte, em 1883, aos 64 anos, na França (Pauline morreu em 1910, aos 88 anos).
Turguenev fora autor de um obituário de Gógol, que lhe rendera prisão e exílio em sua propriedade durante dois anos. Mas foi depois da publicação de seu romance Pais e Filhos (1862), e da controvérsia política que se seguiu, que abandonou definitivamente a Rússia.
No Ocidente, tornou-se amigo de alguns revolucionários russos, então exilados, em especial Aleksandr Herzen e o anarquista Mikhail Bakunin. Foi também amigo de uma série de escritores tanto russos quanto ocidentais (entre os ocidentais, por exemplo, Dickens, Hugo, Maupassant, Flaubert).
Ele foi responsável pela valorização dos primeiros livros de Tolstoi. Mas é justo lembrar que, reciprocamente, Tolstoi também tinha Turguenev em alta conta (sobre os seus textos, disse Tolstoi: “são verdadeiras pérolas, inatingíveis para muitos escritores”).
Não obstante, tanto Tolstoi quanto Dostoievsky entraram ocasionalmente em choque com ele, sobretudo pela sua preferência a residir no Ocidente. Em particular, Dostoievsky usou Turguenev como modelo para um personagem – um personagem infame – de Os Demônios (1872). Mas parecem ter se reconciliado, a julgar pelo discurso de Dostoievsky na inauguração do monumento a Púshkin.
Do ponto de vista artístico – vale dizer, estético – Turguenev é notável por firmar, na literatura russa, os fundamentos do realismo, sem nenhuma concessão de estilo.
Se tomarmos um conto como A dama de espadas, de Púshkin, ou O nariz, de Gógol, veremos que os alicerces do realismo ainda não estavam solidamente plantados na literatura russa. Existe algo de fantástico, um pouco à maneira de E. T. A. Hoffmann, nesses dois contos – embora não em outras obras desses mesmos autores (particularmente em O capote, de Gógol, publicado em 1843, origem mais explícita das raízes realistas da literatura russa, que mereceu a famosa apreciação de Dostoievsky: “todos nós saímos do capote de Gógol”).
Gógol se aproxima do realismo através do humorismo (por exemplo, além de Almas Mortas, sua peça O Inspetor Geral). Púshkin, através do relato de aventuras (Dubrovski, A Filha do Capitão). Mas acho que não estaremos errados ao localizá-los no romantismo, ainda que abrindo as portas para o realismo.
Quanto ao estilo, que teve tão grandes admiradores em Henry James e Joseph Conrad, apesar de amigo de Zola, não se encontram vestígios, em Turguenev, daquele estilo pesado que torna tão difícil a leitura, até o fim, de algumas obras do escritor francês (por exemplo, Le Ventre de Paris, 1873; Une page d’amour, 1878).
Neste sentido, ele se parece mais com o seu também amigo, muito amigo, Gustave Flaubert.
Um traço característico é como ele transfigura, na ficção, fatos da vida – sem jamais desistir, nem por um momento, da criação artística. Pelo contrário, é o real que serve, sempre, de suporte para a sua criação artística.
O Primeiro Amor, publicada em março de 1860 na revista Biblioteca dlia Tchtenia,é uma obra prima neste sentido (e, aliás, também em outros).
Vladimir, apelidado Volodia, apaixona-se pela vizinha, Zinaida, que o chama de “Voldemar”. Zinaida tem 21 anos – e Volodia, que é, já velho, o narrador da história, tem, então, 16 anos.
Mas Volodia, cada vez mais, percebe que tem um rival no amor de Zinaida. Até que descobre que o rival – e rival vencedor – é o seu próprio pai.
Essa é a essência da trama – e as mortes, ao final, inclusive do pai de Volodia, acrescentam uma tristeza cinzenta ao relato, mas correspondem também a uma realidade: o pai de Turguenev, Sergei Nikolaievitch Turguenev, faleceu em 1834, quando o filho, que ficaria famoso, tinha 15 anos.
“Em O Primeiro Amor descrevi o meu pai. Muitos criticaram-me por isso e fizeram-no principalmente por nunca o ter encoberto. Mas penso que nisto não há nada de mal. Não tenho nada a encobrir. O meu pai era esbelto: posso dizer isto porque não sou nada parecido com ele, sou a cara da minha mãe. Ele era muito formoso – uma verdadeira beleza russa. Habitualmente era frio, fechado, mas se quisesse agradar a alguém, nas suas maneiras aparecia algo de extraordinariamente sedutor. Assim era principalmente com as mulheres de quem gostava.”
A novela, ou conto, deslumbrou os mais famosos leitores da época – e até hoje continua deslumbrando. Herzen, por exemplo, disse a Turguenev: “O teu O Primeiro Amor é uma coisa maravilhosa”.
O próprio autor se deslumbrou com a sua criação (ou, talvez, com a realidade que foi a sua base). O pai de Turguenev era, realmente, 10 anos mais novo que sua mãe, uma mulher muito mais rica – e muito severa, inclusive, como está no relato, em relação à fidelidade conjugal, no que, aliás, tinha um bocado de razão.
De certa forma, a amargura de Turguenev em relação ao amor, pelo menos em seus escritos, parece ter como origem o relacionamento de seus pais.
“Apenas releio com prazer uma novela. O Primeiro Amor. É a minha obra preferida. Nas outras, embora poucas, há coisas imaginárias; em O Primeiro Amor todos os acontecimentos são reais e sem a mínima invenção. Quando a leio, as personagens aparecem vivas perante mim.”
Ele era um liberal. Como o Sanin, de Águas Primaveris, repugnava-lhe vender, com suas propriedades, também os servos, isto é, os camponeses que trabalhavam nessas propriedades (a mãe de Turguenev possuía cinco mil servos, o que não é, evidentemente, pouca coisa).
No entanto, não libertou os seus servos, antes que um czar, em 1861, abolisse a servidão na Rússia. Mas também Tolstoi não o fez. No entanto, suas posições ocidentalistas o conduziram a situações delicadas, sobretudo diante de eslavófilos, como Dostoievsky, favoráveis à manutenção da servidão e da monarquia absoluta.
Entretanto, seus relacionamentos com servas (isto é, com camponesas) foram frequentes – e conduziram, inclusive, ao nascimento de uma filha, Polina, modelo para a Ácia (em algumas traduções, usa-se a grafia “Ássia”) que dá nome a um de seus contos mais conhecidos.
Ácia (apelido de Ana) é filha de um senhor feudal com uma mulher sem prerrogativa de nobreza, ou seja, uma camponesa em estado de servidão – e essa é toda a sua tragédia, que faz com que seu irmão, um pintor, a leve para fora da Rússia, o que não resolve, em absoluto, o seu problema.
Parece, a nós, hoje em dia, um paradoxo ou um absurdo que Ácia queira casar com N. e este queira casar com Ácia, mas eles não possam ou sejam impedidos de casar.
O comportamento, algo instável, de Ácia é determinado por sua origem. Mas também não é por isso que ela não pode casar com N. A questão, que jamais é explicitada no conto, é que uma plebeia, uma filha “ilegítima”, não pode casar com um nobre.
E, assim, a história, que corre nas margens do Reno, termina com a fuga – esse é o melhor nome – de Ácia e de seu irmão. Enquanto N. tenta, sem sucesso, reencontrá-la.
Nekrássov, o grande poeta – que era, também, editor da revista Sovremennik, onde Ácia foi publicada em 1858 -, disse a Turguenev: “Dou a você os parabéns pela novela e por ser tão maravilhosa quanto bela. Dela transpira juventude, toda ela é o ouro puro da poesia”.
Por fim, uma característica que aparece, com Turguenev, talvez pela primeira vez na literatura russa: as mulheres, nas suas obras, não são coadjuvantes. São criaturas fortes e independentes. Assim é Ácia; assim é Zinaida; assim são Gemma e Maria Nikolaevna.
E assim, igualmente, são Elizaveta Kalitina, do romance Ninho de Nobres (1859) e Natália Lasunskaia, do romance Rúdin (1856).











