“Não pode considerar que o Brasil é propriedade deles, que somos quintal deles”, declarou o assessor da Presidência da República, referindo-se às chantagens feitas pelo governo dos EUA
O Assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, o embaixador Celso Amorim, defendeu que o país invista mais em Defesa. Ele citou que o presidente Lula tem falado muito de Defesa, e “sem esquecer que a gente também tem o problema da segurança pública, que a gente tem que cuidar. Podemos até ter cooperação, mas não permitir que seja tratada como uma operação terrestre invasiva. Ele tem muita consciência disso”.
“Eu estou falando de investimento. A gente tem que estar capacitado a essa defesa também, é fundamental. Isso é um projeto de país”, acrescenrou Amorim em entrevista ao Valor Econômico nesta segunda-feira (17).
Sobre uso da Lei da Reciprocidade, em resposta ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra o Brasil, disse que “é preciso que se saiba que o Brasil está preparado realmente para atuar”.
“Para que você obtenha alguma coisa na negociação, você tem que partir do princípio de que ela pode ir até o final. Senão, você já está entregando antes”.
De acordo com Amorim, agora começou o processo de consultas. “Mas tem que ser rápido, porque mais do que a gente já consultou… Passou um ano, quase um ano e meio consultando. É claro que a gente se preocupa muito com os setores brasileiros prejudicados, mas é preciso se adaptar a essa realidade nova. Se nós conseguirmos reverter alguma coisa, ótimo. Senão, vamos ter que procurar outros clientes. Tem setores específicos que vão ter dificuldade, então a gente vai ter que tratá-los de maneira especial”.
Amorim citou a Índia, com a “agricultura altamente protegida”, a África do Sul, “que tem acordos preferenciais” e a própria América Latina, “onde o comércio cresceu muito”. “Mas você pode ampliar o número de produtos”, disse.
O assessor de Lula considera que sob o aspecto comercial “não é impossível negociar”, mas alerta para as ações militares dos Estados Unidos na região, e sobre as ações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, inclusive interferindo nas eleições presidenciais aqui no Brasil.
“Os Estados Unidos estão chegando à conclusão de que não está dando muito resultado”, disse. “Do ponto de vista estritamente comercial, acho que essa ideologia não pesa tanto. Não acho que a eleição agora vai ter uma influência num sentido ou no outro. Há um fortíssimo elemento ideológico no Rubio, no Departamento de Estado, mas isso não se expressa tanto na parte comercial. .É mais também na parte de segurança”, apontou o assessor de Lula.
“Eu fico, por exemplo, muito preocupado quando leio que eles estão estudando participação [em ação] terrestre, porque muitos países em que eles estão operando têm fronteira com o Brasil. Isso me preocupou muito, mas foge do aspecto comercial. Eu acho que, no aspecto comercial, existe uma ilusão sobre o que é possível obter bilateralmente, e não multilateralmente. Mas vejo mais pragmatismo, apesar de tudo. Então, eu acho que não é impossível negociar”, prosseguiu.
“Nós não reconhecemos a legitimidade da Seção 301, essa aplicação unilateral das normas de comércio. A gente quer negociar, mas negociar é ganhar uma coisa e entregar outra, é você estar trocando. Neste caso [com os EUA], a negociação é perder mais ou perder menos. É uma coisa meio complicada, mas, enfim, a gente discute. Se a gente puder minimizar as perdas e compensá -las com exportações para outros países, dá para sobreviver bem”, afirmou.
Segundo Amorim, os EUA “não pode considerar que o Brasil é propriedade deles, que somos quintal deles. Acho que as pessoas mais bem preparadas nos Estados Unidos sabem que não pode ser assim. Mas eu temo que o Departamento de Estado, hoje, como está constituído, não ajuda. Não ajuda porque tem essa visão. Acho que eles vão sempre ter mais moderação com o Brasil do que tem com outros países, porque o que aconteceu na Venezuela é uma coisa impensável, inacreditável, independentemente do que você achar do [ex-presidente Nicolás] Maduro”.
Amorim ponderou que “pode vir a acontecer em outros países, mas não creio que chegue a esse ponto no Brasil”. “Mas há muitas situações de áreas cinzentas que preocupam, essa possibilidade de ação terrestre em países da América Latina. Daí a ênfase que o presidente tem posto: nós temos que tratar a Defesa seriamente. O Brasil não pode ser um dos maiores países do mundo e gastar 1% do PIB [Produto Interno Bruto] em Defesa”, afirmou, defendendo que o percentual de 2,5% para a Defesa.










