Bombardeio de Israel à Síria é repudiado mundialmente

Comunicado turco também acusou Netanyahu de seguir “políticas expansionistas e desestabilizadoras” na região, visando as eleições parlamentares em Israel marcadas para 27 de outubro.

O bombardeio de um desativado aeroporto militar sírio pela força aérea israelense na madrugada de terça-feira (18), em aberta violação da lei internacional e da soberania síria, foi amplamente repudiado pela comunidade internacional e países da região, e até mesmo o enviado especial norte-americano o considerou uma “escalada desnecessária”.

Foram oito ataques à base aérea de Abu Zuhur, a leste da província de Idlib, no norte do país. Não há relatos de vítimas.

Não é o primeiro ataque contra a Síria neste ano, com Israel tendo, quando da queda do governo Assad em dezembro de 2024, aproveitado para ocupar a que denominou zona-tampão além Golã e suas forças agora estão a 25 km de Damasco.

Tel Aviv também tentou manipular a minoria drusa visando dividir a Síria. E, contra as resoluções da ONU, ocupa ilegalmente desde 1967 as colinas do Golã, que declarou “anexadas” anos depois, o que só é “reconhecido” por Trump e seu fantoche colombiano, De la Espriella.

O ataque à base de Idlib é também uma provocação aberta contra o governo instalado após a queda de Assad, já que foi dali que partiram as forças jihadistas que viraram o jogo na Síria, e que desde o começo contaram com o apoio da Turquia, que as utilizava também para conter a guerrilha curda associada aos americanos. O atual governo é encabeçado pelo antigo líder da Frente Al Nusra, reciclada como Hayat al-Sham (HTS), Ahmed al-Sharaa, antes conhecido pelo alcunha de al-Jolani. Trump recebeu al-Sharaa na Casa Branca e suspendeu a maior parte das sanções contra o país.

BASE DESATIVADA EM IDLIB

A instalação está desativada há mais de uma década e, segundo a mídia, o ataque ocorreu após uma delegação militar da Turquia visitá-la para discutir sua possível reabertura e reforma com o apoio de Ancara. Alegação que o governo turco chamou de frívola e que busca “legitimar os ataques ilegais”.

Mesmo que reaberta, a instalação não implicaria em qualquer ameaça a quem quer que fosse, já que os israelenses aproveitaram a vitória dos jihadistas para bombear e destruir a aviação síria.

Oficialmente, Israel não assumiu a autoria do bombardeio a Idlib, mas o gabinete de Netanyahu emitiu um comentário alegando que a presença turca no aeroporto sírio seria uma “ameaça” a sua segurança.

Em meio à campanha eleitoral em Israel, em que está em jogo a sobrevivência de Netanyahu, não se pode descartar a hipótese de um “comício aéreo” sobre quem supostamente é mais eficaz – ou mais sem escrúpulos – na defesa do apartheid, do sionismo  e do ‘Grande Israel’, com base na limpeza étnica contra o povo palestino.

A que considerar, ainda, a questão do Acordo de Defesa Mútua de Meca recém anunciado, e que reúne contra ameaças externas a Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, que dificilmente é visto com bons olhos desde Tel Aviv. Governo e oposição israelenses têm falado, abertamente, na suposta “ameaça turca”, apesar de todo o notório equilibrismo de Erdogan e de Ancara integrar a Otan.

Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores sírio condenou o ataque aéreo do exército israelense ao Aeroporto Militar de Abu Zuhur, no leste de Idlib, e afirmou que o ataque foi uma clara violação da soberania e integridade territorial da Síria.

O comunicado registrou também que os ataques de Israel à Síria continuam desde 8 de dezembro de 2024, e reiterou o esforço do governo Sharaa para “consolidar a estabilidade” e prevenir tensões adotando uma política de “contenção”.

‘VIOLAÇÃO ALARMANTE’, DIZ ONU

O porta-voz do Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU), Stephane Dujarric, condenou os ataques aéreos de Israel à Síria em sua coletiva de imprensa diária realizada em Nova York.

Afirmando que esse ataque é uma “violação alarmante” da integridade territorial e do espaço aéreo da Síria, Dujarric disse: “Esta é mais uma violação alarmante da integridade territorial e do espaço aéreo da Síria. Esses ataques aéreos precisam ser interrompidos e somos contra eles.”

Também o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), através do seu secretário-geral, Jassim Mohammed al-Budaywi, rechaçou energicamente os ataques, apontando-os como uma violação inaceitável da soberania e integridade territorial da Síria.

Al-Budaywi conclamou a comunidade internacional a deter os ataques israelenses ao território sírio a fim de proteger a segurança e estabilidade.

O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmi, condenou os ataques de Israel ao Aeroporto Militar de Abu Zuhur em um comunicado pela plataforma de mídia social X e acusou Tel Aviv de espalhar o caos e expandir áreas de conflito.

Fahmi afirmou que os ataques servem aos objetivos políticos internos do primeiro-ministro israelense e que Israel está tentando conquistar interesses políticos e eleitorais às custas da segurança e estabilidade na região.

“MENSAGEM” PARA A TURQUIA

A Turquia, suposto destino da “mensagem” do bombardeio, condenou “veementemente” os ataques de Israel ao abandonado Aeroporto Militar de Abu Zuhur, no leste da província de Idlib, no norte da Síria.

“Convocamos a comunidade internacional a adotar uma postura mais determinada para pôr fim à agressão de Israel contra a Síria, que está ganhando uma nova dimensão dia após dia, e a garantir a responsabilização diante dessas ações que desrespeitam o direito internacional”, enfatizou Ancara.

O comunicado turco também acusou Netanyahu de seguir “políticas expansionistas e desestabilizadoras” na região, visando as eleições parlamentares em Israel marcadas para 27 de outubro.

O Paquistão advertiu que “tais ações provocativas são uma flagrante violação do direito internacional e têm o potencial de minar ainda mais a paz e a estabilidade regionais” e reiterou sua solidariedade à Síria.

Islamabad convocou a comunidade internacional a cumprir seu papel no fim das violações do direito internacional por Israel e a responsabilizar este país por suas ações.

A Arábia Saudita condenou “nos termos mais veementes” o ataque israelense à Síria, que classificou de “desprezível”, convocando “a comunidade internacional a tomar medidas para pôr fim às suas violações das ações tradicionais e legais internacionais por parte de Israel”.

Em nota que repudiou o ataque israelense à base aérea síria, o Egito sublinhou que os ataques de Israel são uma clara violação da soberania e integridade territorial da Síria e contrariam as regras do direito internacional e as Convenções das Nações Unidas.

Ressaltou que Israel se recusa a deter suas violações contra o território sírio e alertou que esses ataques podem levar a uma escalada perigosa que poderia minar os esforços de estabilização e ameaçar a segurança e a paz regionais.

Mesmo o enviado especial de Trump à região e embaixador em Ancara, Tom Barrack, declarou “profunda preocupação” com o ataque. “O governo Sharaa não adotou uma postura agressiva nem manteve forças por procuração. Pelo contrário, demonstrou repetidamente que prefere reduzir as tensões com Israel.” E, concluindo, admitiu que o ataque era uma “escalada desnecessária que não contribui para a estabilidade regional”.

O governo de Ancara negou nesta quarta-feira alegação israelense de que estaria se preparando para enviar tropas à Síria, após ataques de Israel a uma base militar neste país. Em paralelo, o ministro das Relações Exteriores sírio, Asaad Al-Shaibani, chegou à capital do Paquistão para conversações, na primeira interação desse tipo em 19 anos.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *