Dívida dobrou em dez anos, sob Trump 1, Biden e Trump 2. Era de US$ 6 tri na virada do século
A dívida pública dos EUA alcançou a marca dos US$ 40 trilhões na terça-feira (19) segundo o Departamento do Tesouro, depois de dobrar em dez anos, sob os governos Trump 1, Biden e Trump 2, em meio ao declínio dos EUA diante da ascensão da China e da Maioria Global, escalada da agressividade ianque e fiasco da guerra contra o Irã, mais o indisfarçável abalo do dólar, que o uso frenético de sanções por Washington só faz agravar.
Chama a atenção não apenas a dimensão da dívida em si, mas também a velocidade com que ela cresceu. No início deste século, era inferior a 6 trilhões de dólares. Mas só no ano passado, a dívida cresceu US$ 3 trilhões – a metade de tudo que era dívida acumulada até o final do século XX.
O que também expressa a intensidade dos colapsos que os EUA sofreram nos últimos 20 anos, o crash financeiro de 2008 e o congelamento do mercado de títulos do Tesouro de 2020, essencial para a rolagem da dívida e dos déficits gêmeos americanos.
A própria decisão de Trump de ir à guerra contra o Irã por opção é reveladora das pressões a que o império se vê submetido, no afã de manter o petrodólar, o substrato real do dólar, e controlar o mercado de energia, em meio à marcha acelerada do planeta para se safar da ditadura unilateral que prevaleceu desde a dissolução da União Soviética.
Nesse quadro, o juro dos títulos do Tesouro (treasuries) de longo prazo chegou a 5,3% para 30 anos no início da semana, com o mais recente leilão sendo considerado um fracasso e detentores estrangeiros se desfazendo deles. Nas últimas semanas, movimentos do Departamento do Tesouro refletiram o que o principal comentarista de economia do jornal britânico The Telegraph, Ambrose Evans-Pritchard, disse “gritar desespero”.
No dia seguinte à marca dos US$ 40 trilhões, o secretário Scott Bessent foi obrigado a intervir no próprio mercado de títulos do governo, anunciando que o Tesouro dobraria suas recompras de dívidas de longo prazo após o rendimento do título de 30 anos atingir seu nível mais alto desde 2007.
O fato de o departamento que emite o que é dito ser o ativo financeiro mais seguro do mundo agora precisar intervir para apoiar o mercado de sua própria dívida é uma medida de quão longe a crise se desenvolveu.
Vinte dias antes, Bessent precisou organizar uma intervenção conjunta extraordinária com o Ministério das Finanças do Japão para tentar sustentar o valor do iene – operação, na verdade, para que evitar que o Japão, maior detentor estrangeiro de dívida dos EUA, desovasse seus treasuries em massa e acarretasse uma escalada no juro da dívida, ameaçando desencadear nova crise no mercado de títulos.
Esclarecedor das motivações para a intervenção foi o modo como foi organizada. Os EUA ativaram um mecanismo pouco utilizado, em que o Japão deu como garantia seus títulos americanos, evitando a necessidade de vendê-los. Enquanto o Departamento do Tesouro comprava ienes vendendo euros, sem sequer avisar ao Banco Central Europeu.
Analistas têm advertido que se está entrando em nova etapa da crise da dívida americana – o início de uma espiral de dívida em que mais dinheiro precisa ser emprestado apenas para pagar os juros dos empréstimos anteriores.
“O mais assustador nisso é como estamos começando a ver a espiral da dívida começar”, disse o diretor sênior de políticas do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, Marc Goldwein
Este ano, os EUA devem tomar pelo menos mais 2 trilhões de dólares emprestados para pagar o aumento dos gastos militares — o governo Trump quer elevá-los para 1,5 trilhão — e para cobrir a perda de receita proveniente dos cortes de impostos para os ricos e corporações estabelecida pela ‘Lei Grande e Bela’.
Mas pelo menos metade desse aumento na dívida será necessária apenas para cobrir a conta de juros que agora ultrapassa US$ 1 trilhão por ano, mais do que o orçamento militar atual. Estima-se que quase um em cada cinco dólares da receita do governo dos EUA seja destinado a pagar juros sobre títulos do Tesouro.
Outro fator complicante é que os fundos de hedge – que operam no curto prazo, apostando somas exorbitantes mas ganham sobre margens estreitíssimas, a chamada arbitragem (diferença entre os futuros dos treasuries e o preço atual) – são agora 8,5% do mercado da dívida, mais do que a parcela somada de Japão, China e Arábia Saudita. O que introduz instabilidade e dificulta ações do Fed sobre os juros. Se os juros sobem, explode tudo.
E tudo isso em meio à escalada de tarifas, intervenções, sanções, corrida da Inteligência Artificial, chamadas à “reindustrialização” e ímpeto imparável da China e da sua proposta de futuro compartilhado para a humanidade.
Nesse quadro, explica-se a reação do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, à declaração do presidente Trump da “mais devastadora guerra econômica” e de um “Dia D econômico” contra o país persa, classificando-a como uma “distração da própria crise da América: débito sem precentes & escalada no custo dos juros” e advertindo que “replicar políticas fracassadas só trará mais derrota – e inimizade dos iranianos”. E concluiu: “o terrorismo econômico dos EUA ameaça a economia global e a soberania no mundo inteiro”.










