Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos assassinada por um tiro de fuzil disparado pelo policial militar Bruno Dias Delaroli em Niterói (RJ), cobrou justiça nesta quarta-feira (21), dia em que o PM deveria ir a júri popular. Em ato realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói ao lado de Marcelo Freixo, ela responsabilizou o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que integrou a defesa do policial, pela espera da família. O julgamento foi remarcado para 5 de maio de 2027.
“Ela tinha cinco anos. Todo mundo conhece essa história. Eu vou ser a voz dela. Primeiramente agradecer todo mundo que não está deixando o nome da minha filha ser esquecido. Eu luto não é a duas semanas, nem três mas são cinco anos e sete meses lutando por justiça. Hoje dia 21, eu poderia ter uma grande vitória, do PM que matou minha filha está sendo condenado e isso foi adiado graças ao Flávio. O julgamento seria hoje e ele foi adiado pro ano que vem, então assim, eu tenho mais alguns meses de espera. Mas eu acredito que a justiça vai ser feita, enquanto meu coração bater mesmo sangrando todo dia, eu vou gritar o nome da minha filha, eu vou fazer ela ser lembrada. Ana Clara não foi só mais uma, eu sinto uma saudade imensa da minha filha, mas eu vou fazer dessa dor força para lutar. Ana Clara está presente e Ana Clara vai salvar o Brasil e a gente vai votar por Ana Clara”, afirmou Cristiane.
O júri estava marcado inicialmente para 14 de abril de 2026, data em que Ana Clara completaria 11 anos. Foi remarcado para 21 de outubro e adiado de novo. Segundo relato de Cristiane à Agência Pública, a justificativa dada à família foi um outro compromisso da juíza responsável pelo caso. “Disseram que foi adiado novamente porque a juíza terá outro compromisso no dia. Só tem ela de juíza? E precisava jogar para o meio do ano que vem?”, questionou.
TIRO DE FUZIL
Ana Clara foi atingida em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa com o irmão de dois anos, na comunidade Monan Pequeno. Foi levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu.
O tiro que matou a menina saiu do fuzil de Delaroli, então cabo da PM. O policial alegou confronto, mas a perícia desmontou essa versão: foram encontrados estojos de munição compatíveis com a arma dele e nenhuma cápsula de pistola que indicasse troca de tiros. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Delaroli por homicídio doloso, por ter assumido o risco de matar ao atirar em direção a uma área residencial.
Delaroli foi preso em flagrante e, em novembro de 2021, passou a responder ao processo em liberdade, sob medidas cautelares. No mesmo ano, a Justiça determinou que ele fosse a júri popular, instância que julga crimes dolosos contra a vida. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve a decisão em 2022.
Flávio Bolsonaro entrou na defesa do policial em 2024. Naquele ano, assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar derrubar a decisão que levava Delaroli ao Tribunal do Júri. Seu nome aparece entre os advogados no acórdão do STJ, que negou o pedido. Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) também manteve o júri popular. Segundo a Folha de S.Paulo, a decisão transitou em julgado em 2025: não cabe mais recurso contra a determinação de que o policial seja julgado pelo júri.
O caso voltou ao centro do debate nacional no domingo (18), no debate presidencial da Band, quando Lula (PT) cobrou explicações de Flávio sobre a defesa do policial que matou Ana Clara. O senador respondeu: “Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento, você já condenou o cara”. Flávio sustenta que atuou dentro das prerrogativas da advocacia.
Na segunda-feira (19), a busca “Flávio Bolsonaro caso Ana Clara” chegou ao topo do Google Trends, com mais de um milhão de pesquisas em 24 horas, segundo o Congresso em Foco.
ATUOU PARA NÃO ACONTECER O JÚRI
Em entrevista à Agência Pública, Cristiane criticou o silêncio do senador no debate. “Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara”, disse. Para ela, o problema está no peso político de quem assinou o recurso: “A questão é ele ser um senador, usar esse poder, essa força que ele tem na política para anular um júri. Ele não está defendendo, está atuando para não acontecer um júri de um cara que matou uma criança de 5 anos”.
Ao Brasil de Fato, ela apontou a contradição entre o discurso de Flávio e sua atuação no processo: “Nunca tive suporte nenhum, de nada. Eu acho meio contraditório porque ele diz tanto que preza pela família. Eu sou uma mulher, minha filha era uma menina. E assim ele se contradiz no que fala”.
Nos últimos cinco anos, Cristiane relata ter enfrentado dificuldades financeiras e ameaças. “Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara, vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela. Ela queria um quarto rosa de presente. Tive que pintar o túmulo”, disse à Pública.
Até o júri de maio de 2027, o policial que matou Ana Clara segue em liberdade.










