Ao xingar repórteres que investigaram a corrupção de seu desgoverno, fascista argentino também vira alvo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
A Anistia Internacional denunciou o fascista argentino, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por ter defendido “queimar jornalistas na fogueira” em mais uma das suas hostilidades contra quem lhe faz qualquer tipo de questionamento. A representação responde às declarações de sexta-feira passada (23), quando Milei xingou os profissionais que fizeram reportagens investigativas contra ele por serem “corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”. Em seguida, assinalou que são “filhos da puta”.
Em 14 de fevereiro de 2025, Javier Milei havia publicado em sua conta na rede social X uma mensagem promovendo a criptomoeda $LIBRA, incentivando publicamente seus seguidores a investirem na memecoin, ligada a um suposto projeto privado chamado “Viva La Libertad”. Após a postagem, o valor do ativo inflou rapidamente, mas desabou logo em seguida — um golpe de mercado digital conhecido como “puxada de tapete” —fazendo com que a capitalização de US$ 4,5 bilhões derretesse quase por completo e deixando milhares de pequenos investidores no prejuízo.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso argentino apontou então que Milei prestou uma “colaboração essencial” para o esquema fraudulento e que o círculo íntimo do governo teria se beneficiado da operação. Houve desdobramentos graves, como os relatos de que o autor intelectual do golpe, Hayden Davis (diretor da empresa de consultoria e investimentos em criptomoedas e negócios digitais Kelsie Ventures), teria afirmado em conversas gravadas que pagava propinas à irmã e principal assessora do presidente, Karina Milei, para garantir o apoio institucional ao criptoativo.
“JUSTIÇA” ARGENTINA ARQUIVA O CASO “CRIPTOGATE”
A nova explosão de impropérios aconteceu na sexta-feira (23) após a “Justiça” argentina arquivar o caso “Criptogate”, que apontava a participação do mandatário e de outras pessoas, como a irmã, Karina Milei, no esquema da criação irregular da criptomoeda. Na oportunidade, a oposição peronista e setores moderados se uniram para protocolar pedidos de abertura de um processo de impeachment contra Milei, por crimes contra a economia nacional e fraude financeira. Graças ao suborno e à chantagem do governo, a demanda não avançou.
Por conta da denúncia, Milei citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. No X, o governante Motosserra alegou ter sido alvo de uma “operação política e midiática” destinada a prejudicá-lo.
O porta-voz presidencial, Adrián Ravier, justificou as ameaças argumentando que as declarações do chefe foram “meras metáforas”, fruto de uma “irritação justificada” diante de supostas afirmações lançadas contra ele. Ravier descartou qualquer tipo de pedido de desculpas ou autocrítica oficial, assinalando que as palavras não devem ser interpretadas de forma literal.
DECLARAÇÕES DE MILEI APROFUNDAM ASSÉDIO À IMPRENSA
Para a Anistia, a referência à fogueira evoca violência extrema e representa uma “escalada grave e inadmissível” da hostilidade presidencial contra os meios de comunicação. A organização afirma que as declarações de Milei aprofundam o assédio à imprensa, favorecem a autocensura e deterioram as garantias do debate democrático.
A ONG também recorreu a números do Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino, apontando que houve 278 ataques contra jornalistas em 2025, 55% a mais que em 2024, e Milei aparece como autor de 119 episódios, sendo o principal agressor individual.
A reação das entidades de classe foi imediata. Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa (Fatpren), reforçou a mobilização, frisando que a entidade se juntará à Anistia na representação. “O presidente Milei defendeu que um grupo de jornalistas argentinos fosse jogado na fogueira por publicarem informações que o ligam a um golpe e a um caso de corrupção no lançamento da moeda digital ‘Libra’. A ideia de recorrer a uma fogueira para impedir a circulação de ideias ou informações que incomodem o governante não é original. Outros agentes do Estado já tiveram a mesma ideia. Logo no início da ditadura militar, em 1976, um oficial militar de Córdoba organizou uma queima de livros em um colégio para servir de lição aos estudantes. Mas não deu certo. Anos mais tarde, outro agente decidiu preparar uma nova fogueira — só que muito maior. Assim, em 1980, em Sarandí, centenas de milhares de livros foram queimados. Também foi um fracasso. Pouco tempo depois, a ditadura ruiu irremediavelmente. O mesmo acontecerá com o presidente. Sua violência e seu ódio fracassarão, assim como o seu governo”, advertiu a entidade.
Na análise da Federação, “ele também fracassará: nós, milhares de profissionais da imprensa que, todos os dias, realizamos nosso trabalho com seriedade e honestidade por todo o país — permitindo que o povo possa tomar suas próprias decisões — continuaremos a fazê-lo”. “Continuaremos informando, ainda que o presidente queira nos jogar na fogueira. Seguiremos lutando pelo nosso Estatuto do Jornalista e pela liberdade de expressão”, sublinhou a Fatpren.
MILEI DEFENDEU “TORPEDO NA CABEÇA DOS SICÁRIOS DO MICROFONE”
O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea) também apresentou uma denúncia à Relatoria Especial das Nações Unidas para a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e de Expressão, na qual alertou para o aumento das agressões contra profissionais de imprensa na Argentina e solicitou uma intervenção junto ao Estado nacional. Em mensagem publicada em 6 de outubro na rede social X, Milei escreveu: “Torpedo na cabeça dos sicários corruptos do microfone”. Na mais recente, em 23 de outubro, reiterou a ameaça aos jornalistas: “Quem tem que ser queimado na fogueira são os filhos da puta”.
A Federação Internacional dos Jornalistas e o Sindicato de Imprensa de Buenos Aires reforçaram a denúncia e repudiaram as criminosas declarações do governo argentino.
O episódio se soma a um histórico de atritos. A relação de Milei com a imprensa tem sido tensa desde que ele assumiu o cargo, em dezembro de 2023, marcada por ataques verbais e insultos, e ele costuma chamar jornalistas de “lixo”. Em abril, o mandatário proibiu a entrada de todos os profissionais da área credenciados na Casa Rosada, como parte de uma investigação sobre suposta “espionagem ilegal”. Em seu relatório global mais recente, a Anistia já alertava para “processos criminais” e “assédio judicial” contra jornalistas na Argentina.











