Mais de dois anos e meio após o assassinato da menina Hind Rajab, de cinco anos, sua família e dos paramédicos da Sociedade do Crescente Vermelho (a Cruz Vermelha palestina) que tentaram salvá-la na Cidade de Gaza, o exército de Israel admitiu no último dia 19 o crime.
Um dos mais horrendos e covardes dentro do genocídio perpetrado e da perversidade o cerca, e que tornou Hind o rosto, para o mundo, das mais de 20 mil crianças palestinas massacradas pelos supremacistas sionistas.
“Por favor venha me buscar”: o pedido de Hind aos atendentes do Crescente Vermelho permanecerá para sempre o testemunho de até onde chegou a selvageria e degeneração de Israel.
Por mais de três horas, dentro de um carro cheio de perfurações a bala, o tio, a tia e quatro primos mortos, Hind, assustada e ferida, como registrado pelas atendentes. Afinal morta, também, assim como os dois socorristas enviados em uma ambulância para a resgatarem, no dia 29 de janeiro de 2024.
Brutal chacina retratada pelo documentário A Voz de Hind, da cineasta Kaouther Ben Hania, aplaudido de pé durante 23 minutos no Festival de Veneza e vencedor do Prêmio do Júri de Veneza de 2025. Indicado, ainda, ao Globo de Ouro e ao Oscar.
No vídeo, trechos do filme:
Em abril de 2024, os estudantes da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, em repúdio ao assassinato da menina e ao genocídio em Gaza, ocuparam e rebatizaram como “Hind Hall” o histórico prédio onde, em 1985, os estudantes obtiveram, da instituição, o rompimento com o apartheid sul-africano.
De acordo com o recém divulgado comunicado do exército israelense, “as investigações revelaram que as forças da IDF atiraram em um veículo que se aproximava na direção oposta à evacuação anunciada em um comunicado preliminar do porta-voz da IDF aos moradores da região. Segundo as notícias, o veículo pertencia à família Hamada e, como resultado dos disparos, cinco passageiros morreram e dois sobreviveram: Hind Rajab e sua prima Lian”.
O mesmo comunicado reconheceu que o exército israelense matou 15 socorristas palestinos em outro massacre, em Rafah, no sul de Gaza, em 23 de março de 2025, disparando contra ambulâncias, um caminhão de bombeiros e um veículo identificado da ONU, na área de Tal al-Sultan. em Rafah, no sul de Gaza, durante uma chamada de emergência no início de 23 de março de 2025. Seus corpos foram encontrados enterrados em covas rasas uma semana depois, perto de seus veículos mutilados.
Para Dyab Abou Jahjah, diretor da Fundação Hind Rajab, cujo nome que homenageia a pequena vítima, as “investigações” do exército invasor não passam de “uma farsa destinada a branquear os culpados em vez de condená-los.”
Análise forense divulgada na época, e realizada pela agência de pesquisa inglesa Forensic Architecture, da Universidade de Londres, em conjunto com a Al Jazeera e a ong Earshot, o tanque israelense de estava posicionado entre 13 e 23 metros do carro da família de Hind quando disparou os tiros que mataram Layan Hamada e “não é plausível que o atirador não pudesse ter visto que o carro estava ocupado por civis, incluindo crianças”.
A mesma análise revelou que o veículo, um Kia Picanto, tinha 355 perfurações a bala.
UMA CHACINA COM TRÊS HORAS DE DURAÇÃO
Após o exército israelense dar a ordem de evacuação, família de Hind tentou cumpri-la deixando sua casa no Kia no bairro de Tel a-Hawa, que foi metralhado pelos israelenses. Seus tio, tia e três primos morreram quase instantaneamente. Ao primeiro ataque, só sobreviveram a sua prima de 15 anos, Layan Hamada, e Hind.
Layan conseguiu ligar pelo celular para o Crescente Vermelho Palestino, informando que haviam sido atingidos por tiros e que um tanque israelense se aproximava. Os atendentes do Crescente Vermelho ouvem os tiros que matam Layan e tentam ajudar Hind.
Por três horas, a pequena Hind, escondida atrás do assento, implorou por ajuda. O Crescente Vermelho determinou a localização e enviou uma ambulância com dois paramédicos, Ahmed al-Madhoon e Yusef al-Zeino. Logo sobreveio o silêncio, sem qualquer notícia de Hind e dos paramédicos.
Somente doze dias depois, após as tropas israelenses se retirarem do bairro, outros socorristas encontraram os corpos de Hind e sua família no carro atingido por balas e mísseis. A menos de um campo de futebol de distância, como indicado, a ambulância perfurada a tiros com os corpos dos paramédicos que tinham arriscada a vida na tentativa de salvar a menina.
BRANQUEAMENTO
Antes de serem forçados, pela indignação internacional, a abrirem uma “investigação interna” do “incidente”, o comando israelense negou ter matado Hind e sua família ou os motoristas de ambulância e até mesmo alegou que nem estavam na área no momento do ataque.
Versão mudada depois para que haviam “realizado ataques a alvos terroristas” na área de Tel al-Hawa, mas não tinham alvejado deliberadamente a família de Hind ou a ambulância do CVP.
Na atual “admissão” do crime, o exército “mais imoral do mundo” – conforme a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese – atribuiu a culpa às vítimas, dizendo que “tropas das IDF dispararam em um veículo” que estava “circulando contra o aviso prévio que havia sido publicado em um comunicado do porta-voz das IDF aos moradores da região”.
Como registrou Jeffrey Saint Clair na época, editor do Counterpunch, “Tel al-Hawa era uma zona militar fechada, segundo as FDI. Qualquer palestino que se movesse nas ruas era alvo legítimo, diz o IDF. As regras de engajamento eram as das tropas americanas em My Lai: atirem em qualquer coisa que se mova. Até meninas pequenas e os paramédicos que correram para tratar seus ferimentos”.
O ASSASSINATO DOS PARAMÉDICOS
Quanto ao massacre dos socorristas, as IDF alegaram agora que “devido a supostas falhas na coordenação do movimento da ambulância do Crescente Vermelho da Palestina, foi decidido iniciar uma investigação criminal do incidente pela Divisão de Investigação Criminal da Polícia Militar.”
Outra encenação. Antes da ambulância ser enviada, o Crescente Vermelho informou o Ministério da Saúde de Gaza e as Forças de Defesa de Israel sobre a ligação de Hind. Informaram que ela era uma menina assustada e ferida de cinco anos em um Kia preto que havia sido destruído por tiros de tanque. Disseram onde ela estava e que uma ambulância estava chegando.
Ou seja, a cruz vermelha palestina pediu ao exército israelense a coordenação para o resgate e que a ambulância recebesse passagem segura até Hind. Ao se aproximaram da área de Tel al-Hawa, os paramédicos relataram aos despachantes do Crescente Vermelho que as FDI estavam mirando neles, que atiradores de elite haviam apontado lasers para a ambulância. Depois houve o som de tiros e uma explosão..
Em paralelo à admissão do exército israelense – que mais parece um arremedo de justificativa de crime de guerra -, o ministro da Segurança, Itamar Ben-Gvir, chamou a matar diariamente de “30 a 40” palestinos em Gaza, enquanto no parlamento e na mídia é feita, abertamente, a apologia do estupro de prisioneiros palestinos nas prisões militares.
VOCÊ CONSEGUE IMAGINAR?
Jeffrey Saint Clair fez um pungente relato da monstruosidade em curso em Gaza. A prima de Hind, Layan, que ligou para o Crescente Vermelho, implora: “eles estão atirando em nós”. Então, já há cinco familiares mortos no veículo.
“O tanque está bem ao meu lado. Estamos no carro, o tanque está bem do nosso lado.” Então houve o som de tiros e a fila ficou em silêncio. O despachante perguntou: “Alô? Alô?” Não houve resposta. A conexão havia sido cortada.
A operadora do Crescente Vermelho respondeu. Hind respondeu. Ela disse que Layan havia sido baleado. Ela disse que todos os outros no carro agora estavam mortos. Ela ficou na linha por três horas. O despachante leu suas falas do Alcorão para acalmá-la. “Estou com tanto medo”, disse Hind. “Por favor, venha, venha me pegar. Você vai me buscar?”
Você consegue imaginar?
Você consegue imaginar sua filha pegando o telefone das mãos mortas da prima, que havia sido morta a tiros segundos antes, bem na frente dela?
Os operadores disseram a Hind para continuar se escondendo no carro. Eles disseram que uma ambulância estava chegando. Disseram que logo estaria segura. Hind conseguiu informar Rana Al-Faqueh, coordenador de resposta da PRCS, onde ela estava: perto do posto de gasolina Fares, no bairro de Tel al-Hawa. O próprio bairro dela. Ela disse que todo o bairro parecia estar sitiado pelos israelenses.
Já estava chegando às 6 da tarde. A rua agora estava em sombras. Já fazia três horas desde que ela e sua família haviam sido baleados. Três horas no carro com os corpos dos parentes mortos. Três horas sob fogo com a escuridão se aproximando.
“Tenho medo do escuro”, disse Hind a Rana.
“Está com tiros ao seu redor?” Rana perguntou.
“Sim”, disse Hind. “Venha me buscar.”
Então a linha caiu novamente. Desta vez, de vez.











