Árbitro barrado da Copa do Mundo por Trump é recebido como heroi na Somália

Omar Artan é aclamado em estádio lotado em Mogadíscio (ClickOn-Detroit)

O estádio de Mogadíscio, capital da Somália, lotado, aclamou nesta quarta-feira (10) Omar Abdulkadir Artan, em uma manifestação de apoio ao melhor árbitro de futebol do continente africano no ano passado e que foi impedido, pelo xenófobo e racista governo Trump, de entrar nos Estados Unidos, onde apitaria jogos da Copa do Mundo de 2026, apesar de ter passaporte diplomático, visto válido de entrada nos EUA e fazer parte da lista de 52 nomes da FIFA para a competição.

As homenagens haviam começando no aeroporto, com centenas de pessoas – torcedores, apoiadores, dirigentes esportivos, parlamentares e representantes do governo – saudando Artan. O árbitro convocado pela FIFA foi submetido a 11 horas de interrogatório nos EUA e expulso, sob o pretexto de uma ordem executiva de Trump proibindo a entrada de cidadãos de uma lista de 12 países do Sul Global que inclui a Somália.

Depois do longo interrogatório, o árbitro africano ainda ficou detido por várias horas até ser embarcado em um voo de volta. Com 34 anos, Artan almejava se tornar o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo.

Ainda no aeroporto, ele agradeceu “ao meu país e ao meu povo pelo apoio”. “Com o incentivo que recebi aqui, sei que vou conseguir mais apoio lá fora”, acrescentou. “Tudo está predestinado. Prometo que vou apitar na próxima Copa do Mundo. Somália, em todos os lugares, eu estou avisando.”

Dirigindo-se aos jovens, Artan os convocou a “defender a honra da Somália. Todos pertencemos à Somália, seja ela boa ou ruim. Essa bandeira é nossa, assim como o passaporte — vamos defendê-la”. Desestruturado pela intervenção norte-americana, o país ainda está em meio a uma guerra civil.

Trump parece ter uma fixação especial com os somalis, tendo, dois dias antes do sorteio da Copa do Mundo, em dezembro de 2025, em função da furiosa operação anti-imigração desencadeada contra Minnesota, estado que possui uma grande comunidade somali, os chamado de “lixo”, acrescentando que “deveriam voltar para de onde vieram”.

“Com a Somália, que mal é um país, você sabe, eles não têm nada. Eles apenas ficam andando por aí matando uns aos outros. O país deles é péssimo e não queremos eles em nosso país”, disse Trump.

Talvez o problema seja que lá em Mogadiscio os somalis, em 1993, deram um pau homérico nos marines, forçando-os a “go home”, que virou até filme: Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott.

No primeiro mandato, Trump já havia classificado os países africanos e o Haiti como “países de merda” (‘shitholes countries’). Enquanto persegue africanos e imigrantes em geral, Trump liberou neste seu segundo mandato a entrada nos EUA de dez mil “refugiados” brancos sul-africanos, isto é, dez mil racistas que se dizem “vítimas” na ex-terra do apartheid.

ARROGÂNCIA E RACISMO

A expulsão de um árbitro da FIFA não foi a única truculência do regime Trump nessa Copa que sedia, junto com México e Canadá. Seleções do Senegal e do Uzbequistão foram submetidas a humilhantes revistas ainda na pista do aeroporto, com cães policiais e tudo mais. Pelo andar da carruagem, a Olímpiada de 1936, sob Hitler, vai ser vista como um modelo de moderação em relação à Copa de Trump.

O Irã está proibido de pernoitar nos EUA, teve de mudar sua delegação para Tijuana no México e, nos dias em que joga nos EUA, tem de entrar e sair do país imediatamente após a partida. A cota de 8% de cada país classificado para sua torcida foi acintosamente surrupiada do Irã, em evidente prejuízo de sua seleção.

Há, ainda, a ameaça do czar anti-imigrantes, Tom Homan, de entupir os estádios de agentes do ICE, especialmente em Nova Iorque.

O BAJULADOR INFANTINO

Diante de toda essa arrogância e racismo, também Causa indignação a subserviência do presidente da FIFA, Gianni Infantino, inclusive sua recusa em defender seu quadro de árbitros diante da xenofobia.

Infantino, que diz ser “contra a politização do esporte”, não achou problema em não excluir Israel, que comete genocídio em Gaza, da disputa da Copa de 2026, depois de ter excluído a Rússia desde 2022 sob a alegação de invasão da Ucrânia.

Subserviência que parece ser à prova de ridículo, a ponto do cartola ter agraciado Trump com o “troféu FIFA da Paz”, menos de três meses antes de Trump iniciar, junto com Israel, uma guerra de agressão contra o Irã. Ele se esmerou: “É isso que queremos de um líder – um líder que se importa com o povo”. “Você definitivamente merece o primeiro Prêmio da Paz da FIFA”, completou o sabujo.

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