Bancos pressionam por juros mais altos em 2026

Banco Central. (Foto: Arquivo/EBC)

Boletim Focus do BC elevou Selic para 13%

Não bastassem os níveis recordes de endividados e inadimplentes, as novas projeções da Selic para 2026, firmadas no Boletim Focus do Banco Central (BC), desta segunda-feira (20), com um aumento de 0,5 ponto percentual, de 12,5% para 13% ao ano, e para 2027, da mesma forma, aumentando as projeções de 10,5% para 11% ao ano, apontam para um cenário de maiores dificuldades para famílias e empresas, com crédito ainda mais caro.

Afinal, junto com o baixo nível de renda, as taxas de juros desmedidas, impulsionadas pelos altos juros indicados pela Selic, taxa básica da economia, estão na raiz do endividamento e inadimplência no nível que se encontram atualmente.

O encarecimento do crédito reforça a tendência de manter as dificuldades de investimentos ao atrair para as aplicações no mercado financeiro os recursos que em um cenário de juros mais “civilizados” seriam carreados para os investimentos produtivos.

Os reflexos dos juros extorsivos, com a Selic acima de dois dígitos, desde fevereiro de 2022 e a partir de junho de 2025 ao nível dos 15% já se fizeram sentir. Em 2023 o Produto Interno Bruto (PIB) que é a soma de todos os bens serviços produzidos no ano, chegou a 3,2% sobre o ano anterior, em 2024 atingiu um crescimento de 3,4%.

A pressão dos juros altos disseminados a partir de então começaram a surtir seus efeitos e em 2025 o PIB brasileiro caiu para 2,3% no ano. Para 2026, as projeções de crescimento do PIB, do próprio Focus, são de pífios 1,86%.

Há, contudo, quem ganhe muito com essa política de juros nas alturas. Enquanto indústria, comércio e serviços não financeiros veem crescimento e lucros se retraírem, os bancos, pelo contrário, tem os seus aumentarem continuadamente. Em 2023 a soma dos lucros dos três maiores bancos no Brasil (Itaú, Bradesco e Santander) foram de R$ 61,28 bilhões. Em 2024 de R$ 74,8 bilhões e 2025 um total de R$ 87,1 bilhões. Percentualmente 22,1% e 16,4% respectivamente.

A indústria de transformação, coração da indústria e de economias desenvolvidas, tem uma projeção de crescimento de 0,3% para 2026, conforme a Tendências Consultoria. Em 2025 teve um ano praticamente sem ganhos.

Nessa condição, o Brasil voltou a um padrão de desempenho que coloca sua produção nas últimas posições em uma comparação internacional com 83 países. O país caiu do 24º lugar em um ranking de ritmo de expansão da atividade industrial em 2024 para 64º lugar em 2025. É a pior posição desde 2022, quando ficou em 71º lugar.

As informações fazem parte de estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). O elevado patamar de juros no país foi o principal motivo para a queda da posição brasileira no ranking, segundo o instituto.

“O ano de 2024 foi bem positivo, mas em 2025 o Brasil retomou seu padrão adverso, de estar tradicionalmente na metade inferior do ranking. Ao longo de 2025, o juro foi corroendo todas as bases do dinamismo industrial e o Brasil voltou para a lanterninha”, afirma o diretor-executivo do IEDI, Rafael Cagnin, responsável pelo estudo.

E, ainda que, o patamar elevado de juros afeta negativamente a indústria por dois lados, explica o executivo. O maior custo de financiamento para bens duráveis restringindo o crédito e do custo de capital.  A competição com alternativas de investimento que rendem mais e com menos riscos. “Quem vai investir se o dinheiro pode render mais e sem risco? Projetos são engavetados”.

João Leme, economista da Tendências reforça esse entendimento: “A indústria vai continuar a sofrer com o juro por dois caminhos. O juro atrapalha o custo do investimento, especialmente os de maior valor. Os dados também mostram a expansão do endividamento das famílias. Nessas circunstâncias, a indústria acaba sendo ‘um patinho feio’ da atividade econômica”.

O Relatório Focus é uma publicação semanal do Banco Central (BC), divulgada toda segunda-feira, que consolida as projeções de mais de 100 empresas financeiras para os principais indicadores da economia brasileira, como IPCA (inflação), Selic (juros), PIB (crescimento econômico) e câmbio (moeda).

J.AMARO

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