Ex-presidente Evo Morales se soma aos movimentos sociais e convoca mobilização nacional para pôr fim ao retrocesso neoliberal. Sindicalista denuncia tentativa do governo de “entrar em Cochabamba para assassinar a Evo”
“Sou capaz de convocar um concurso de mentirosos e Rodrigo Paz vai ganhar a medalha de ouro”, afirmou o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales (2006-2019), convocando a que a população boliviana tome as ruas a partir desta quarta-feira (26), se enfrentando ao estado de exceção para retomar um projeto nacional de desenvolvimento e justiça social. “A imagem que nosso país tinha antes – e à qual voltamos agora – da Bolívia ser a campeã de corrupção na América Latina e vice-campeã mundial; agora voltamos a isso”, protestou.
Conforme Vicente Choque, representante da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia na região do Trópico de Cochabamba (Chapare), serão retomadas as manifestações contra as medidas econômicas neoliberal do governo, em particular o recente decreto 5676, que teve um efeito imediato para os grandes consumidores: o preço praticamente dobrou, saindo de cerca de US$ 0,85 para cerca de US$ 1,56 por litro. “A mobilização será em nível nacional. Queiramos ou não. Não dá para aguentar. Mesmo com o estado de exceção, a fome é insuportável”, enfatizou Choque, para quem o aumento dos combustíveis terá um impacto direto na piora das condições de vida.
Sobre a tentativa do governo de tentar assassinar a Evo Morales, acusado de “terrorismo” pelos fascistas do “Comitê Cívico Pró-Santa Cruz”, o sindicalista advertiu que é necessário estar atento e ativo. A preocupação cresceu diante do envolvimento de Fernando Cerimedo na derrota de Evo. O fundador do “La Derecha Diario” confessou à companheira e advogada Nadia Beller ser “agente da CIA”, antes de mandar pistoleiros executá-la grávida na Bolívia “por saber demais”.
“Qualquer militar – seja policial, seja quem for – que tente entrar na região do trópico de Cochabamba para assassinar nosso irmão Evo e alguns dirigentes não sairá de lá. Seremos muito claros quanto a isso”, assinalou.
PASSAM OS DIAS, CRESCEM OS PROTESTOS
Menos de seis meses após assumir a presidência da Bolívia, o direitista Rodrigo Paz se vê diante de imensos e intensos protestos que colocam em xeque seu breve mandato, com a região de Cochabamba – de Evo – mais uma vez tomando à frente.
Um tsunami de manifestações e bloqueios de estradas já haviam isolado La Paz, com o governo direitista multiplicando as prisões em massa e a repressão, chegando ao ponto de decretar estado de exceção, episódio que analistas já comparam à “pior turbulência institucional do país em décadas” – antes governado pelo Movimento Ao Socialismo (MAS).
Chegando ao poder a partir da divisão do MAS e por meio de uma campanha inundada de desinformação pelos grandes meios e manipulação de algoritmos, Paz venceu o segundo turno das eleições de outubro de 2025 com cerca de 55% dos votos.
Mas nem bem assumiu, o governo já disse a que veio: se submeteu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e eliminou subsídios aos combustíveis vigentes desde 2006, fazendo o preço dos combustíveis dispararem. No final de dezembro de 2025 o reajuste foi de 86% para a gasolina e de cerca de 160% para o diesel.
GOVERNO PAZ AMEAÇA PEQUENAS PROPRIEDADES DE CAMPONESES E INDÍGENAS
Como se não bastasse, a Lei 1.720, sancionada em abril, alterou as regras sobre hipotecas e propriedade rural, numa clara ameaça às pequenas propriedades de camponeses e indígenas. Diante das ameaças, a partir de 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) convocou uma greve geral, mobilizando professores, mineiros, transportadores urbanos e rurais em uma pauta que incluía também reajuste salarial de 20% e melhorias no abastecimento de combustível.
Mesmo depois do governo ser forçado a revogar a lei, em 12 de maio, os bloqueios se multiplicaram, alcançando o conjunto das rodovias do país, isolando La Paz e a vizinha El Alto e provocando desabastecimento de alimentos, remédios e combustível. A partir de então cresceu a exigência da renúncia do presidente, pauta reforçada pelo pronunciamento de Evo Morales – contra quem foi expedido um ridículo mandado de prisão – que mobilizou apoiadores em uma marcha de quase 200 quilômetros rumo à capital.
A situação se agravou na última semana de maio quando mineiros usaram cargas de dinamite nos arredores do Palácio Quemado, sede do governo; o ministro de Obras Públicas foi denunciado por manifestantes e precisou ser resgatado; e uma operação policial e militar foi acionada para desobstruir estradas ao sul de La Paz.
Em 25 de maio, Paz deixou a capital rumo a Sucre, capital constitucional do país, e para tentar mascarar a corrupção que inunda seu governo – anunciou um demagógico corte de 50% em seu salário e no de seus ministros. De nada adiantou. No dia seguinte, manifestantes cercaram o palácio presidencial em meio a gás lacrimogêneo e explosivos.
CONGRESSO CONIVENTE COM O MARIONETE DE TRUMP
Também majoritariamente tomado por neoliberais e entreguistas, o Congresso foi conivente com o marionete de Trump na Bolívia, retirando limites que restringiam a declaração de estados de exceção e abrindo caminho para o uso das Forças Armadas na contenção dos protestos.
A tragédia aflorou. Segundo balanços de meados de junho, ao menos 17 pessoas morreram e mais de 360 foram presas – principalmente lideranças. Manifestando apoio ao escárnio, o governo dos Estados Unidos, por meio do secretário de Estado Marco Rubio, anunciou ajuda logística emergencial, assim como o governo Milei, da Argentina.
Amparado por um estado de exceção de 90 dias, o governo conseguiu, ao longo de junho, desmontar gradualmente os bloqueios – que totalizaram 53 dias consecutivos. Com as estradas liberadas, Paz voltou a tentar implantar o seu projeto neocolonial de privatização do setor mineral, dos hidrocarbonetos e do lítio.
À medida que a relação de Fernando Cerimedo com a família de Paz vai sendo exposta, está iniciada a contagem regressiva, avaliam as lideranças. “Não dá mais para viver com este governo; não dá mais para suportar as decisões de quem, neste momento, promove um ajuste econômico contrário aos interesses do país. E por isso, ressalto mais uma vez: a mobilização será em nível nacional”, concluiu Choque.











