Nova fase da Operação Compliance Zero, da PF, identificou diálogos que comprovam os pagamentos regulares ao senador. Justiça bloqueou bens estimados em R$ 18,85 milhões
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira (7) uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes financeiras do Banco Master.
O senador bolsonarista Ciro Nogueira (PI), está entre os alvos. A PF aponta que o prócer bolsonarista era o “destinatário central” das vantagens indevidas de Daniel Vorcaro. Diálogos interceptados pelos investigadores entre o banqueiro e seu operador financeiro, Felipe Vorcaro, mostram que Ciro recebia uma “mesada” do banqueiro de valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. Também há indícios de recebimento de dinheiro em espécie.
Ao todo, policiais federais cumprem 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. O irmão de Ciro Nogueira, Raimundo Nogueira, também é alvo de buscas. Além disso, o primo de Vorcaro, Felipe Cançado Vorcaro, foi preso nesta manhã. Ele estava em Minas Gerais.
De acordo com as investigações, os repasses para o senador eram feitos por meio da “parceria BRGD/CNLF“, pessoa jurídica. As operações eram tocadas por Felipe Cançado Vorcaro, primo do dono do Master. Cançado é apontado como operador financeiro no esquema de pagamentos ao senador.
No caso, a sigla BRGD se refere à empresa BRGD S.A., que tinha como diretor Oscar Vorcaro, pai de Felipe Cançado. A outra sigla da parceria se refere à CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., administrada formalmente por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, que é irmão de Ciro Nogueira e também foi alvo da Polícia Federal nesta quinta.
A operação foi autorizada pelo relator do caso no STF, ministro André Mendonça. A decisão judicial também autorizou o bloqueio de bens, direitos e valores estimados em R$ 18,85 milhões. Na decisão, Mendonça afirma que há elementos que apontam a probabilidade de: corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional.
Segundo os investigadores da PF, a relação entre o senador e o banqueiro extrapolava a “mera amizade“, o “vínculo fraternal” ou “atuação política regular“, e configura trocas financeiras e políticas, que são descritas na apuração. Entre essas trocas, a PF destaca:
1- a aquisição de participação societária estimada em aproximadamente R$ 13 milhões pelo valor de R$ 1 milhão;
2- repasses mensais de R$ 300 mil, ou mais – considerando relatos de que o montante teria evoluído para R$ 500 mil;
3- a disponibilização gratuita, por tempo indeterminado, de imóvel de elevado padrão;
4- pagamento de hospedagens, deslocamentos e demais despesas inerentes a viagens internacionais de alto custo.
Em conversas interceptadas pela Polícia Federal, Felipe cita os pagamentos de R$ 300 mil e de R$ 500 mil em diversas ocasiões com Daniel Vorcaro. Em alguns dos diálogos, o primo do banqueiro revela preocupação com os altos valores repassados a Ciro Nogueira.
Em 28 de janeiro de 2025, Felipe e Daniel trataram sobre os valores pagos ao senador:
Felipe Vorcaro: Oi Daniel, tudo bem? Pessoal me passou aqui sobre o aumento dos pgtos parceiro brgd, mas fluxo esta indo praticamente todo para o btg e ainda estou precisando aportar valores altos todo mes. Amanhã estarei o dia todo em SP, tem algum horário que poderíamos falar?
Daniel Vorcaro: Estou na venezuela. Resolve isso pra mim. Eu ponho dinheiro depois para repor.
Meses depois, no dia 30 de junho de 2025, Daniel relata preocupação ao primo com o atraso aos pagamentos para Ciro Nogueira.
Daniel Vorcaro: Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?
Felipe Vorcaro: Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?
Ciro Nogueira agia em defesa do Banco Master. A emenda apresentada por ele para ampliar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante foi redigida pela assessoria do Banco Master, segundo a Polícia Federal.
A informação consta de representação acolhida pelo ministro André Mendonça. Segundo a investigação, o texto da emenda foi encaminhado por André Kruschewsky, do Master, ao banqueiro. Em seguida, foi impresso e entregue em envelope endereçado a “Ciro” no endereço residencial do senador.
A defesa do senador Ciro Nogueira informou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Os advogados negam “ilicitudes sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. A PF afirma que o conteúdo da versão entregue foi reproduzido integralmente pelo parlamentar no Senado. A emenda foi apresentada em agosto de 2024.











