O país precisa recuperar capacidade de dissuasão diante do novo cenário geopolítico, defende o professor da ESG
Para Ronaldo Carmona, professor da ESG (Escola Superior de Guerra) e especialista do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), aumentar os investimentos em defesa é uma necessidade estratégica.
“O Brasil precisa recompor a capacidade mínima de se defender. E se defender é constituir capacidade de dissuasão, ou seja, de fazer com que o custo de uma agressão ao Brasil desencoraje grandes potências de fazê-lo.”
INVESTIMENTO AINDA ABAIXO DO NECESSÁRIO
Carmona chama atenção para a distância entre o tamanho do Brasil e os recursos destinados à Defesa. Segundo o especialista, o País investe cerca de 1,1% do PIB no setor, enquanto os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar internacional formada por 32 países da América do Norte e da Europa, destinam aproximadamente 3% e estabeleceram a meta de chegar a 5% até 2035.
“O Brasil é uma das 10 economias do mundo e, para as riquezas que o Brasil tem, o nosso investimento em defesa é muito baixo.”
CAÇAS, SUBMARINO E TECNOLOGIA
Entre os principais investimentos estão R$ 2,8 bilhões para o programa FX-2, de aquisição de caças para a Força Aérea; R$ 1,8 bilhão para o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro; e R$ 1,4 bilhão para o programa nuclear da Marinha, que inclui o submarino de propulsão nuclear.
O Exército terá R$ 944,7 milhões para modernização de veículos blindados e R$ 646,2 milhões para o programa Astros-Fogos, orientado a sistemas de mísseis de longo alcance.
O Ministério da Defesa considera o aumento positivo, mas defende solução permanente para evitar atrasos e repactuações nos projetos estratégicos. A pasta apoia a PEC 55/23, do senador Carlos Portinho (PL-RJ), que estabelece investimento mínimo equivalente a 2% do PIB em Defesa, com crescimento gradual a partir de 1,2%.
DESAFIO É PENSAR O BRASIL COMO PROJETO
O aumento dos recursos para Defesa recoloca questões que vão além da disputa anual do Orçamento: País continental, rico em recursos naturais, com grande território, biodiversidade, petróleo, minerais estratégicos e extensa costa precisa dispor de capacidade própria para proteger seus interesses.
Defesa, infraestrutura, ciência, indústria, tecnologia, educação e segurança formam partes da mesma estratégia nacional.
Nesse sentido, a advertência de Carmona é direta: sem capacidade de dissuasão, a riqueza pode transformar-se em vulnerabilidade. O desafio do Brasil é fazer com que o investimento em Defesa seja parte de projeto mais amplo de desenvolvimento e soberania. E não apenas mais uma rubrica na disputa por recursos escassos.
Porque o país que pretende ser respeitado internacionalmente precisa, antes de tudo, ter condições de defender aquilo que possui.
Os investimentos no setor no governo Lula cresceram, mas ainda é muito pouco e precisa de mais, reconhece o Executivo.
O governo afirma que parte do aumento de recursos decorre da regra aprovada no ano passado, que permite tirar até R$ 5 bilhões de investimentos em Defesa das regras fiscais em 2027. A medida resultou em R$ 10 bilhões destinados, no PAC, a projetos estratégicos do setor.
O governo do presidente Lula (PT) reservou R$ 12,7 bilhões para investimentos em Defesa em 2027, 60% acima dos R$ 7,95 bilhões previstos na proposta de 2026. Pela primeira vez em Orçamento enviado pelo atual governo, a Defesa supera a Saúde em investimentos: R$ 11,4 bilhões. Transporte lidera, com R$ 13,8 bilhões.
A mudança ocorre em meio ao agravamento das tensões geopolíticas e à defesa, pelo governo, de políticas de soberania nacional. Em 31 de agosto, Lula afirmou que o Brasil precisa estar preparado para a paz e para impedir que qualquer potência se aventure contra o País.










