China rechaça ameaças de Trump ao seu comércio com o Irã

Navios-tanque seguem transporte diário de petróleo iraniano para a China (Redes Sociais)

“A cooperação entre China e Irã sempre aconteceu dentro do marco do direito internacional e não deve ser alvo de interferências ou perturbações”, disse o porta-voz Lin Jian

A China afirmou, nesta terça-feira (25), que defenderá seus interesses e não deixará de negociar com o Irã após o regime Trump, na véspera, desencadear seu “Dia D” da guerra econômica contra o Irã e ameaçar o mundo inteiro de sanções, caso não se submeta ao seu veto ao petróleo iraniano.

A China, que é a principal compradora do petróleo iraniano, reagiu, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, declarando que seu país “tomará todas as medidas de segurança para salvaguardar com firmeza seus direitos e interesses” e consistentemente se opõe “às sanções unilaterais”.

“A cooperação entre China e Irã sempre aconteceu dentro do marco do direito internacional e não deve ser alvo de interferências ou perturbações”, advertiu ainda o diplomata.

“A guerra econômica e as táticas de pressão máxima não ajudarão a resolver o problema; elas apenas intensificarão ainda mais os conflitos, causarão riscos de contágio, perturbarão a ordem econômica e financeira global e prejudicarão os direitos e interesses legítimos de outros países”, afirmou.

“A tarefa urgente é reduzir a tensão e retornar ao caminho do diálogo e da negociação o mais rápido possível”, acrescentou.

“OPERAÇÃO PÁRIA ECONÔMICO”

Alvo em 1953 da “Operação Ajax” para tomar de volta o petróleo e derrubar o governo de Mossadegh, o Irã, agora, conforme o secretário do Tesouro Scott Bessent, está diante da “Operação Pária Econômico”.

“Queremos deixar claro hoje que ninguém está por acima do alcance das sanções dos Estados Unidos. Se facilitarem transações e fizerem parte do ecossistema que transforma o petróleo iraniano em dinheiro e em repressão, serão alvo”, asseverou o banqueiro.

Ainda segundo ele, o próprio Trump “está ligando para líderes mundiais com pedidos específicos para que cessem suas interações com o Irã”.

Bessent afirmou que Washington definiu um cronograma para que cada país vá interrompendo suas “atividades” com o regime iraniano. “Se eles não interromperem essas atividades, nos faremos isso de forma unilateral através de autoridades do Tesouro”, ameaçou.

Sem dar detalhes, ele disse que uma “grande instituição financeira” também será sancionada nesta semana por vínculos financeiros com o Irã.

Sobre a guerra econômica de Trump contra o Irã, o ex-analista da CIA e atual comentarista da cena internacional, Larry Johnson, lançou uma pergunta indiscreta: “Se (como diz Trump) o Irã está derrotado e Ormuz é “nosso”, por que escalar a guerra econômica?”.

PRESSÃO ECONÔMICA NÃO PODE MUDAR A VONTADE DO POVO IRANIANO

Lembrando que o Irã está sob sanções dos EUA há 47 anos, desde a vitória da revolução que libertou o país do domínio norte-americano e da opressão do Xá, as autoridades iranianas afirmaram que a nova escalada fracassará como as anteriores.

“O governo não permitirá que o terrorismo econômico dos EUA coloque em risco a estabilidade econômica e os meios de subsistência do povo”, publicou o primeiro vice-presidente do Irã, Mohammad Reza Aref, em sua conta no X no sábado.

Ele acrescentou que a experiência da Revolução Islâmica mostrou que “a pressão econômica não pode mudar a vontade do povo iraniano” e “é contraproducente”.

Por sua vez, o ministro interino da Defesa do Irã, Brigadeiro-General Seyed Majid Ibn Reza, advertiu que “qualquer pressão que tenha como alvo o sustento e a segurança do povo faz parte da guerra”.

O militar enfatizou que, para o Irã, a economia, o bem-estar e o conforto da população, juntamente com a segurança, fazem parte do escopo da defesa.

“Aqueles que ampliam o escopo da pressão devem saber que nós também, em defesa do povo, ampliaremos esse escopo dentro da estrutura dos interesses nacionais”, disse ele.

O Irã descreveu a nova pressão econômica de Washington contra o povo iraniano como “a mesma velha arrogância dos Estados Unidos”.

O Ministério das Relações Exteriores Irã denunciou as novas sanções de Washington como “terrorismo econômico” e “crimes contra a humanidade”. Teerã condenou essas medidas como parte de décadas de hostilidade de Washington contra o povo iraniano e afirmou que elas não afetarão sua determinação em preservar a independência, a dignidade e a soberania nacional.

EMBARGO CHEIO DE FUROS

Larry Johnson analisou extensamente porque o bloqueio de Trump ao Irã está furado. Ele registrou como próprio Bessent expôs a fraqueza central dessa política, ao ameaçar de remover “do sistema do dólar americano” qualquer um que supostamente lave dinheiro para o regime iraniano.

“Toda a arquitetura do que Bessent chamou de ‘Operação Pária Econômico’ se baseia em uma única suposição — que o Irã e seus parceiros comerciais precisam do dólar americano. Cada vez mais, não o fazem. E a ameaça de impedir alguém de entrar no sistema do dólar não significa nada para uma negociação que já saiu dele e entrou no yuan chinês.”

O real conteúdo da operação – ele enfatizou – é “um arcabouço de sanções secundárias: os Estados Unidos ameaçam punir qualquer país ou entidade que se recuse a romper laços econômicos com o Irã, expandem as categorias de atividades expostas a essas sanções secundárias para cinco novos campos — ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e navegação — e designam cerca de sessenta indivíduos, entidades e embarcações ligadas à aquisição nuclear e de mísseis, operações cibernéticas e contrabando de petróleo.”

“O mecanismo da dor, em todos os casos, é o mesmo: exclusão do sistema financeiro baseado em dólares que Washington fiscaliza por meio do controle da compensação do dólar, mensagens SWIFT e bancos correspondentes.”

“Isso é uma arma devastadora contra qualquer um que viva dentro do sistema do dólar. É quase irrelevante para aqueles que deliberadamente construíram seu comércio mais importante fora dele. E a tábua de salvação do Irã — o comércio de petróleo com a China — está agora em grande parte fora dele.”

SIGA OS BARRIS

“Siga os barris. A China agora é compradora de mais de 80% das exportações marítimas de petróleo bruto do Irã. O Irã está enviando cerca de 1,65 a 1,8 milhão de barris por dia, quase todos para as refinarias independentes de “bule de chá” de Shandong, transportadas por uma frota sombra de mais de 350 petroleiros usando transferências navio para navio na Malásia, Singapura e Mar de Omã, cargas rotineiramente rebatizadas como malaias ou omãs.”

“Os fluxos de pagamento em yuan, direcionados por pequenos bancos chineses e empresas comerciais de Hong Kong, se estabilizaram em um volume crescente de renminbi que ignora completamente o sistema de compensação do dólar.”

“A base para isso é o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China, CIPS — a rede de liquidação que o Banco Popular da China lançou em 2015 precisamente para concluir transações transfronteiriças em yuans sem tocar na arquitetura financeira ocidental. Seu uso aumentou em paralelo com a guerra. O CIPS processado na ordem de US$ 214 bilhões em março de 2026, atingiu um recorde diário de 1,22 trilhão de yuans — cerca de US$ 178 bilhões — em quase 42.000 transações, e viu seu valor médio diário saltar cerca de 50% de fevereiro a março, um pico diretamente ligado pelos analistas ao conflito iraniano e ao aumento da demanda por yuans no comércio de petróleo. Mais de cinco mil instituições já estão conectadas. Esses canais permitem liquidação sem nenhum banco intermediário dos EUA na cadeia — que é exatamente o objetivo.”

“Você não pode congelar um pagamento em yuan de um sistema em dólares que ele nunca entra. Isso não é uma brecha no plano de Bessent. É a base do plano, faltando.

QUEM PISCA PRIMEIRO

“Há exatamente uma medida que pode realmente prejudicar o comércio do yuan: sancionar os principais bancos chineses e a arquitetura CIPS que o libera — cortando grandes instituições financeiras chinesas do sistema do dólar e forçando Pequim a escolher. E esse é o passo que Bessent, mais uma vez, anunciou, mas não tomou. Ele alertou que pelo menos uma grande instituição financeira pode enfrentar sanções nesta semana e disse que a China não ficará isenta. Uma ameaça, não uma ação — a mesma ameaça que paira sobre essa campanha há meses e nunca desce, porque executá-la significa uma ruptura financeira com Pequim na véspera de uma reunião planejada entre Trump e Xi, e um choque no preço do petróleo que Washington não pode se dar ao luxo de enfrentar antes das eleições de meio de mandato.”

“E mesmo que ele puxasse o gatilho, a troca é arquitetada para sobreviver a isso. Os pagamentos em yuan já passam por pequenos bancos chineses e empresas de fachada de Hong Kong justamente para que as grandes instituições expostas ao dólar permaneçam limpas e o fluxo continue caso um grande banco seja atingido.”

“DEZ ANOS DE SANÇÕES E UMA ECONOMIA MAIOR”

Johnson observa então que, embora o PIB nominal do Irã em dólares, de cerca de US$ 300 bilhões, pareça mostrar um Irã totalmente devastado ao converter o rial para dólar segundo o câmbio manipulado pelos EUA, como o próprio Bessent confessou no início do ano, quando achavam que sua revolução colorida ia implicar, quando medido pela paridade de poder de compra “o PIB do Irã subiu de cerca de US$ 1,4 trilhão de 2015, quando a arquitetura de sanções da era do JCPOA estava em vigor, para cerca de US$ 2,18 trilhões em 2026, segundo o FMI, a vigésima terceira maior economia do mundo. Isso representa uma expansão de mais de cinquenta por cento na mesma década de ‘pressão máxima’ que deveria destruí-la.”

“Uma campanha de pressão que pode destruir uma moeda e ainda assim não reduzir a produção real é uma campanha que gera dificuldades sem submissão. O Irã agora demonstrou exatamente isso em duas arquiteturas de sanções — o JCPOA e seus sucessores de ‘pressão máxima’.

Evidentemente, “o atrito de operar nas sombras é real: o Irã vende seu petróleo bruto com descontos de $14 a $17 por barril abaixo do Brent, acima de $8 em 2023, justamente porque as sanções aumentam o risco e a complexidade de comprá-lo. As medidas de Bessent vão adicionar um pouco mais de atrito na margem — mais uma pressão no desconto, mais algumas empresas de fachada para substituir.”

“Mas atrito não é um estrangulamento, e um Irã mais pobre não é um que se conforma. As sanções tornam o petróleo do Irã mais barato e sua economia mais tensa; eles não cortam, e não podem, cortar a artéria denominada em yuan para a China que mantém o petróleo fluindo e o regime financiado. Essa artéria é o que Bessent prometeu cortar, e é a única coisa que seu anúncio não toca. Bessent ameaçou expulsar o Irã e seus parceiros de um sistema financeiro que o Irã passou anos deixando.”

“As medidas anunciadas na segunda-feira gerarão manchetes, algumas dezenas de designações e uma ampliação marginal do desconto que a China já desfruta sobre o petróleo bruto iraniano. O que eles não farão é aquilo para o qual foram vendidos: colapsar as opções do Irã e forçá-lo a se sujeitar. Você não pode cortar um fio de vida que não corre mais pelas suas mãos. Bessent está de guarda em uma porta pela qual o Irã saiu há muito tempo, ameaçando trancá-la.”

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