Marcela Pagano, ex-integrante do partido do presidente “Liberdade Avança”, acusa Javier Milei à Justiça por “desvio de recursos públicos, gestão fraudulenta e abuso de autoridade”
Há poucos meses, Marcela Pagano era uma das vozes mais sintonizadas com o discurso de Javier Milei na Câmara de Deputados argentina. Após romper com a “Liberdade Avança” e à frente do monobloco Coerência, a parlamentar acusa a existência de um criminoso esquema montado pelo governo para obter o dinheiro necessário à manutenção do seu “equilíbrio fiscal”.
Como explica Pagano, a operação seria semelhante àquela revelada em relação ao imposto sobre combustíveis: bilhões em recursos que o governo deixou de aplicar em obras viárias e foram desviados para os cofres do Ministério da Economia, com o objetivo de especulação financeira e compra de votos no Congresso. Por contra disso está acionando a Justiça, acusando Milei por “desvio de recursos públicos, gestão fraudulenta e abuso de autoridade”
Reconstruindo passo a passo das armações a partir de documentos oficiais, citou a parlamentar, os recursos em questão vêm do Sistema Vial Integrado (SisVial), um encargo alimentado pelo Imposto aos Combustíveis Líquidos e que, por lei, deveria ser destinado exclusivamente a obras rodoviárias. Pagano sustenta que esses fundos ficaram praticamente congelados no início da gestão Milei e passaram a ser liberados em blocos, coincidindo com janelas de até 72 horas antes ou depois de votações-chave no Congresso.
“NÃO PAGAM ASFALTO: PAGAM MÃOS DE PARLAMENTARES NO ALTO”
“A questão chave é que quando você abastece o carro está pagando um imposto que alimenta um encargo exclusivamente a obras viárias. Mas o Milei o usou para comprar leis”, assegurou a deputada, resumindo a acusação com uma frase transformada no símbolo de sua delação: “Não pagam asfalto: pagam mãos [de parlamentares] levantadas”.
Diante da deterioração acentuada das rodovias, fruto do ajuste fiscal, Milei tem buscado transferir quase 10 mil quilômetros de rodovias federais para a iniciativa privada por meio de concessões de 20 anos. Formalizada pelo Decreto 97/2025, a decisão ultraneoliberal prevê a liquidação da estatal Corredores Viales S.A. e licitações para empresas privadas que assumirão a manutenção em troca do direito de inundar a Argentina de pedágios.
O resultado prático, já amargado por quem trafega pelas estradas do país vizinho, é asfalto desgastado, buracos em abundância, sinalização precária e obras completamente paralisadas.
“EM DIAS DE SESSÃO LEGISLATIVA O DESEMBOLSO CHEGA A 3,44 VEZES O DOS DEMAIS DIAS”
De acordo com o levantamento apresentado por Pagano, nos dias de sessão legislativa os desembolsos do fundo chegaram a 3,44 vezes a média do restante do mês. Na província (Estado) de Tucumán, a rota 307 teria recebido a liberação de 2,322 bilhões de pesos (R$ 8,31 milhões) em três janelas de votação, apesar de acumular três anos de atraso e menos de 20% de execução da obra. Misiones, segundo a deputada, teria recebido 13,493 bilhões de pesos (R$ 47,136 milhões) por meio de uma Unidade Transitória de Empresas ligada à rota 105. Santa Cruz e Salta também aparecem, assegurou, entre as províncias beneficiadas por remessas coordenadas com o calendário de votações.
Pagano também apontou o ministro da Economia, Luis Caputo como um “cuevero de baja monta” – um cambista insignificante -, autoridade que “aperta o botão de pagamento” através do Banco Nación para destravar as verbas conforme as necessidades legislativas do governo. “Tem governadores que têm preço”, advertiu a deputada, falando da existência de uma tabela “tarifária” do apoio político.
Além da contundente acusação nas redes, a parlamentar formalizou uma denúncia penal por “administração fraudulenta, corrupção passiva e malversação de fundos públicos” e declarou que “aposta numa condenação”.
Posteriormente, a deputada ampliou a apresentação judicial, analisando nove votações legislativas entre junho de 2024 (Lei Bases) e maio deste ano (Lei de Geleiras e Zonas Frias), sempre sustentando a mesma hipótese: que o Executivo teria usado o SisVial como ferramenta de negociação com governadores para influenciar o voto de seus legisladores aliados.
O argumento de Pagano ganhou força porque está sendo respaldado por inúmeras reportagens baseadas em balanços contábeis que sustentam que o governo arrecadou 1,503 bilhão de pesos (R$ 5,243 milhões) para o SisVial entre 2024 e maio de 2026, mas executou apenas 394,406 milhões (R$ 1,376 milhão) em obra. A diferença abismal – fez o que era pouco virar nada – e alimentou denúncias paralelas de vários legisladores contra Caputo e pedidos de explicação do chefe de Gabinete, Diego Santilli, e do próprio ministro da Economia.
O ex-governador de Mendoza, Julio Cobos, também acionou a Justiça para investigar o destino dos recursos, e o ministro de Infraestrutura da província de Buenos Aires, Gabriel Katopodis, sustentou publicamente que “este governo roubou o dinheiro do imposto aos combustíveis”.











