É da natureza do futuro ser perigoso

O caça F-39 Gripen, montado no Brasil (FOTO: Fotos Públicas)


ANDRÉ CLARK


RONALDO CARMONA

Há um século, Alfred North Whitehead escreveu uma frase que deveria estar afixada na parede de cada ministério e de cada conselho de administração do Brasil: “É da natureza do futuro ser perigoso; e é um dos méritos da ciência que ela prepara o futuro para os seus deveres”. Ele a escreveu em 1925, em meio aos escombros de uma guerra mundial e ao prenúncio da seguinte. Seu ponto não era pessimismo, mas definição. O perigo não é uma falha do futuro; é a função do futuro. A única pergunta é como nos preparamos para ele.

Em junho de 2026, tivemos uma demonstração do que significa “nos termos deles”. Uma única diretiva de controle de exportação de Washington forçou uma das principais empresas de IA do mundo a suspender seus modelos mais avançados para todos os estrangeiros do planeta (o governo norte-americano depois voltou atrás em sua decisão). Mas a lição é estrutural: neste século, a tecnologia avançada – IA, semicondutores, minerais críticos, energia – tornou-se infraestrutura estratégica, que pode vir a ser regulada como armamento. Uma nação sem capacidade própria não tem assento à mesa. Ela está no cardápio.

O Brasil precisa ler isso com clareza, porque nosso instinto é tratar vantagens como dotações, e não como plataformas. Detém as segundas maiores reservas de minerais críticos do mundo (talvez a primeira, se prospectarmos adequadamente nosso território), uma matriz energética majoritariamente renovável e um mercado interno continental, ativos amplamente cobiçados.

Mas um ativo que não foi preparado é apenas exposição com bom marketing. Exportar minério bruto enquanto se importa capacidade acabada é a forma moderna do velho colonialismo. O objetivo deve ser agregar valor internamente e integrar a cadeia de valor como produtor, com transferência de tecnologia.

Já temos o modelo, e ele funciona. O programa do caça Gripen com a sueca Saab nunca foi uma simples compra; foi estruturado como um dos maiores projetos de transferência de tecnologia da história do Brasil. Engenheiros da Embraer treinaram ao lado de colegas suecos; uma linha de montagem, um centro de projeto e um centro de ensaios em voo ergueram-se em Gavião Peixoto – a única linha do tipo fora da Suécia.

Em março de 2026, o Brasil apresentou o primeiro caça supersônico montado em solo nacional. A prova de que isso constrói agência, e não dependência, veio em seguida: a Colômbia encomendou a aeronave, abrindo a perspectiva de o Brasil tornar-se um polo regional de produção. Ele poderá ser ver com o ProSub, a cooperação franco-brasileira na construção de submarinos diesel-elétrico, cujas encomendas argentinas poderão ser construídas em Itaguaí (RJ). Passamos de comprador a produtor e a exportador – soberania transformada em matéria, capacidade que permanece no país muito depois de encerrado o contrato.

Se o Gripen e os submarinos mostram que a capacidade pode ser construída, o CNPEM – Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas – mostra algo mais poderoso: que a ciência é ela própria uma forma de soberania e, ao mesmo tempo, um instrumento de paz. O CNPEM opera quatro laboratórios nacionais que abrangem luz síncrotron, biociências, nanotecnologia, e biorrenováveis, e abriga o Sirius, uma das fontes de luz síncrotron mais avançadas do mundo – a primeira do Hemisfério Sul, ainda a única da América Latina, aberta a pesquisadores desde 1997. Agora se constrói o Orion, um complexo de máxima biossegurança para patógenos perigosos – exatamente a capacidade que um país quer possuir, e não alugar, quando a próxima pandemia chegar.

Aqui está o ponto mais profundo. Uma máquina como o Sirius não é uma arma; é um ímã. Suas linhas de luz estão abertas a milhares de pesquisadores por ano; um único estudo recente reuniu cientistas do Brasil, da Austrália, dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França, com experimentos paralelos em instalações irmãs no exterior. A ciência, nessa escala, é um esporte coletivo – uma das poucas atividades humanas que aproxima as nações em vez de afastá-las. Um laboratório é um lugar onde um brasileiro, um iraniano e um americano podem estar diante do mesmo instrumento e discordar apenas sobre os dados.

Numa era de controles de exportação e cadeias de suprimento transformadas em armas, isso não é sentimento brando; é estratégia dura. Uma nação que abriga ciência aberta de classe mundial acumula soft power – a força gravitacional que faz os outros quererem construir ao seu lado, e não contra você. Essa é uma agência de ordem superior: não apenas a capacidade de agir, mas a de convocar. É, silenciosamente, um caminho para a paz.

A fronteira privada segue a mesma lógica. Em 12 de junho de 2026, a SpaceX estreou na Nasdaq no maior IPO da história – valuation próximo de US$ 1,75 trilhão. Sob o espetáculo, é puro Whitehead: foguetes reutilizáveis que reduziram o custo de lançamento em cerca de 90% e uma constelação de satélites decisivas em zonas de conflito e de desastre. O capital privado financiou o perigo das apostas de engenharia básica, ainda que sob forte e por vezes oculto apoio do Estado americano, e daí emergiu um ativo estratégico para nações inteiras – tendo a Nasa, portanto o Estado, como seu maior cliente inicial. A fronteira se constrói quando a demanda pública e a ousadia privada apontam na mesma direção.

Para o Brasil, a agenda se escreve sozinha, ainda que exija planejamento e execução adequada, como já fizemos em momento do desenvolvimentismo do século XX. Na energia, nossa vantagem renovável precisa virar industrial – fabricar os equipamentos que a transição exige, em vez de importar o hardware do nosso próprio futuro limpo. Na saúde, a pandemia expôs nossa dependência de insumos importados; soberania significa uma base de pesquisa reconstruída, em que a redundância é segurança, não ineficiência. Na indústria, significa uma política de inovação que alinhe o poder de compra do Estado, a ciência das universidades e o apetite por risco do capital privado, que no caso brasileiro, exige a reversão do rentismo estrutural que nos aprisiona há 3 décadas.

Em um mundo whiteheadiano, a vantagem desloca-se da previsão para a preparação, e da dotação para a capacidade. O perigo é garantido; a preparação é uma escolha. O país pode escolher, por exemplo, utilizar os recursos crescentes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) como instrumento de alavancagem de projetos de alto impacto, que unam instituições de pesquisa e indústria, para que tenhamos novas Embraers e Sirius – com capacidade de agir e de convocar -, de forma a evitarmos o papel de meros espectadores de um futuro que se equipa sem nós.

André Clark é coordenador da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) e CEO da Viveo.

Ronaldo Carmona é professor da Escola Superior de Guerra (ESG) e assessor da Finep.

Publicado originalmente no Valor Econômico.

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