Encíclica de Leão XIV chama a impedir que IA se torne instrumento de desumanização e guerra

Papa lança sua encíclica "Magnifica Humanitas" (Albero Pizzoli/AFP)

‘Magnifica Humanitas’ (Magnífica Humanidade) é uma convocação à salvaguarda do ser humano na era da Inteligência Artificial e ao “desarmamento da IA”

Está gerando uma enorme repercussão a primeira encíclica do Papa Leão XIV, que faz um chamado a salvaguardar a pessoa humana na era da Inteligência Artificial e evitar que esta se torne instrumento de guerra, desumanização, desemprego e desigualdade.

A carta aos católicos e às pessoas de boa vontade do mundo inteiro foi oportunamente nomeada como “Magnifica Humanitas” – Magnífica Humanidade, em contraste com o deslumbramento diante dos “grandes modelos de linguagem”, comumente apelidados de “IA”, e exaltação aos data centers e à trajetória exponencial das ações das Sete Magníficas, como rotineiramente as Big Techs  – Apple, Alphabet (Google), Amazon, Meta (Facebook), Microsoft, Nvidia e Tesla – são referidas em Wall Street.

A apresentação aconteceu na segunda-feira (25) no Vaticano, depois de assinada no dia 15 em comemoração ao 135º aniversário da histórica “Rerum novarum”, de 1891, a encíclica do Papa Leão XIII sobre os direitos dos trabalhadores na era industrial. No documento, Leão XIV também pediu perdão pelo longo atraso da Igreja Católica em condenar a escravidão, uma “ferida na memória cristã”.

Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, em Chicago, e cuja trajetória o levou aos grotões peruanos, Leão não se esquivou a criticar o presidente Trump por desencadear a guerra contra o Irã, nem em advertir sobre os impactos da IA.

Durante a apresentação da encíclica, o Papa Leão XIV afirmou que “a inteligência artificial precisa ser desarmada” e “libertada de lógicas que a transformam em um instrumento de dominação, exclusão e morte”.

Ele esclareceu que as fortes palavras haviam sido escolhidas deliberadamente: “este momento precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar consciências e indicar caminhos para a humanidade”.

“A paz, e não apenas a ausência de guerra, é a justiça em ação, mas quando a tecnologia enfraquece nosso senso crítico, a própria paz está em perigo”, advertiu.

DESARMAR A IA

“Desarmar a IA significa libertá-la da mentalidade de competição ‘armada'”, escreveu Leão XIV. “Desarmar não significa rejeitar tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade”, acrescentando que a tecnologia deve ser “amigável ao ser humano”, acessível a todos e aberta à discussão e debate.

“A Inteligência Artificial é uma grande oportunidade para a humanidade, mas só será realmente boa se for guiada pelo amor, pela ética e pela busca do bem comum”, afirmou.

“O futuro não é da máquina, é do ser humano – com Deus, para o próximo e para a vida plena. Que esta encíclica seja um convite à responsabilidade, ao diálogo e à esperança, para que a IA seja verdadeiramente a serviço da vida e da fraternidade universal”, aponta a encíclica em sua conclusão.

Entre os desafios que estão lançados, a encíclica aponta o risco de reduzir o ser humano a dados e números, enfraquecendo relações reais; de aumentar a desigualdade e deixar muitos sem trabalho digno; de ameaçar a privacidade, a liberdade e a democracia; e a perda de sentido, com o excesso de tecnologia levando ao individualismo e ao isolamento.

OS VALORES DA ENCÍCLICA

A encíclica é desenvolvida em torno de cinco temas centrais: “dignidade do ser humano como valor supremo”, “Perigos de uma elite tecnológica sem controle”, “Transparência, regulação e diálogo multidisciplinar”, “Impacto na paz, no emprego e na equidade social” e “A inteligência artificial precisa ser desarmada”.

Alertando sobre uma “torre de Babel” digital, o documento ressalta que plataformas tecnológicas e sistemas algorítmicos devem estar orientados ao bem-estar humano, e não o contrário.

“Não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo artefato técnico carrega consigo decisões e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações. Se um sistema é concebido ou utilizado tratando algumas vidas como menos dignas, ou as exclui sem possibilidade de recurso, não se trata de um simples instrumento que ‘deve ser usado corretamente’; ele já introduz um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa”, afirma o texto.

O documento alerta ainda quanto a um avanço tecnológico sem limites éticos, que apenas consolide o poder de “poucos”, exclua os vulneráveis ou retire a humanidade das relações sociais.

“Não serviria de nada uma IA mais moral se essa moral fosse decidida por poucos. É necessária uma política mais presente, capaz de desacelerar onde tudo acelera e de proteger os espaços nos quais as comunidades possam continuar participando e questionando”, afirma a “Magnifica Humanitas”.

Sobre a necessidade de mecanismos claros de prestação de contas e acordos internacionais, o documento aponta que “não basta invocar genericamente a ética; são necessários marcos jurídicos adequados, fiscalização independente, educação dos usuários e uma política que não renuncie à sua tarefa”.

“Ao contrário dos benefícios anunciados sobre a IA, as abordagens atuais da tecnologia podem, paradoxalmente, desespecializar os trabalhadores, submetê-los a vigilância automatizada e relegá-los a tarefas rígidas e repetitivas.”

O texto também aborda questões como o direito ao trabalho digno e a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, mas se preocupa especialmente “com o renascimento da guerra como instrumento da política internacional”, com a automatização dos sistemas armamentistas e com a IA ajudando a facilitar a “normalização da guerra”.

“Por essa razão, o desenvolvimento e o uso da IA na guerra devem estar sujeitos às mais rigorosas restrições éticas, para garantir o respeito à dignidade humana e à santidade da vida e para evitar uma corrida para desenvolver tais armas”, escreveu Leão XIV. Ele acrescentou que alguns sistemas de armas autônomos estão “praticamente além do alcance humano” para controle.

O papa também faz uma advertência sobre o controle da IA pelos monopólios privados, em que destaca que o poder sobre sistemas digitais, infraestrutura e dados “não pertence aos Estados, mas aos principais atores econômicos e tecnológicos”, e que, quando esse poder era concentrado “nas mãos de poucos”, tendia a “se tornar opaco e evitar a supervisão pública, aumentando o risco de formas distorcidas de desenvolvimento que geram novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.

SERVIR A TODA A HUMANIDADE E NÃO SÓ UMA MINORIA

 “Assim como a energia nuclear, a IA deve ser guiada pela consciência e responsabilidade, servindo à paz, à justiça e a toda a humanidade, e não apenas a uma minoria privilegiada”, diz o documento. Segundo o Vaticano, o texto baseou-se na escuta de cientistas, engenheiros, líderes políticos, educadores e, fundamentalmente, na voz dos marginalizados e daqueles que sofrem as consequências dessas tecnologias. O futuro – enfatiza – deve ser desenhado em conjunto: por quem cria os sistemas e por quem sofre suas consequências, unindo países ricos e pobres.

O Papa Leão XIV afirma que a Igreja não possui respostas técnicas e nem deseja substituir os especialistas, mas oferece uma “sabedoria sobre o humano”, defendendo que cada pessoa é única, livre e insubstituível. Ele convoca a humanidade a se unir como “artesãos da esperança” para construir uma sociedade mais fraternal e justa.

ANTI-‘MANIFESTO DA PALANTIR’

Por seu teor, a encíclica é uma espécie de reprovação ao que tem sido chamado de “manifesto do tecnofascismo”, de autoria de Alex Karp, CEO da Palantir, uma empresa de AI cevada pela CIA, com contrato de US$ 10 bilhões com o Pentágono, e cujo algoritmo está a serviço da morte em Gaza, Ucrânia e Irã.

Recentemente Karp, ao testemunhar em um processo judicial, foi direto ao ponto sobre o ‘modelo de negócios’ de sua empresa: “Nosso produto é usado para matar pessoas”. Frase que desmascara toda a retórica sobre “fusão de dados” e “integração de IA” para revelar a crua realidade da função da Palantir.

Um relatório do The Times revelou que, durante a invasão do Iraque, o Exército dos EUA precisava de uma equipe de inteligência de 2.000 pessoas para identificar alvos em terra. Na Operação Fúria Épica, a mesma carga de trabalho foi realizada por apenas 20 soldados usando o software da Palantir.

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