Feminicídios explodem em São Paulo, enquanto Tarcísio vende “proteção na palma da mão”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Enquanto o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) usa a tecnologia como vitrine para apresentar sua política de proteção às mulheres, os números oficiais da segurança pública mostram um cenário bem menos cor-de-rosa. São Paulo registrou 141 feminicídios no primeiro semestre de 2026, o maior número para o período desde o início da série histórica, em 2018.

Os registros representam uma alta de 10% em relação aos seis primeiros meses de 2025, quando foram contabilizados 128 casos. Como uma das ocorrências deste ano teve duas mulheres assassinadas, o número de vítimas chegou a 142. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP). 

O resultado ocorre enquanto Tarcísio tenta associar sua gestão a uma política de proteção baseada em tecnologia. Em propaganda recente, o governador promove o aplicativo SP Mulher Segura e afirma que, em São Paulo, agressores podem ser monitorados por tornozeleiras eletrônicas e que a polícia é acionada caso eles se aproximem das vítimas.

“Proteger as mulheres é uma prioridade”, diz Tarcísio na peça publicitária, na qual afirma ainda que as mulheres têm a proteção do governo “na palma da mão”. Os números, porém, contam outra parte dessa história.

FEMINICÍDIOS QUASE DOBRARAM EM QUATRO ANOS

O avanço não começou em 2026. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que São Paulo registrou 136 vítimas de feminicídio em 2021, 195 em 2022, 221 em 2023, 253 em 2024 e 270 em 2025.

Entre 2021 e 2025, o aumento foi de 96,4%, fazendo com que o número de mulheres vítimas de feminicídio praticamente dobrasse no período. São Paulo teve, ainda, o maior crescimento entre os estados do Sudeste na comparação desses anos. 

O dado exige uma ressalva: 2021 ainda não corresponde ao governo Tarcísio, que assumiu o Palácio dos Bandeirantes em janeiro de 2023. Ainda assim, a comparação permite dimensionar a evolução do indicador nos últimos anos. Já sob Tarcísio, o número de vítimas passou de 221, em 2023, para 253, em 2024, e chegou a 270 em 2025. 

Se considerado apenas o período de 2022 a 2025, portanto, o crescimento foi de 38,5%.

O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública chama atenção para o cenário paulista. Segundo a entidade, o crescimento dos feminicídios ocorre paralelamente à redução de homicídios de mulheres em contextos de violência urbana, enquanto aumenta a letalidade em ambientes domésticos, familiares e afetivos.

2026 COMEÇA COM NOVO RECORDE

Entre janeiro e junho deste ano, o estado registrou 141 ocorrências de feminicídio, contra 128 no mesmo período de 2025. O aumento foi puxado principalmente pelo interior paulista, onde os casos passaram de 70 para 96 — alta de 37,1%. 

Na capital, houve queda: foram 24 feminicídios no primeiro semestre de 2026, ante 31 no mesmo período do ano passado. Na Região Metropolitana, os registros caíram de 27 para 21. O avanço estadual, portanto, está concentrado principalmente no interior. 

Mesmo com a alta no acumulado do ano, junho apresentou uma redução. Foram 17 registros no mês, contra 21 em junho de 2025. A queda mensal, entretanto, não foi suficiente para impedir que o primeiro semestre terminasse no maior patamar da série histórica.

A própria SSP reconhece que o combate ao feminicídio exige mais do que ferramentas tecnológicas.

Em nota, a delegada Cristiane Braga, coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher no estado, afirmou que o enfrentamento à violência contra a mulher depende de investigação qualificada, acolhimento humanizado e atuação integrada com toda a rede de proteção.

A declaração expõe um ponto que fica escondido na propaganda oficial: mecanismos como aplicativos, medidas protetivas e tornozeleiras podem ser instrumentos importantes de prevenção, mas precisam estar integrados a uma rede capaz de identificar situações de risco, acolher vítimas e interromper trajetórias de violência antes que elas terminem em morte.

Os dados nacionais ajudam a dimensionar esse caminho. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para cada feminicídio registrado no Brasil em 2025, foram contabilizados 502 casos de ameaça, 182 agressões físicas e 79 crimes de perseguição contra mulheres. 

Em São Paulo, a contradição fica cada vez mais evidente: enquanto o governo apresenta novas ferramentas para dizer que a proteção está “na palma da mão”, 270 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 e outras 142 foram mortas em apenas seis meses de 2026.

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