Wall Street Journal reclama em editorial que acordo seria “um revés estratégico” e que Irã passaria a ser visto no Golfo Pérsico como a “força dominante”. Ormuz e questão nuclear ficariam para depois
Trump disse, sucessivamente que um acordo com o Irã estava “muito próximo” (sábado), para depois voltar atrás de que não era para “ir rápido demais” (domingo) e, logo a seguir que seria “obrigatório” (nesta segunda-feira) que Arábia Saudita, Catar e Paquistão aderissem aos Acordos de Abraão (o reconhecimento de Israel sem Estado Palestino) para o acordo com o Irã sair.
Ao que o porta-voz Esmaeil Baghaei veio a público esclarecer, sobre os divulgados “avanços” nas tratativas mediadas pelo Paquistão, que as discussões estão voltadas a dar fim à guerra. E não incluem, nesta fase, nem a abertura do Estreito de Ormuz, nem a questão nuclear, como andaram alegando fontes de Washington.
ACABAR COM A GUERRA
“Neste momento, nosso foco é acabar com a guerra imposta”, enfatizou Baghaei, acrescentando: “Nossa intenção tem sido primeiro concordar com um Memorando de Entendimento composto por 14 cláusulas.”
Como parte das negociações, nesta segunda-feira (25) os dois principais negociadores do Irã, Abbas Araghchi (chanceler) e Mohammad Baqar Ghalibaf (presidente do parlamento), foram a Doha para se reunir com o Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani. O presidente do BC iraniano fez parte da delegação. Há relatos que bancos do Catar deteriam US$ 25 bilhões iranianos congelados pelas sanções.
No sábado, o chefe do exército paquistanês, Asim Munir, concluiu uma visita ao Irã curta, mas “altamente produtiva”, durante a qual houve “progressos encorajadores”.
De acordo com Baghaei, “em um período de 30 a 60 dias”, Teerã e Washington chegariam a um acordo final: “entre os principais temas a serem abordados no Memorando estão a cessação dos ataques marítimos dos EUA, ou bloqueio naval, como eles mesmos chamam, e outras questões relacionadas à liberação dos ativos congelados iranianos”.
O porta-voz disse que uma conclusão foi alcançada em muitos tópicos, mas isso não significa que “estamos perto de assinar um acordo”. Sobre os ziguezagues de Trump, os negociadores pelo lado americano argumentaram que as declarações dele são para “consumo doméstico” e não devem ser levadas demasiado em conta.
SEM RECUOS
Em meio a esses relatos, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohammad Bagher Zolghadr, afirmou que “não haverá recuos” ou rendição, enfatizando que isso foi demonstrado “pelo campo militar, pelo campo diplomático e pelo povo que está presente nas ruas com sua poderosa resistência e imobilizou o inimigo no chão.”
Já se aproxima de 60 dias o cessar-fogo que Washington teve de aceitar, após a poderosa retaliação do Irã à agressão não provocada, com sucessivas ondas de mísseis e drones, ter devastado as bases americanas bem como os estoques de mísseis interceptadores avançados e até derrubado um F-35.
Em paralelo, nos EUA há reprovação em massa à guerra contra o Irã e insatisfação com a alta dos combustíveis dela decorrente, com as pesquisas identificando Trump como o responsável – isso, a seis meses das eleições de novembro.
A média nacional do preço da gasolina era de US$4,51 por galão no domingo—um recorde de quatro anos para o fim de semana do Memorial Day—com o diesel em US$5,62, ambos aumentando aproximadamente 50% desde o início da guerra.
SÓ COM ESTADO PALESTINO
A pressão de Trump nesta segunda-feira sobre a Arábia Saudita a respeito dos ‘Acordos de Abraão’ foi prontamente respondida por Riad, que reiterou sua posição de que só haverá reconhecimento de Israel em troca da constituição do Estado Palestino, paz por terra (que foi roubada aos árabes), nas fronteiras de 1967, como propõe a Iniciativa de Paz Árabe desde 2002.
Como registrou recentemente o Financial Times, existe a proposta de que a estrutura de segurança da região siga os contornos da Ata de Helsinkik de 1975, que estabeleceu a segurança indivisível e coletiva para todos os signatários na Europa durante a Guerra Fria.
O que reflete a crescente percepção de que a presença das bases norte-americanas nos países do Golfo não os protege das maquinações de Israel e os converte em alvos preferenciais, como foi visto nos 40 dias de guerra.
A Arábia Saudita, que retomou relações diplomáticas com o Irã graças à mediação da China em 2023, está propondo um tratado de não-agressão a todos os países do Golfo.
A CHAVE DE ORMUZ
Há urgência ainda em desfazer a lambança desencadeada por essa guerra de agressão ao Irã: o fechamento da mais estratégica hidrovia do planeta, por onde transitam petróleo, gás, fertilizantes e outros insumos imprescindíveis, aberta por décadas até o 28 de fevereiro do ataque à traição contra o Irã, em meio negociações em Genebra, e assassinato do líder máximo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Sem a reabertura, a economia global está à beira da depressão, como têm advertido o FMI e a Agência Internacional de Energia. A guerra também destruiu instalações de produção no Golfo, que levarão anos para serem reconstruídas.
A agência de notícias Fars também desmentiu a alegação de Trump de que o Estreito de Ormuz voltaria à sua condição anterior, afirmando que a hidrovia ainda estará sob a gestão do Irã. Embora o Irã tenha concordado em permitir que o número de navios que passem retorne ao nível pré-guerra, isso não significa “passagem livre” para a situação pré-guerra de forma alguma. A gestão do estreito, a determinação da rota, o horário, a forma de passagem e a emissão das permissões permanecerão exclusivamente sob o controle e discricionariedade da República Islâmica do Irã.
O Irã também divulgou que a cessação da guerra terá de ser em todas as frentes, o que significa incluir o Líbano, que o regime Netanyahu/Gvir vem dizimando.
Se o acordo que reabre o Estreito for assinado e entrar em vigor, significa que Trump iniciou uma guerra para voltar ao ponto de partida, Ormuz reaberto, e com o Irã muito mais fortalecido por ter sobrevivido a uma guerra de agressão e de decapitação, ter reunificado a nação no enfrentamento do inimigo depois da ‘revolução colorida’ fracassada de janeiro, e tendo renovado, no calor da luta, sua liderança nacional e em todas as áreas, de que Mojtaba Khamenei é síntese. E com o regime genocida e de apartheid, Israel, cúmplice de Trump, já de forma inconteste visto no mundo inteiro como Estado Pária, no caminho da África do Sul boer.
“REVÉS ESTRATÉGICO”
Várias forças políticas nos EUA chiaram do possível acordo de paz com o Irã. “Se um acordo for feito para encerrar o conflito iraniano porque se acredita que o Estreito de Ormuz não pode ser protegido do terrorismo iraniano e o Irã ainda possui capacidade para destruir a principal infraestrutura petrolífera do Golfo, então o Irã será visto como uma força dominante que precisa de uma solução diplomática”, escreveu o arquirreacionário senador republicano Lindsey Graham no sábado, em uma publicação no X. O que considerou um “pesadelo para Israel”.
Em editorial no domingo com o título “Trump vai socorrer o regime do Irã?”, o Wall Street Journal chamou o possível acordo de “revés estratégico”. “Se o bloqueio terminar e o Irã puder vender seu petróleo, tudo o que resta para coagi-lo a concessões nucleares é a ameaça de uma nova guerra”, acrescentou. “Salvar um regime assim agora com um resgate econômico seria a verdadeira traição.”
Em suma, eles não cansam de mentir sobre as inexistentes armas nucleares iranianas, conforme o paradigma nazista de que uma mentira repetida mil vezes vira “verdade”.
O senador democrata Chris Van Hollen disse à CBS “Face the Nation” no domingo que o acordo seria um “erro”. “Parece que voltaremos a abrir o Estreito de Ormuz, que, claro, já estava aberto antes do início da guerra”, disse Van Hollen.
“Parece que o Irã manterá mais controle sobre esses estreitos. Também sabemos que o Irã tem um regime ainda mais rígido agora, e estamos falando em liberar alguns dos ativos congelados do Irã.”
Por sua vez a Al Jazeera, a agência de notícias do Catar, voltou a se referir aos mais recentes comentários de Trump sobre o possível acordo, citando a diretora executiva do Fórum Internacional do Golfo, Dania Thafer, que disse Trump está tentando apresentar a guerra, que tem sido um “fracasso estratégico”, como um sucesso para os EUA e Israel.
Ela assinalou que os Estados do Golfo – especialmente a Arábia Saudita e o Catar – “não estão interessados” em normalização [com Israel] neste momento. Além da causa palestina, Thafer explicou, os países do Golfo – que sofreram ataques iranianos durante a guerra – não querem “inclinar a balança a favor da ordem regional liderada por Israel”.
Já no interior de Israel, matérias do jornal Haartez mostram figuras do governo da coalizão fascista, comandada por Netanyahu e Gvir, dizendo que seria preciso retomar a guerra com o Irã para evitar uma derrota dos naziisraelenses nas próximas eleições, portanto, nada a ver com a propalada ameaça do Irã à segurança de Israel.











