Governador bolsonarista quer acabar com o SAMU em Mato Grosso

Foto: João Vieira/Gazeta Digital

A decisão do governo de Mato Grosso de transferir o atendimento de urgência e emergência do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) para o Corpo de Bombeiros provocou forte reação entre parlamentares e profissionais da saúde. O anúncio, feito pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos), foi justificado como uma medida para reduzir custos e “enxugar” a máquina pública.

Na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, a medida encontra resistência entre parlamentares de diferentes partidos, que saíram em defesa do SAMU.

O médico e deputado estadual Lúdio Cabral (PT) denunciou a inciativa. Segundo ele, a justificativa de economia não se sustenta diante da importância do serviço. “O argumento que o governador utilizou é de que o objetivo é reduzir custos. Não tem sentido isso, você reduzir custos naquilo que é o mais essencial dos atendimentos à saúde da população, que é o socorro a pessoas em situações de emergência clínica. Eu, sinceramente, não consigo entender a razão para essa iniciativa.”

O parlamentar também destacou que o Samu conta com financiamento federal, o que torna ainda mais incoerente a justificativa apresentada pelo governador. “O próprio argumento da redução de custos é um argumento equivocado, porque o Ministério da Saúde participa do cofinanciamento do SAMU. As ambulâncias são ambulâncias que o Ministério da Saúde encaminha para o Estado. O Mato Grosso recebeu 18 ambulâncias novas no final do ano passado. Se acaba com o SAMU, essas ambulâncias vão ser todas recolhidas pelo Ministério da Saúde.”

Cabral ainda lembrou que uma experiência semelhante já fracassou em outro estado. “Houve um movimento no passado, há alguns anos, no Rio de Janeiro, em que foi feita essa substituição. Não durou dois, três meses e eles tiveram que voltar atrás.”

Já Valdir Barranco (PT) classificou a ideia como um ataque direto ao sistema público de saúde e denunciou a precarização do serviço. “Quero saudar aqui os servidores e servidoras do SAMU, que fazem a resistência contra a destruição promovida pelo governo do Estado e pela Secretaria de Estado de Saúde contra uma instituição tão importante para o Brasil e para o Estado de Mato Grosso.”

Ele aponta que o desmonte já estaria em curso, com redução significativa da estrutura. “Estavam me informando que de 12 bases de Cuiabá e Várzea Grande, só cinco estão funcionando ainda precariamente. É uma vergonha isso.”

O parlamentar também estendeu a crítica ao cenário da saúde pública estadual. “A saúde do Estado de Mato Grosso está precarizada. Basta cada um de nós – somos deputados – nos atermos às inúmeras ligações desesperadas que nós recebemos todos os dias de pessoas que estão nas filas esperando por cirurgias.”

Barranco citou como exemplo um caso concreto que ilustra bem a precariedade da saúde em Mato Grosso. “Atendi uma pessoa cujo pai de 83 anos está há quatro anos aguardando uma cirurgia nesse Estado que se arvora em dizer que tem uma gestão de excelência. “É uma vergonha. Fica aqui minha solidariedade, o meu apoio irrestrito ao SAMU e espero que nós, com a força que essa Assembleia tem, possamos reverter essa situação.”

Durante sessão na Casa, outro colega, o deputado estadual Wilson Santos (PSD) criticou a decisão e defendeu a manutenção da estrutura do SAMU. “O Samu foi criado há algumas décadas, em nível nacional. É muito importante e tem trazido resultados significativos. Não é a primeira vez que nos deparamos com esse tipo de impasse”, afirmou.

A medida também é criticada pelo deputado Dr. João (MDB.) “Onde tudo está funcionando, chega alguém que inventou a roda e quer mudar tudo. Ninguém é contra o trabalho do Corpo de Bombeiros na saúde. Em Tangará da Serra trabalham 14 médicos, onde sete vão para a rua e outros sete ficam na base. Eles têm experiência de atendimento de emergência. Lá o Bombeiro com o Samu é maravilhoso. Será que o Samu em Cuiabá é um entrave na Baixada Cuiabana? 

O parlamentar também questiona se a decisão não vai comprometer os repasses da União. “Se tirar o SAMU o governo federal vai continuar ajudando?”.

Mais de 50 servidores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foram desligados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) do Estado, incluindo 10 condutores socorristas, 22 enfermeiros e 24 técnicos de enfermagem. 

Além das críticas políticas, profissionais da linha de frente alertam para impactos técnicos e clínicos da mudança. Uma enfermeira do Samu destacou que a decisão não se trata apenas de reorganização administrativa, mas de uma alteração “preocupante” no modelo de atendimento. “Uma decisão política pode custar a vida de alguém e você nem vai saber. Desmontar o SAMU não é gestão, é comprometer o desfecho clínico.”

Ela explica que o diferencial do Samu está na regulação médica – um sistema que define prioridades com base no risco do paciente. “O SAMU não é transporte, é regulação médica em tempo real. Existe um médico regulador que estratifica o risco, define prioridades e direciona o recurso adequado.”

Sem esse mecanismo, segundo a profissional, o atendimento pode perder eficiência e aumentar riscos. “Sem isso você perde triagem qualificada, sem triagem você perde vidas”, alerta. A enfermeira também ressaltou que rapidez, por si só, não garante eficácia no socorro. “A emergência não é só ambulância na rua, não é só chegar rápido. É decidir quem vai morrer primeiro se não for atendido.”

A integrante do SAMU também ressaltou a importância da atuação dos Bombeiros, mas fez uma distinção sobre o papel desses profissionais. “O Corpo de Bombeiros é essencial, mas não substitui a tomada de decisão clínica. São funções complementares, não intercambiáveis”, esclareceu.

Outra profissional do SAMU de MT, a enfermeira Patrícia Ferreira, em entrevista a um blog local, reforçou a importância da qualificação técnica das equipes no atendimento pré-hospitalar. “São profissionais com qualificação técnica e de nível superior, que estão regulamentados pelo Ministério da Saúde para fazer atendimento pré-hospitalar”, afirmou.

Ela também destacou a necessidade de equipes completas e capacitadas para esse tipo de ocorrência. “Por esse motivo nós precisamos de enfermeiros, técnicos de enfermagem e condutores socorristas habilitados para isso, da mesma forma médicos emergencistas, porque o atendimento é feito lá no local, se necessário”, explicou.

Ela ainda destacou que modelos de referência adotados em outros países são baseados justamente nesse tipo de organização. “Modelos internacionais eficientes como o francês e o espanhol são baseados em regulação médica. Não existe uma substituição por um modelo puramente operacional.”

A população também reagiu contra a decisão do governo. Em publicações do perfil “pordentrodetudo.com” no Instagram, internautas manifestaram preocupação com a possível mudança no modelo de atendimento e relataram experiências pessoais com o serviço. “Sou enfermeira de um lar de idosos, sempre estou precisando do SAMU. Além de enviar a ambulância, a médica reguladora me orienta o que fazer até a ambulância chegar, é um respaldo que salva vidas”, comentou uma usuária. Outro relato destacou a diferença entre os serviços: “As pessoas não sabem diferenciar os atendimentos entre o SAMU e os bombeiros. Os dois são importantes, porém, diferentes”.

Também houve manifestações mais contundentes sobre os riscos da substituição. “O Samu é totalmente essencial, os dois são indispensáveis”, escreveu um internauta. Em outro comentário, uma usuária relatou um episódio pessoal para ilustrar sua preocupação com a ausência de atendimento médico especializado durante o transporte de emergência.

“Enquanto o SAMU não temos médicos, eu perdi meu irmão porque ele se afogou na piscina e chamaram os bombeiros. Ele saiu da casa da minha irmã ainda com vida e quando chegou no hospital estava todo roxo e sem vida, disse uma enfermeira que é minha amiga. Se tivesse chamado o SAMU com certeza não tinha acontecido nada, a enfermeira acha que ele teve alguma parada dentro do carro dos bombeiros e sem médico já viu”, lamentou.

Já outros seguidores apontaram que discussões semelhantes estariam ocorrendo em outros estados, ampliando o debate sobre o tema. “Estão tentando acabar com o SAMU em Minas Gerais, também”.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *