“Hoje, a Sabesp não tem mais equipes de rua com mão de obra própria. É só terceirizado”, denunciou o engenheiro
Amauri Pollachi, coordenador do ONDAS (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento) e diretor da APU (Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp), criticou duramente a atuação da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), relacionando o aumento de acidentes, falhas operacionais e problemas no abastecimento à política de terceirização e à redução “brutal” do quadro de funcionários da empresa após a privatização.
Em entrevista concedida à Hora do Povo, o engenheiro também responsabilizou o governador Tarcísio de Freitas pelo enfraquecimento da fiscalização e pela condução do processo de privatização. As declarações foram dadas após a explosão ocorrida durante obras da Sabesp no Jaguaré, na zona oeste da capital paulista, que causou a morte de duas pessoas, destruiu casas e deixou diversas famílias desalojadas.
“O Estado é “triplamente’ responsável por todo o descalabro que está acontecendo com a Sabesp.”
Os acidentes envolvendo obras da companhia (que já provocaram quatro mortes no prazo de um ano), segundo o especialista, são consequência direta da lógica de redução de custos implementada após a privatização da empresa. Com 30 anos de atuação na companhia, ele avaliou que a substituição de trabalhadores experientes por equipes terceirizadas comprometeu a segurança das operações e agravou a precarização dos serviços prestados à população.
“Hoje, a Sabesp não tem mais equipes de rua com mão de obra própria. É só terceirizado.”
HP: Você dizia que hoje há um sentimento de tristeza e até constrangimento entre antigos funcionários da Sabesp ao ver no que a empresa se transformou após a privatização.
Amauri Pollachi: Exatamente. Eu até acredito que seria muito bem recebido pela população um projeto de lei que proibisse a Equatorial de utilizar o nome Sabesp. Vamos preservar esse nome. A Equatorial está realmente colocando o nome Sabesp na lata do lixo da forma como está atuando hoje.
O governador Tarcísio de Freitas afirmou que perde o sono com tantas obras sendo realizadas pela Sabesp. Mas quem mora nas áreas afetadas consegue dormir tranquilo?
Não é o governador que não dorme. É a população atendida pela Sabesp que não consegue mais ter um sono tranquilo. Seja pelas obras muito mal executadas, seja pela falta d’água sistemática que essa empresa impõe principalmente às regiões mais pobres e periféricas das grandes cidades.
O governador atribui o aumento dos acidentes ao avanço do número de obras. Mas, se há mais obras, não deveria haver também mais fiscalização e uma estrutura mais segura?
A justificativa do governador é patética. Ora, se eu tenho mais obras, deveria ter um processo de fiscalização, acompanhamento e especificação muito mais rigoroso. O problema é justamente o contrário: houve afrouxamento da fiscalização. Hoje, pelo contrato firmado após a privatização, a verificação das obras da Sabesp é feita por uma empresa contratada pela própria Sabesp, chamada de “agente verificador”. Essa empresa entrega relatórios à agência reguladora, e a agência praticamente apenas carimba esses documentos. Ela deixou de ter força real de inspeção e fiscalização. Atua apenas de maneira reativa, quando já existe uma crise instalada.
Você acredita que os recentes acidentes poderiam ter sido evitados?
Sem dúvida. Veja o caso dessa obra realizada numa rua estreita, onde havia tubulação de gás. Em situações assim, qualquer intervenção exige extremo cuidado e protocolos rigorosos previamente acordados com a Comgás.
Antigamente, muitas dessas escavações eram feitas quase manualmente justamente para evitar danos à rede de gás. Os funcionários da Sabesp recebiam treinamento específico da Comgás e tinham pleno conhecimento dos procedimentos de segurança.
Hoje, o que vemos é o contrário. Os relatos dos moradores mostram que havia cheiro de gás e que a população alertou os trabalhadores sobre isso. Mesmo assim, o serviço continuou. Isso é gravíssimo.
Houve negligência, então?
Evidentemente. Quando uma tubulação de gás é atingida por uma escavação, é porque houve uso inadequado de maquinário pesado, como retroescavadeiras ou equipamentos de impacto.
E mais: em caso de vazamento, os trabalhos deveriam ser imediatamente interrompidos. Isso fazia parte dos protocolos. Mas os relatos mostram que os alertas dos moradores foram ignorados.
O gás pode ficar acumulado em cavidades subterrâneas ou até invadir imóveis. Basta uma faísca para provocar uma tragédia. O resultado foi uma explosão absurda, com mortos, feridos, centenas de desalojados e dezenas de imóveis afetados.
Você classificou esse episódio como uma “catástrofe anunciada”.
Sim. Da mesma forma que ocorreu em Brumadinho (MG). A lógica é muito parecida: a sede de lucro prevalece acima de tudo. Na Vale, negligenciaram manutenção e segurança até que a barragem rompeu. Aqui ocorre algo semelhante. Nada mais lembra a Sabesp que existia antes. O foco deixou de ser o serviço público e passou a ser exclusivamente financeiro.
Isso estaria diretamente ligado à terceirização?
Totalmente. A empresa tomou uma medida que o mercado financeiro adorou: mandou embora quase metade da força de trabalho. Dos 12.300 funcionários que existiam em dezembro de 2022, cerca de 5.900 foram demitidos. E não foram demissões aleatórias. Saíram justamente os trabalhadores mais experientes, mais qualificados e com maior tempo de casa. Hoje, a Sabesp não tem mais equipes de rua com mão de obra própria. É só terceirizado.
E qual o impacto disso no funcionamento da empresa?
Você passou a ter equipes com altíssima rotatividade, baixos salários e pouca qualificação. São trabalhadores que entram e saem rapidamente porque encontram empregos melhores. Nessas condições, é muito difícil garantir treinamento consistente e formação técnica adequada. O resultado aparece no campo: obras mal executadas, acidentes, vazamentos e interrupções constantes no abastecimento.
O Estado pode alegar que não tem responsabilidade pelo que está acontecendo?
Não. O Estado é o maior responsável por esse descalabro. Primeiro porque tomou a decisão de privatizar a Sabesp. Segundo porque continua presente no conselho de administração da empresa e aprova tudo que a Equatorial apresenta. E terceiro porque enfraqueceu brutalmente a agência reguladora.
O senhor considera o Estado apenas conivente ou cúmplice desse processo?
Eu diria que é cúmplice. O Estado ainda possui participação acionária na Sabesp e tem representantes no conselho de administração. Esses representantes aprovam tudo o que a Equatorial propõe. Além disso, existe uma agência reguladora completamente fragilizada e aparelhada politicamente.
Como você avalia hoje a situação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo)?
A Arsesp deixou de ser um órgão de Estado para se transformar num órgão de governo. Hoje, ela deveria ter 251 cargos ocupados por servidores concursados, mas possui pouco mais de 100. Em compensação, os cargos comissionados estão praticamente todos preenchidos.
Isso compromete a independência da agência?
Amauri Pollachi: Sem dúvida. Há inclusive o fenômeno da “porta giratória”. O atual presidente da Arsesp, Diego Domingues, veio do conselho fiscal da própria Sabesp. Ou seja, a pessoa que deveria fiscalizar a empresa fazia parte da sua estrutura pouco antes.
A escolha da Equatorial para assumir o controle da Sabesp agravou ainda mais a situação?
Sim. A Equatorial foi a única concorrente na privatização e praticamente não tinha experiência em saneamento. Ela operava apenas uma pequena concessão no Amapá. Não existe comparação possível entre isso e a complexidade da Sabesp, que atende mais de 30 milhões de pessoas no Estado de São Paulo.
Pode-se afirmar que a empresa administra a Sabesp apenas sob a lógica financeira?
Exatamente. Eles administram o saneamento de São Paulo olhando para uma planilha de Excel de redução de custos, sem compreender a dimensão social e estratégica da empresa.
O governador, no entanto, segue defendendo a empresa.
E isso é extremamente grave. Um governante comprometido com a população diria claramente que a empresa está prestando um serviço ruim e que será duramente fiscalizada. Mas o que vemos é o contrário: justificativas permanentes para os erros da Sabesp.
Você também citou o episódio da cratera na Marginal Tietê.
Sim. Naquele momento, a Sabesp despejava esgoto no Rio Tietê e dizia que não existia outra solução. O governador repetiu o mesmo discurso. Dois dias depois, encontraram uma alternativa técnica usando tubulações provisórias sobre as pontes. Isso depois de um helicóptero da Globo sobrevoar a região. Então havia solução, sim. O problema é que existe uma tentativa constante de esconder os problemas e minimizar os erros da empresa.
A Arsesp afirma ter realizado mais de mil ações fiscalizatórias desde a privatização. Isso é suficiente?
De forma alguma. A Sabesp atua em 371 municípios. Fazer duas fiscalizações por dia (fazendo as contas, é isso que dá) é absolutamente insuficiente para a dimensão do problema.
Você costuma lembrar a crise hídrica de 2014/2015 para fazer comparações.
Porque naquela época foram realizadas centenas de obras emergenciais na Região Metropolitana de São Paulo, a maioria delas com mão de obra própria da Sabesp. Havia trabalhadores extremamente comprometidos, gente que passava semanas longe de casa para resolver o problema. E sabe quantos acidentes graves ocorreram? Zero! Não foi registrado um único acidente!
Isso desmonta completamente a desculpa de que os acidentes atuais acontecem porque existem muitas obras.
Existe possibilidade de reverter a privatização da Sabesp?
Não é impossível. Há exemplos internacionais, como o caso de Berlim, onde houve reestatização após consulta popular. Mas no caso da Sabesp isso teria um custo altíssimo. O Estado provavelmente teria de gastar muito mais do que arrecadou com a privatização para retomar o controle acionário.
Mesmo assim, na sua avaliação, esse debate tende a crescer?
Se a situação continuar se deteriorando dessa forma, inevitavelmente esse debate vai crescer. E mesmo sem reestatização imediata, um governo comprometido com a população poderia fortalecer a agência reguladora, endurecer a fiscalização e rever cláusulas extremamente favoráveis à Equatorial. O que não pode continuar é a população pagando a conta de uma privatização desastrosa.











